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Paraíso de turistas torna-se inferno de imigrantes

Quando se pensa na cidade-luz, cenas românticas na badalada Rive Gauche surgem à mente. Mas não se demora muito a descobrir uma Paris totalmente diferente. Para tanto, basta saber para onde olhar. A seguir, três cenas desta cidade em plena confusão. Reportagem de Francois Krug, de Paris, na revista alemã Der Spiegel em 14/11/2005

A Torre Eiffel

Há poucas dezenas de turistas apenas, alinhados frente à Torre Eiffel nesta manhã de meados da semana. Dificilmente o mês de novembro é a época ideal para visitar a cidade-luz, e, neste dia, as nuvens baixas e um chuvisco fino contribuem para manter grande parte dos turistas que se encontram na capital confinados nos seus hotéis.

Apenas os mais corajosos se aventuraram para fora e se propuseram a subir até o topo do monumento mais famoso de Paris, para apreciar aquilo que promete ser uma vista bastante nublada, velada, sem graça. E eles são corajosos a mais de um título.

Basta dar uma olhada rápida nas manchetes publicadas recentemente no mundo inteiro para se conscientizar de que Paris --a cidade da boa comida e das belas artes-- é também um barril de pólvora armado pela tensão causada pela população de imigrantes, e que andou explodindo em ondas sucessivas de violência, noite após noite, já faz mais de duas semanas.

Até mesmo o Departamento de Estado americano --normalmente mais preocupado com países dilacerados por guerras intestinas tais como o Sudão, a Somália e a Colômbia-- alertou os cidadãos americanos, avisando-os para se manterem afastados das áreas aonde os distúrbios de rua vêm ocorrendo.

O coração de Paris, contudo, não é uma dessas áreas e, nesse dia, era perfeitamente plausível pensar que a pior onda de violência a atingir a França em quase quatro décadas estava distante, muito distante.

"Eu não estou com medo", diz John, um turista americano que aguarda junto com a sua mulher italiana e dois filhos na pequena fila que se formou para aceder à torre Eiffel. "Os distúrbios de rua não nos impediram de vir para cá".

E por que deveriam eles ter medo?

A França que os turistas costumam visitar permanece amplamente preservada dos arremessos de pedras, dos ataques incendiários contra veículos e das batalhas de rua recorrentes entre os jovens imigrantes e a polícia francesa. Em todo caso, a violência está diminuindo --por causa principalmente dos toques de recolher que foram instaurados nas áreas afetadas por todo país.

Durante a noite de quinta-feira (10/11), o número de carros incendiados recenseados --uma estatística que acabou tornando-se uma espécie de terrível termômetro por meio do qual se mede a intensidade da violência-- por toda a França ficou em 463, um pouco abaixo dos 483 da noite precedente, dos 482 da noite de terça e longe dos cerca de mil por noite que eram contados no início da semana.

No departamento da Seine-Saint-Denis, na periferia leste de Paris, apenas 15 veículos haviam sido incendiados na noite de quarta-feira --ou seja, não muito mais do que a média diária para esta região, mesmo em períodos mais tranqüilos, segundo informaram oficiais da polícia local.

Contudo, o coração de Paris --até mesmo quando os distúrbios estavam no auge-- ficou mais para o Kir Royal (bebida típica com vinho branco e licor de cassis) do que para o coquetel Molotov. Entretanto, os distúrbios de rua não são nem um pouco fatos chocantes ou surpreendentes, afirma John.

"A política de imigração do governo é de proporcionar assistência social gratuita para todas as pessoas que se instalam na França", diz. "Mas você não pode receber imigrantes quando não existe emprego para eles. Então, eu não estou surpreso com os distúrbios. Era previsível que isso aconteceria".

A sua mulher, Maria, tampouco tem uma boa impressão do governo francês. "Essa confusão toda já vem ocorrendo há duas semanas, agora", comenta. "Eu estou espantada ao ver que o governo esperou por tanto tempo até estabelecer o toque de recolher. Outros países diminuíram e limitaram drasticamente a imigração. Acho que a França deveria fazer o mesmo".

Cinco minutos mais tarde, a família está no topo da torre Eiffel, admirando o panorama de uma Paris cinzenta.

La Goutte d'Or

Não é difícil passar por monumentos históricos e pontos de referência em Paris. Qualquer um pode, com a condição de usar um par decente de sapatos, andar em direção ao nordeste a partir da torre Eiffel e esbarrar num monte deles. É só passar pelo tortuoso Sena, atravessar a cintilante Avenida dos Champs Elysées, contornar o sisudo edifício da Ópera Garnier, e, finalmente, subir até a basílica branca do Sacré Coeur, empoleirada com os seus contornos imprecisos no topo do morro de Montmartre.

As extensas escadas que levam até a basílica são, durante o verão, um dos pontos de encontro favoritos dos jovens viajantes. As músicas tocadas com violão e cantadas são ouvidas até altas horas da noite, depois dos fantásticos pores do sol que muitos sobem até ali só para contemplar. Contudo, apesar de todo o glamour que predomina no topo do morro, a maioria nem sequer suspeita de que lá embaixo, as coisas são bem diferentes --aos pés da colina encontra-se um dos pontos de ruptura invisíveis da cidade.

De um lado do Bulevar Barbés, que corre ao longo do flanco leste de Montmartre, estão alguns pontos de encontro turísticos e luxuosos freqüentados pela classe média alta. Do outro lado, está um dos bairros os mais pobres de Paris.

A área é conhecida pelo nome de La Goutte d'Or (a Gota de Ouro). Além de ser bastante miserável, ela é também incrivelmente diversificada. Os imigrantes das colônias africanas foram os primeiros a se instalar ali --a primeira onda arrebentou imediatamente depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Desde então, juntaram-se a eles indianos, paquistaneses, haitianos e chineses.

Aqueles que moram do lado rico do bulevar raramente se aventuram pelas ruas estreitas e sujas de La Goutte d'Or. Muitos dos prédios desta área estão desgastados e em estado precário. Quase todos têm o gesso da sua fachada completamente rachado e parecem estar prestes a desmoronar. Durante o dia, ambulantes vendem no mercado negro relógios e telefones celulares pelas ruas. À noite, eles cedem o lugar para os traficantes de drogas e os viciados em crack.

Kimara, um senhor de 75 anos oriundo da Mauritânia, está aguardando do lado de fora da mesquita Assalam. Ele instalou-se em Paris após ter se aposentado, no final de uma carreira no exército francês. "Eu me sinto em casa na França", diz, respondendo a uma pergunta sobre os distúrbios de rua que vêm ocorrendo nos bairros de imigrantes dos arredores da cidade. "Mas, na qualidade de muçulmano, acho que o principal problema vem de que as pessoas se esquecem de que o Islã é a segunda religião mais importante neste país".

Evidentemente, a própria mesquita Assalam é um símbolo daquele sentimento, emblemático do relacionamento conturbado da França com a sua população muçulmana. Ela é tão pequena que, durante as celebrações do Ramadã --uma festa religiosa que dura um mês, um período de abstinência durante o qual um número maior de muçulmanos participa dos serviços religiosos-- a multidão de fiéis não raro se espalha do lado de fora, pela calçada, para rezar.

Os muçulmanos do bairro pediram repetidamente às autoridades da cidade para que elas os ajudem a construir uma nova mesquita, que seja maior. Mas uma lei de 1905 proíbe estritamente o financiamento público de instituições religiosas. Contudo, para os muçulmanos, tudo ocorre como se a França não estivesse nem aí com eles.

A despeito da frustração e dos sentimentos de isolamento que predominam em La Goutte d'Or, o bairro não foi atingido pelos distúrbios que ocorreram ao longo das últimas duas semanas. O próprio Kimara, apesar de ter se recusado a revelar seu sobrenome por temer pela sua segurança, reconhece que as coisas poderiam ser piores.

"A vida é muito mais difícil do outro lado do Périphérique", diz. O Périphérique é o rodo-anel que cerca o coração da capital francesa. É uma faixa de concreto que serve de divisa entre a cidade-luz e os seus subúrbios sombrios.

La Courneuve

Durante os anos 80, o governo francês desenvolveu um ambicioso programa de renovação urbana. A idéia era de se livrar dos projetos arquitetônicos de concreto, com os seus edifícios maiores e visualmente mais agressivos, nos subúrbios da capital do país, para privilegiar a construção de estruturas menores e mais aconchegantes.

A cidade de La Courneuve, imprensada entre o barulhento e poluído Périphérique e uma vasta zona industrial, foi escolhida para ser o ponto de partida do projeto. E, mais especificamente, uma área chamada "La Cité des 4.000" (a Cidade dos 4.000).

Até então uma massa de concreto, visualmente agressiva, "a Cidade dos 4.000" deveria supostamente se tornar o símbolo de um novo começo. Em vez disso, ela se tornou um símbolo de esperanças perdidas e de uma política de imigração fracassada.

Hoje, cerca de 15.000 pessoas moram neste bairro --a maioria deles em moradias cinzentas, construídas às pressas no início dos anos 60 para abrigar imigrantes norte-africanos. Nesta região, a taxa de desemprego subiu para 24% --sendo até mais elevada entre os jovens de La Courneuve. Entre eles, a frustração e a cólera são os sentimentos que predominam.

Nadia, uma argelina de 53 anos, está aguardando nervosamente na calçada, na frente da delegacia do bairro, junto com um grupo de amigos e parentes. A sua filha de 16 anos foi presa há poucos instantes e está sendo interrogada, sob suspeita de ter assaltado uma mulher na rua.

"Algumas testemunhas disseram aos tiras que ela não fez nada", garante Nadia. "Mas eles responderam simplesmente que eles não podiam confiar em pessoas como nós. Os tiras estabelecem suas próprias leis aqui".

Esta opinião é compartilhada por muitos moradores do bairro. Eles se queixam de que a polícia fez do assédio moral uma ocorrência diária, corriqueira. Os residentes mais novos são rotineiramente detidos para verificações de identidade, sem que haja a menor justificativa para isso.

Alguns afirmam até mesmo que a morte de dois adolescentes norte-africanos em Clichy-sous-Bois (subúrbio a leste de Paris), duas semanas atrás --que é considerado como o estopim da atual onda de violência-- foi provocada por uma perseguição desse tipo. Os dois adolescentes, segundo uma das explicações que foram apresentadas, estavam simplesmente cansados de ser detidos, e, portanto, resolveram fugir da polícia. Foi quando eles tentaram se esconder no interior de uma sub-estação de energia onde foram eletrocutados.

"Não se preocupe", diz um passante a Nadia, com um sorriso, após ter ouvido o que ela estava dizendo. "Vou queimar mais de 200 carros por você hoje à noite". O grupo cai na gargalhada. O policial anti-motim que está a 15 metros dali parece estar totalmente alheio, distante.

Uma grande parte desta cólera está centrada na pessoa do ministro do Interior da França, Nicolas Sarkozy. Ele provocou celeuma e ódio ao se referir aos amotinados como escória, gentalha, ralé.

Depois da morte de um menino de 11 anos, em junho passado, que havia sido atingido por uma bala perdida, Sarkozy anunciou que ele iria "promover uma limpeza na Cidade dos 4.000 com uma lavadora de alta pressão". Estas palavras, explica um primo de Nadia, Said, 40, fizeram com que a cólera tomasse conta dos habitantes e foram diretamente responsáveis pela onda de distúrbios.

"Nós não somos todos delinqüentes", prossegue. "Nós queremos segurança e nós precisamos dos tiras. Mas quando andamos pelas ruas, eles nos param sistematicamente para nos pedir a nossa identidade. Quando nós voltamos do trabalho no final do dia, eles nos pedem de novo o documento. Por que será que eles tanto precisam da minha identidade? Eles trabalham aqui há muito tempo, o suficiente para saberem quem eu sou e onde eu morro!".

Said chegou à França, vindo da Argélia, quando ele tinha 2 anos, mas, segundo afirma, ele nunca se considerou como um argelino. "Eu vou para a Argélia em férias durante o verão, mas eu seria incapaz de viver naquele país. Pessoas como eu, são 100% franceses", conta. "Mas a cor da nossa pele continua sendo um problema --exceto para [a estrela do futebol] Zinédine Zidane. Se isso significa que você precisa ser uma estrela do futebol para ser considerado francês, é realmente muito triste".

La Courneuve tem sido palco de alguns dos confrontos os mais violentos entre os amotinados e a polícia. Dezenas de carros foram incendiados, e, logo no início dos distúrbios, dois policiais anti-motim foram alvos de tiros por armas de fogo. Na quinta-feira, oito funcionários da polícia foram suspensos por terem surrado um morador de La Courneuve.

Contudo, muito antes desta onda de violência, o bairro já tinha uma reputação. Mounir, 23, espera pacientemente que Said termine sua explicação e começa a contar sua própria história.

"Eu larguei a escola quando eu tinha 16 anos e, assim como qualquer um da minha idade aqui, fiquei simplesmente em casa, dormindo o dia inteiro", diz. "Quando comecei a procurar um emprego, e que eu dizia aos empregadores que eu morava em La Courneuve, eles respondiam que me chamariam de volta. É claro, eles nunca o fizeram".

Nem todo mundo que mora em La Courneuve é fracassado, é claro. Zakaria, 19, também oriundo da Argélia, diz gostar de trajar um terno, de preferência a uma camiseta de moletom com capuz; Ele se expressa por meio de frases que ele formula com muito cuidado, em vez de usar a gíria dos bandidos. "Os valores da família argelina são muito estritos", explica.

"As garotas ficam em casa, os rapazes saem para trabalhar. Mas os meus pais entenderam rapidamente que a educação era a chave para a integração. Além disso, diferentemente das minhas irmãs, eu nasci na França e sempre estive imerso na cultura francesa".

Enquanto Zakaria conclui sua história, o sol se põe rapidamente em La Courneuve. Não é aquele pôr do sol descontraído e musical de Montmartre. É um anoitecer tenso, que anuncia mal auguro --e que parece ocorrer mais depressa à medida que o sol fica escondido por trás das altas estruturas de concreto. O bairro se prepara para mais uma noite de confusão. 

Tradução: Jean-Yves de Neufville, do Mídia Global (www.uol.com.br/midiaglobal)

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