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Negócios e famílias em São
Paulo
Resenha do livro “Sobre a História dos Armênios”. GRÜN, Roberto. Negócios e famílias: Armênios em São Paulo. SP: Sumaré, 1992.
O livro começa fazendo um mapa para a análise da formação da comunidade imigrante armênia. Os integrantes da amostra são brasileiros, com idade média entre 50 e 65 anos, filhos de imigrantes. Apenas três são da terceira geração. Em uma primeira visão, destaca-se o papel central da figura religiosa dentro da colônia – são as igrejas que produzem a maior parte das atividades educacionais e culturais. Destituídos de seu Estado Nacional, a igreja é única instituição perene, que podia manter suas tradições culturais e mesmo sua língua vivas.
Para entendermos os motivos que levaram os armênios a imigrar, é importante saber a origem religiosa desse povo. Os armênios viviam na Turquia Islâmica, por eles chamadas de Armênia Ocidental e Cilícia. Eles tinham uma religião oficial direcionada para a Cristandade, forte característica deste povo, já que foram os primeiros a aderirem à doutrina de Cristo. Com a queda de Constantinopla em 1454 e a islamização da Ásia Menor, os armênios se tornaram um povo minoritário e sua religião também, já que recusaram o islamismo. Essa escolha influi bastante no futuro dos armênios, que se especializam em profissões importantes no império como forma de sobrevivência.
Com a decadência do Império a intolerância religiosa se agravou até culminar no grande massacre em 1915, quando os turcos mataram cerca de 1,5 milhões de armênios. Os sobreviventes foram deportados para a Síria e o Líbano. O território que deixaram para trás foi logo ocupado pelos turcos étnicos e os curdos mulçumanos, desaparecendo assim uma referência de para onde os armênios poderiam sonhar em voltar.
Com a difícil situação econômica dos acampamentos que acolheram os sobreviventes, muitos começaram a imigrar. Armênios de outras localidades do mundo, temendo novos massacres, também imigraram. A maior parte deles recebeu acolhida nos Estados Unidos, França e Canadá. Uma parcela menor veio para a América do Sul.
Armênios no Brasil: dois momentos
A imigração armênia para o Brasil aconteceu em dois momentos. O primeiro deles, aconteceu no final do século XIX, quando os imigrantes vinham trabalhar nas obras de remodelação dos portos de Santos e do Rio de Janeiro. Muitos deles se dedicaram ao comércio ambulante e puderam acumular grandes fortunas, construindo indústrias como Gasparian e Fileppo. Nessa primeira fase a trajetória dos armênios é muito parecida com a dos sírios e libaneses.
O segundo momento da imigração armênia aconteceu na primeira metade dos anos 20, quando em Santos desembarcaram a maioria dos membros desta etnia. Em sua maioria, sobreviventes do massacre. Eles forma recebidos pelos integrantes da primeira leva, que montaram organismos de ajuda fundamentados em torno da Igreja Apostólica.
Os imigrantes foram divididos em duas cidades. Os que demonstraram interesse pelo comércio ficaram na região de Santana e do Mercado, na cidade de São Paulo. Quem queria trabalhar no campo fora deslocado para o município de Presidente Altino, hoje Osasco, onde se dedicaram à criação de gado leiteiro e à produção de iogurtes e coalhadas.
Marcas identitárias e velhos preconceitos
Com a consolidação da comunidade armênia no Brasil, esses imigrantes precisavam reconstruir os elementos de identidade cultural. Em um primeiro momento, a colônia circunscrevia todos os seus membros dentro de uma teia social onde as decisões importantes como associação financeira e mesmo o casamento eram feitos entre os mesmos. Sem posses, os imigrantes precisavam trabalhar, mas sabiam que não poderiam ser confundidos com os caboclos nativos, pois dessa forma nunca sairiam da condição de subalternos. No imaginário brasileiro a classe média não era reconhecida, pois com a escravidão há pouco abolida, os traços estamentais ainda estavam vigentes.
Para se diferenciaram da massa de excluídos sempre pobres, se legitimaram através da cor. Considerando o momento histórico em que o valor do indivíduo se dava pela raça, o caminho que os armênios encontraram para se valorizarem foi sua origem caucasiana, mesmo contraditória. Além de se vangloriarem de terem sido o primeiro povo cristão do mundo. De fato, os imigrantes recém chegados tinham muitas características prós. Eram trabalhadores, honestos, rigorosamente cristãos e cultivavam os valores familiares. Esse se tornou um grande contraponto ao brasileiro nativo, que tinha o estigma de preguiçoso e ecumênico.
Naquela época, pontos negativos que eram destacados quanto a esse povo eram que os armênios ainda viviam em acampamentos na Europa e não eram grandes agricultores. Em oposição a essas idéias, os intelectuais da colônia, em geral os religiosos, produziam material cultural de resgate aos valores da raça. Claro que esse processo não foi todo estrategicamente pensado – muitos instrumentos foram, construídos naturalmente por seus membros.
Uma característica étnica é o sentimento antiturco e anticurdo. Essa raiva era tamanha que chega à desvalorização dos mesmos por uma explicação supostamente científica – a da “raça inferior”.
Toda essa diferenciação feita pelos armênios com outros povos, inclusive do brasileiro, passa a ser uma condição ética dentro da colônia e uma forma de reconhecimento de comuns dentro da comunidade. Outro traço marcante é que se reconhecem como brasileiros, mas de origem e cultura armênia. A explicação para tal fato é que o território que abriga seu povo, assim como o Estado de Israel para os judeus, não são considerados pontos de origem e de referência obrigatórios, já que a Armênia foi criada por um processo artificial.
Status e identidade
A comunidade de fato tem visibilidade a partir da especialização, formando assim uma barreira entre os imigrantes e os pobres nacionais. O sucesso financeiro dos armênios era uma forma de provar suas reivindicações de diferenciação. Dentro do imaginário social, eles alcançaram o status de povo trabalhador e branco (diferente dos japoneses, por exemplo), ganhando logo o prestígio de ocuparem cargos não manuais dentro da economia urbana paulista, principalmente nas empresas privadas. Dessa forma, eles criavam então uma classe média, tanto com os pequenos negócios quanto com empregos assalariados não manuais.
O nicho de inserção profissional dominado pelos armênios ultrapassa as barreiras do puramente econômico e passa a ser um elemento de identidade cultural. A escolha pelo ramo dos calçados tem algumas explicações. Uma delas é a descendência dos artesãos de Marash. Eles eram hábeis artesãos em couro. Essa hipótese perde um pouco sua força, já que os artesões imigrantes trabalham com segmento de baixa qualidade e baixo preço.
Confiança nos “traços étnicos”
O ramo calçadista para a comunidade era mais do um aproveitamento de um vazio na estrutura econômica. Estrutura-se como traço étnico, instrumento de reconhecimento cultural de pertencimento a determinado grupo e sua “vocação comercial”. A formação das empresas do ramo acontecia com uma interação de ajuda mútua entre os membros da colônia. Existia uma zona de cumplicidade entre patrão e empregado, já que para eles aquele era um mero momento de sua carreira social, que se encaminharia para a sua própria sapataria. Esse processo é produtor e reprodutor de identidades étnicas, como “bom armênio, confiável e ótimo comerciante”, para depois então se montar seu próprio estabelecimento.
Em uma das entrevistas no livro há um relato de que uma vez um armênio instalado no ramo dos calçados de São Paulo, ele ia se apresentar à Igreja, também aos nomes bem estabelecidos e recebia crédito em mercadorias, para fixar-se e para aumentar seus negócios. Tratava-se do processo de ajuda mútua, onde a principal fonte de confiança que os ligavam eram os traços étnicos.
Muitos escolhiam o ramo dos calçados por já saberem que iriam receber a ajuda de seus patrícios. Os grandes empresários dentro da colônia ajudavam os menos favorecidos a prosperarem. O imigrante armênio trazia seu filho ainda muito jovem para dentro das fábricas e lojas para evitar que abraçasse outro ofício, mas também para aprender a lidar com os fiscais, pois estes causavam medo aos mais velhos que não sabiam lidar com eles.
É alta a transmissão, entre gerações, da especialização funcional da colônia armênia no Brasil. O setor de calçados estrutura as formas de sociabilidade mais puras da colônia. Com as gerações futuras e a ascensão da necessidade do estudo universitário, a colônia mostra aos seus filhos quanto que o comércio pode ser lucrativo, pregando o antintelectualismo, tirando assim as alternativas universitárias do jovem que passa a pensar em ter dinheiro, reconhecido diretamente como status. Suas aspirações passam a ser dinheiro no bolso, carros e lojas no shopping. Os dois primeiros itens dispensam explicações, mas o último é bastante significativo. Nesse ambiente ele sai do nicho de sua colônia para se inserir no ambiente mais inclusivo e de convivência com outros agentes sociais.
Podemos caracterizar da seguinte forma as gerações de imigrantes armênios:
1º geração. Desconheciam os costumes e a língua do Brasil. Inseriram-se em pequenas industrias confeccionando chinelos de lã.
2º geração. Formada em geral por pessoas nascidas no Brasil, se estruturam no comércio voltado para a baixa renda.
3º geração. Formada por pessoas que já foram socializadas em ambientes próximos e já se tornaram formadores da moda. Destacamos nomes como a Zoomp e Teresa Gureg na produção de artigos de luxo.
Nas entrevistas, todos afirmaram que hoje existem armênios ricos e alguns milionários, pois são um povo trabalhador e não se encontra um armênio pobre. Esse é um eixo de legitimação étnica, através do poder econômico. No nicho de especialização étnica, a ligação família/firma é um conjunto de difícil separação. Os dois vetores condicionam-se mutuamente, sendo ambos alimentados pelo mesmo caldo cultural. Nesse padrão, a independência dos filhos tem dois tempos fortes: a abertura de sua própria loja e o casamento.
Escolarização e avanço das liberdades individuais
A força da especialização funcional era tão grande que existem relatos de filhas de comerciantes casando-se com o “braço direito” de seu pai. Uma comunidade fortemente patriarcal até os dias de hoje. Os recursos eram o capital simbólico da família da noiva, sua capacidade de avalizar empréstimos e conceder créditos e os recursos econômicos da família do noivo que literalmente cobria a noiva de jóias e ouro. Dentro da etnia não havia o pagamento do dote ao noivo, já que no seu código de honra isso poderia significar a falta de virilidade do homem que é incapaz de enriquecer por conta própria. Mas as moças tinham liberdade de escolher seu noivo, dentro desses conceitos pré-definidos. Mesmo os namoros eram submetidos à cerimônia do anel, onde as famílias estabeleciam alianças.
Na terceira geração esse controle se torna mais difícil, já que eles são mais escolarizados e inseridos na sociedade. Os órgãos socializantes sofrem um enfraquecimento na capacidade de produzir barreiras. A escolarização mais intensa dessas pessoas e o estudo universitário cada dia mais ampliado aumentam seu poder de argumentação perante seus ancestrais e as autoridades religiosas. Essa ampliação dos horizontes afeta principalmente a escolha de seus casamentos, mas também a condução de seus empreendimentos, alterando essa transmissão das habilidades profissionais, por onde também se transmitia a cultura da colônia. Nesse momento também a Igreja, que tinha como função a manutenção da bagagem étnica, perde sua força pela concentração do capital cultural na mão dos leigos.
Autora: Clarissa Toscano de Britto Dias (2005). Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
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