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Leituras no
Império |
Análise |
Novo Império e
Produção Bio-Política
Mônica da Silva Ribeiro
Poder dos
Estados modernos se assenta na escalada do conhecimento e na
educação dos trabalhadores, e não na força das massas.
Ao buscar
realizar uma análise sobre o conceito de bio-política do
Império, Gianotti afirma que se formou um consenso de que
estamos assistindo ao nascimento de um novo império, de uma
nova forma de poder. Para ele, foram-se os tempos do
imperialismo, quando o capital tinha como trampolim os
Estados-nação. Quais as características, então, desse novo
poder que tudo percola? Como desenhar seu tipo ideal? Sempre
se reconheceu que, além do poder do Estado, representante de
uma totalidade em nome da qual se exerce o monopólio da força
legítima, vicejam diversos poderes articulando a vida
cotidiana. Mas, segundo José Arthur Gianotti, foi Michel
Foucault quem ensinou a ver em certas instituições sociais
mecanismos de poder que tanto conformam os indivíduos quanto
os dominam. A prisão, a fábrica, o asilo, a universidade, as
instituições e técnicas de controle da sexualidade etc.
constituem dispositivos, matrizes, conformando condutas e
pensamentos, tecendo uma rede de micropoderes. Mais do que a
capacidade de fazer com que alguém obrigue o outro a agir de
acordo com seus desejos e prescrições, mais do que conformar a
agenda dos dominados, o micropoder estrutura atitudes,
comportamentos e subjetividades, socializando indivíduos a fim
de que respeitem fronteiras e hierarquias. Para Gianotti não
parece, entretanto, que Foucault tenha dado uma explicação
satisfatória da relação entre esses poderes e o poder do
Estado, principalmente quando se leva em conta que este sempre
se apresenta, retomando a formulação de Marx, na condição de
comunidade imaginária, em nome da qual decisões são tomadas. O
Estado, além de poder soberano, constitui-se como sistema de
ordenamentos de justiça, identidade ideal sem fissuras. Nesse
ocultamento dos conflitos, o Estado arma-se como dispositivo
dispensando o bem e a verdade, mas também se pondo como a
verdade de uma população, o espelho no qual ela desenha sua
identidade, transcendendo as condutas daqueles que operam em
seu nome. Não é porque se aponta o caráter ilusório dessa
transcendência que ela desaparece da articulação da vida em
sociedade. Daí a necessidade de explicar como o poder estatal,
ancorado em condições econômicas, sociais, culturais etc., só
pode funcionar se indivíduos falarem em seu nome e de toda uma
população. Em suma, Gianotti questiona: qual o caráter "sui
generis" dessa dimensão representativa do poder estatal e como
este funciona diante da emergência de um novo poder, ao mesmo
tempo global e microscópico? Os herdeiros de Foucault
igualmente deixaram na sombra essa questão, mas procuraram
expandir o conceito de dispositivo para que cobrisse um poder
totalizante. De acordo com Gianotti, os trabalhos de Gilles
Deleuze e Félix Guattari marcam um passo importante nessa
direção. Mais do que uma sociedade disciplinar, cujos
paradigmas foram em grande parte retirados do Antigo Regime, a
nossa, comentam esses autores, é uma sociedade de controle,
onde os mecanismos de comando se entranham de tal modo no
corpo social, afetando corpos e cérebros, que terminam por
orquestrar uma forma de vida. Foucault já mostrara que a vida
se tornara objeto do poder, mas para tanto não seria
necessário esmiuçar como isso pôde acontecer? Esse passo foi
dado, afirma Gianotti, quando Deleuze substituiu o conceito
foucaultiano de prazer por aquele de desejo, e, em vez da
aceitação imanente do prazer, vê no indivíduo uma máquina
desejante.
O pensamento
parisiense
O resultado
mais abrangente da reconceitualização de um poder global
parece vir a ser, segundo Gianotti, o livro "Império", que
Michael Hardt e Antonio Negri publicaram em 2000 e que foi
traduzido em 2001, no Brasil, pela editora Record. Trata-se,
na análise de Gianotti, de verdadeira suma do pensamento
parisiense sobre a crise da modernidade e, por isso mesmo, de
acordo com ele, combina intuições geniais com sínteses
apressadas. Para o referido autor, vale a pena lê- lo com
cuidado, pois o livro nos oferece uma tela onde podemos
projetar nossas próprias preocupações, identificá-las e
corrigi-las. Para tal intento, Gianotti selecionou alguns
pontos que lhe permitiram mensurar a distância que os separa.
Como indica o título, império, o conceito básico exprime nova
forma de poder a atravessar os Estados-nação tradicionais,
inclusive os Estados Unidos, a potência dominante. Trata-se de
uma espécie de substância jurídico-política que passa a
regular trocas econômicas e culturais de modo global,
articulando-se como governo do mundo. A nova soberania
funda-se agora na construção de caminhos e limites de novos
fluxos globais, responsáveis pela construção da própria vida
social, na qual o econômico, o político e o cultural cada vez
mais se sobrepõem e se completam. Essa produção bio-política
recusa a distinção entre um dentro e um fora, um interior e um
exterior, exercendo-se sem fronteiras e desconhecendo sua
exterioridade. O aparelho geral de comando do império
apresenta três momentos: o primeiro, inclusivo, promete a
todos integração universal; o segundo, diferencial, esvazia as
diferenças, situando-as no plano da cultura; finalmente, o
terceiro, gerencial, propõe-se a administrar e hierarquizar as
diferenças numa economia geral de comando. Nesse contexto, a
dialética entre as forças produtivas e o sistema de dominação
não ocupa mais um local determinado, sendo que as
determinações de poder do trabalho (diferença, medida e
determinação) se confundem, deixando de ser o objeto de
exploração e domínio. Agora o poder se exerce sobre a própria
capacidade de produzir em geral. O trabalho vem a ser abstrato
graças à cooperação de cérebros e mãos, mentes e corpos, que
por sua vez exclui e difunde o trabalho ativo; é o desejo e o
esforço de miríades de operários móveis e flexíveis e também a
energia intelectual e linguística, construção comunicativa de
uma multidão de operários intelectuais e afetivos (pág. 229).
Essa dominação pós-moderna do trabalho, a virtualidade de sua
liberação estão ligadas ao fato de que a natureza foi de tal
modo transformada pela técnica capitalista que se tornou ela
mesma rede comunicativa de símbolos.
Objeto
exterior
É quase
consenso essa perda das determinações do trabalho, mas o
desafio, para Gianotti, é entender seu sentido. Uma
fenomenologia como a proposta ignora uma característica do
processo de trabalho que, como Gianotti busca demonstrar, foi
tanto um dos pilares como a maldição do conceito marxista de
relação social de produção: o processo de trabalho se finaliza
num objeto que passa a fazer parte do mundo cotidiano, de
sorte que só pode ser consumido, individual ou produtivamente,
se um terceiro permitir que isso aconteça, ainda que o faça
por sua indiferença. Noutras palavras, a reflexão do processo
de trabalho cria um objeto exterior a ela que só pode ser
recuperado por ela se um terceiro exercer um poder positivo ou
negativo para que isso ocorra. Em resumo, não é possível
socializar trabalhos sem alguma forma de propriedade, privada
ou coletiva. Isso se evidencia até mesmo nas formas mais
imateriais de trabalho: o escritor, ao ter uma idéia genial,
ou um pesquisador, ao obter um resultado extraordinário,
precisam conservar seu achado e, para isso, são forçados a
escrevê-lo, gravá-lo etc. Gianotti questiona então se isso não
cria então a possibilidade do ladrão de idéias. Para ele, é
ilusão hegeliana abolir, no processo produtivo, o contraste
entre o fora e o dentro. Por mais que os pós-modernos
parisienses lutem contra a dialética hegeliana, eles caem na
sua malha continente, pois, ao fazerem com que a identidade
sempre escorregue para a diferença, o jogo de ambos, sem
exterioridade, se transforma num discurso totalizante. Não
seria por isso que, segundo Gianotti, a nova definição de
império namora com o Espírito Absoluto?
Legião de
fiandeiras
José Arthur
Gianotti afirma que somente porque se esquecem desse momento
de exterioridade fugidia, mas intransponível, sustentado na
coisa pelo trabalho efetuado, podem fazer da propriedade uma
questão basicamente jurídica, distante de seu fundamento nas
relações sociais de produção. Somente por isso podem analisar
essas relações no nível do desejo, desprezando assim o
terceiro personagem sempre implícito nas relações de trabalho.
A relação dual entre a máquina desejante e a coisa, ao
descartar esse terceiro, fica cega para as determinações
adquiridas por essa coisa como produto do trabalho social,
notadamente sua transformação em símbolo. É sintomático que a
economia clássica tenha estudado como um produto se transforma
em dinheiro e que os modelos da economia contemporânea sempre
estejam se havendo com a idéia de valor (Gianotti tratou dessa
questão em "Certa Herança Marxista", Companhia das Letras,
2000). A transformação da coisa trabalhada em elemento de um
objeto técnico é o primeiro momento de sua conversão em
símbolo. Gianotti nos lembra que um objeto de uso, uma
coisa-à-mão, isto é, conformada pelo trabalho para exercer
determinada finalidade, já consiste numa regra segundo a qual
as condutas se tornam adequadas ou inadequadas para seu bom
funcionamento. Os objetos de uso contemporâneo, ademais, se
converteram em fabulosos objetos técnicos, coisas ajustadas
entre si segundo algumas propriedades abstraídas pelo
conhecimento e pela técnica, objetos que só podem funcionar
integrados em sistemas, redes interdependentes. O telefone, a
televisão, o computador, a internet seriam alguns exemplos, de
acordo com Gianotti, dessa fantástica segunda natureza, na
dependência da qual passamos a viver. Mas, se esses
dispositivos conformando condutas, mentes e subjetividades são
comunicativos e simbólicos, é porque um exército de
trabalhadores está repondo e conformando seus elementos
materiais. Gianotti compara esse ato com uma legião de
fiandeiras, escondidas atrás de uma tapeçaria, que recompõem
os fios gastos pelos passos do tempo. Um sistema técnico pode
ser anulado por outro, mas esse jogo, que se reporta a uma
natureza científico-tecnológica como seus meios de produção,
abre fissuras por onde emerge a natureza bruta. Cada passo que
venha a aperfeiçoar um sistema tecnológico cria
simultaneamente um ponto nevrálgico, aquele em que as peças,
ao se ajustarem por meio de suas propriedades abstratas e
sutilíssimas, ficam expostas aos efeitos de um pedaço de
matéria estranho ao processo. Um grão de areia, colocado num
lugar apropriado, não emperraria um computador? Essa
determinação recíproca entre o aumento de eficácia de um
sistema técnico, por conseguinte de seu poder, e o aumento de
sua fragilidade, revela como um poder sofisticado gera de
imediato um contrapoder bruto. Então, afirma Gianotti, contra
o novo império, travejado pela ciência e pela tecnologia, a
brutalidade do terror não se apresentaria como a força mais
eficaz, o grão de areia que tudo emperra? Sob esse aspecto, o
ataque às torres gêmeas é paradigmático, pois toda a
sofisticação dos planos e aparelhos utilizados pelos
terroristas só se tornou eficaz pela massa de um avião a
chocar-se com uma estrutura de ferro, cimento e tijolos.
Política
como sua própria negação
Para Gianotti,
Hardt e Negri tocam num ponto essencial quando afirmam que a
origem da diferenciação e acumulação da riqueza social se
encontra atualmente na capacidade de produzir. Mas, de acordo
com Gianotti, os autores se enganam quando desligam essa
capacidade de um monopólio. Essa capacidade não se estrutura
socialmente no nível do desejo, mas a partir do simples fato
de que o grande capital tem, hoje em dia, o monopólio da
invenção científica e tecnológica. Por certo a invenção de uma
teoria pode ser feita por um grupo reduzido de pesquisadores
competentes. Mas esse conhecimento só se confirma e se perfaz
num objeto técnico depois de consumir enormes investimentos e
mobilizar caros e sofisticados laboratórios. Se o
conhecimento, de um lado, nunca esteve tão disponível, o novo
conhecimento, de outro, torna-se privilégio de algumas grandes
empresas que o mobilizam tão-somente em vista de seus próprios
interesses. Daí continuar valendo a definição do capital como
controle sobre o trabalho alheio. Se de fato as diferentes
determinações do processo de trabalho se esvanecem, o desafio
percebido por Gianotti seria explicar como esse fenômeno se
funda numa forma muito peculiar de propriedade, mais do que
nas vicissitudes do desejo. O monopólio da invenção científica
e tecnológica não se exerce por meio de barreiras que o outro
não pode atravessar, como o monopólio da terra ou da fábrica.
Ele se exerce apropriando-se de um processo em que os meios de
produção respondem a novas informações, e os agentes, embora
substituíveis, devem estar preparados para exercer
determinadas funções. Daí a importância da base tecnológica
para gerar a riqueza, e da qualificação, para estruturar o
mercado de trabalho. Em decorrência disso, Gianotti afirma que
o poder do novo império se assenta na escalada do conhecimento
e na educação dos trabalhadores. Não é a partir dessa
plataforma mais profunda que os ricos se tornam cada vez mais
ricos, e, os pobres, mais pobres? Dessas determinações do novo
poder seguem-se as determinações do contrapoder: tem pouco
efeito ocupar terras ou fábricas, é preciso enfiar uma cunha
no modo pelo qual se exerce a preparação dos meios de produção
e dos agentes que os movem. Isso pode ser feito positivamente
por uma política adequada, ou negativamente, pelo terror e a
burocratização dos aparelhos do Estado. Os sujeitos do futuro
não são os pobres, aqueles que "vivem o ser efetivo" tendo se
transformado numa figura da produção (pág. 175), pois a
desqualificação para o trabalho os exclui do sistema produtivo
contemporâneo. O desafio é como prepará-los para que não caiam
nas malhas do terror, que destrói sem construir. Gianotti
afirma ser interessante notar que Hardt e Negri continuam a
pensar a política como a negação dela, como um movimento de
base espontânea a abolir de modo imanente o poder, em vez de
conformá-lo e ordená-lo por fora. Acusando de liberal toda
política que se ponha além dessa imanência revolucionária, só
podem ignorar o papel do Estado no exercício do novo poder. Se
o Estado-nacional mingua quando se cria uma nova soberania sem
fronteiras, não é por isso que deixa de desempenhar o papel
fundamental de qualificar e proteger a força de trabalho de
uma população como um todo, assim como de assegurar seu nível
de vida pelo emprego justo dos fundos públicos. Por certo uma
grande empresa prepara seus próprios trabalhadores, mas com
isso ela apenas continua aumentando a distância entre os
cultos e os incultos, os mais ricos e os mais pobres. É outra
a força do Estado, ao fazer valer a ilusão de que essa
população é comunidade, identidade na qual todos possuem
direitos iguais, particularmente o direito à educação e de
viver dignamente. A ilusão se transforma em força social à
medida que vem a ser política, isto é, jogo entre
representantes de forças e interesses antagônicos, que julgam
e atuam, entretanto, em nome do todo. Segundo José Arthur
Gianotti, o futuro não pertence de maneira imanente aos
pobres, mas para ele esses poderão vir a ser menos pobres, e
até mesmo modestamente ricos, se o jogo da política for capaz
de impor a disciplina da justiça, reforçando aqueles
dispositivos que permitem conviver com diferenças, desde que o
crescimento da riqueza social venha a beneficiar os menos
preparados. Confiar nas forças imanentes das massas parece, do
ponto de vista de Gianotti, uma ilusão perigosa.
José Arthur
Giannotti é professor emérito da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da USP, autor de, entre outros,
"Marx - Vida e Obra (ed. L&PM). Escreve mensalmente na seção
"Brasil 503 d.C.".
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