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Leituras no
Império |
Análise |
Multidão de
Subjetividades
João Paulo Malerba
"No
Império nenhuma subjetividade está do lado de fora e todos os
lugares foram agrupados num não-lugar geral".
"... o fim da modernidade também pôs fim à esperança de
encontrar algo que possa identificar o eu fora da comunidade,
fora da cooperação, e fora das relações críticas e
contraditórias que cada pessoa encontra num não-lugar, isto é,
no mundo e na multidão".
(Trechos extraídos do livro Império de Hardt e Negri)
Por volta das
6 horas da manhã começo a ser despertado pelos ruídos
característicos da cidade que grita cada vez mais alto até não
permitir mais que se durma... São milhões de subjetividades
que a cada dia desde muito cedo começam a trocar informações,
a construir significados, a reajustar valores, recriando o
mundo sem saber que o fazem. A subjetividade é o limite
(criativo e, por isso, flexível) do mundo. Não podemos mais
falar em indivíduo, pois esse termo é demasiadamente passivo
não dando mais conta da colaboração efetiva de cada pessoa na
configuração do intelecto geral. Subjetividade abrange o
potencial de troca de sentidos e produção criativa do ser que,
na atual fase do processo de globalização, se encontra
inelutavelmente embebido nas esferas social e política. A
maior contribuição do livro Império para a análise ontológica
da configuração do novo cenário mundial talvez seja a
valorização de cada subjetividade da multidão.
O Império é
definido por Hardt como "o nome dado à forma política da
globalização capitalista" sendo a primeira forma
verdadeiramente ilimitada de poder. O Império não tem centro
efetivo e localizável atuando por procedimentos móveis,
fluidos e localizados. Extrapola as fronteiras de uma nação
posto que se pretende ilimitado. Se por um lado essa afirmação
denota o poder totalizante do governo imperial, por outro abre
ao infinito as possibilidades de atuação das subjetividades. O
Império sem centro com seus braços atuando pelos Estado-nação
podem ser atingidos por qualquer levante da multidão, seja ele
isolado ou organizado. Dessa forma, uma greve de professores
brasileiros universitários contra o desmonte por que passa o
ensino público tem o mesmo valor de embate ao Império que as
manifestações antiglobalização (ou contra a privatização da
vida) em Seattle e Gênova; um trabalhador abrindo um processo
judicial contra um ato injusto de uma empresa atinge o Império
com a mesma intensidade que uma discussão no Fórum Social
Mundial sobre manutenção da diversidade cultural. Assim como o
governo imperial, os atos da multidão tendem a ser fluidos e
móveis. Exatamente pela atuação imperial se dar através de
redes, a multidão pode se opor diretamente ao Império, sem
mediações. Não necessitamos mais de um líder que nos guie ao
confronto com o inimigo. Esse inimigo não existe. Ou existe em
todo o não-lugar do Império.
Ao analisar a
atuação repressiva imperial, os autores de Império mais uma
vez deslocam suas atenções para a importância da
subjetividade. O governo imperial é um poder de negação, ou
seja, não cria nenhum valor novo. Diferente da multidão que,
com seu trabalho ativo e efetivo, cria e recria o mundo, a
atuação imperial é negativa, passiva e meramente reguladora. A
repressão exercida pelos braços do Império age no ritmo ditado
pela resistência e acabam por impulsionar mais e mais
resistência. É uma dialética de forças atuantes onde quem dá
as regras é a multidão.
Mas essa
multidão precisa de um corpo comum para adquirir força frente
ao Império. Hardt e Negri acreditam ser o trabalho a junção
necessária para a constituição de um desejo comum. Fala-se
aqui do trabalho na sua definição pós-moderna: produto dos
poderes de conhecimento, do afeto, da ciência e da linguagem;
atividade produtiva de um intelecto geral. Com a
flexibilização da idéia de trabalho imposta pelas novas
tecnologias e rearranjos econômicos, cada vez mais se torna
indistinguível tempo de lazer e tempo de trabalho, tempo de
produção e reprodução. Estamos produzindo sentido e tecnologia
o tempo todo e nunca o fazemos sozinhos. O trabalho é sempre
mais e mais coletivo e cada criação tecnológica se torna
produto da humanidade inteira. Trabalho, mesmo que viabilizado
por máquinas (as quais tendem cada vez mais a serem
incorporadas positivamente pelo homem), é em última instância
exercido por pessoas e conseqüentemente obriga que a produção
seja perpassada pelo afeto, enriquecida por relações pessoais,
ativada pela cooperação. O aspecto humano-afetivo do trabalho
criador escapa ao controle imperial. E é exatamente nesse nó
de conceitos que a aposta revolucionária pós-moderna deve
acontecer: trabalho e cooperação. Através do trabalho a
virtualidade (leia-se aqui conjunto geral de nossos poderes de
agir) tangencia a realidade. É o trabalho ativo que constrói
onilateralmente (de forma horizontal e com igual possibilidade
de modificação) o desejo comum. O governo imperial se legitima
pela corrupção e exploração de todas as esferas (social,
econômica, política, afetiva) de cada subjetividade da
multidão e, como resposta, os agentes da multidão devem
oferecer trabalho como criação e cooperação como resposta. A
multidão precisa apostar no seu potencial criador e de
interferência. Se a nova conjuntura político-econômica nos
obriga a estar produzindo e reproduzindo sentido o tempo todo,
então devemos interferir nessa esfera semiótica gerando novas
propostas, construindo amiudamente o novo terreno biopolítico.
É na esfera também afetiva de nosso trabalho (ou pesquisa
acadêmica ou comunicação via email ou discussão política etc)
que podemos cavar mudanças. Não devemos esperar um grande
líder revolucionário ou uma metanarrativa do século XXI para
atuarmos contra a pervesidade do governo imperial. Na
perspectiva do intelecto geral não cabe a alternativa
uníssona. Podemos e devemos construir coletivamente a resposta
política e social para o governo imperial.
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