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O Poder
da Identidade
Castells, Manuel, “O Poder da Identidade ( A era da
informação: economia, sociedade e cultura )”,
São Paulo:
Paz e Terra,
1998,
2ª Ed.
Capítulo I – Paraísos
comunais: identidade e significados na sociedade em rede
A construção da identidade
Identidade é um processo de construção de significado com base
em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos
culturais inter-relacionados, os quais prevalecem sobre outras
fontes de significados. Identidades constituem fontes se
significado para os atores sociais e também podem ser formadas
a partir de instituições dominantes. Identidades organizam
significados, enquanto papéis organizam funções. Significado é
a identificação simbólica, por parte de um ator social, da
finalidade da ação praticada por tal ator.
Do ponto de vista sociológico, todo e qualquer identidade é
construída. Existem três formas e origens de construção de
identidade:
·
Identidade Legitimadora: Introduzida pelas instituições
dominantes da sociedade no intuito de expandir sua dominação
em relação aos atores sociais. Essa identidade dá origem a uma
sociedade civil, com organizações e instituições.
·
Identidade de Resistência: Criada por atores sociais que têm
posições e princípios opostos às instituições da sociedade.
Essa identidade dá origem à comunidade, que é uma forma de
resistência coletiva diante de uma opressão.
·
Identidade de Projeto: São quando os atores sociais constroem
uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na
sociedade. Essa identidade dá origem a sujeitos, estes criam
uma história pessoal, atribuindo significado às experiências
da vida individual.
A identidade de resistência pode acabar resultando em
projetos, ou mesmo em identidade dominante, legitimando,
assim, a sua dominação. O surgimento da sociedade em rede traz
à tona processos de construção de identidade, induzindo assim
novas formas de transformação social, isso porque a sociedade
em rede está fundamentada na disjunção sistêmica entre o local
e o global para a maioria dos indivíduos e grupos sociais.
É um atributo da sociedade encontrar consolo e refúgio na
religião. Já o fundamentalismo é algo mais. Esse “algo mais”
representa uma das mais importantes fontes de construção de
identidade na sociedade em rede. Fundamentalismo, para o
autor, é a construção da identidade coletiva segundo a
identificação do comportamento individual e das instituições
da sociedade com as normas oriundas da lei de Deus,
interpretadas por uma autoridade definida que atua como
intermediária entre Deus e a humanidade. O fundamentalismo
religioso está surpreendentemente forte e influente como fonte
de identidade neste final de milênio.
Umma versus Jahiliya: o fundamentalismo islâmico
O fundamentalismo islâmico como identidade reconstruída e como
projeto político está no cerne de um processo decisivo, ao
qual está condicionado, em grande parte, o futuro do mundo.
Islã, em árabe, significa submissão, e mulçumano é
aquele que se submete à vontade de Alá. Os princípios
religiosos preceituados pelo Corão são comuns a todo Islã, mas
pode sofrer interpretações múltiplas. Para a maioria dos
mulçumanos, a sharia (lei divina, constituída pelo
Corão e os Hadiths) não representa uma ordem rígida e
inflexível, mas, antes, uma referência para se caminhar em
direção a Deus, com as devidas adaptações exigidas pelo
contexto histórico e social.
Existe uma ampla gama de variáveis entre o fundamentalismo
conservador e o fundamentalismo radical. Há também diferenças
consideráveis entre a tradição Shiaxiita, que inspira
Khomeini, e a tradição Sunnisunita, que constitui a
crença de cerda de 85% dos mulçumanos, inclusive de alguns
movimentos reacionários.
Para um mulçumano, o vínculo fundamental não é watan
(terra natal), mas sim a Umma, ou comunidade de fiéis,
em que todos são iguais em sua submissão perante Alá. Para que
uma Umma permaneça viva e possa crescer até que englobe
toda a humanidade, é preciso lutar contra a Jahiliya (
o estado de ignorância em relação a Deus ou a falta de
obediência aos ensinamentos de Deus), em que as sociedades
mergulharam novamente. Para superar as forças dos ímpios, pode
ser necessário, lançar mão da jihad (luta em nome do
Islã) contra os infiéis, o que por sua vez pode significar, em
casos extremos, recorrer à guerra santa.
Nessa estrutura cultural/religiosa/política, a identidade
islâmica é construída com base em uma dupla desconstrução,
realizada pelos atores sociais, que devem se desconstruir como
sujeitos, sejam eles indivíduos, membros de um grupo étnico ou
cidadãos de uma nação; e pelas instituições da sociedade, cabe
ao Estado-Nação negar sua própria identidade, o Estado
islâmico, com base na sharia, prevalece contra o
Estado-Nação.
A identidade islâmica é (re)construída pelos fundamentalistas
por oposição ao capitalismo, ao socialismo e ao nacionalismo,
árabe ou de qualquer outra origem, que, em sua visão, são
todas ideologias fracassadas provenientes da ordem
pós-colonial. A construção da identidade islâmica
contemporânea realiza-se como uma reação contra a modernização
inatingível (capitalista ou socialista), os efeitos negativos
da globalização e o colapso de projeto nacionalista
pós-colonial.
O islamismo político, bem como a identidade fundamentalista
islâmica, parece estar de expandindo nos anos 90 em uma série
de contextos sociais e institucionais distintos, sempre
relacionados à dinâmica de exclusão e/ou à crise do
Estado-Nação.
Uma nova identidade islâmica está sendo construída, não por um
retorno à tradição, mas pela manipulação de materiais
tradicionais para a formação de um novo mundo divino e
comunal, em que massas excluídas e intelectuais marginalizados
possam reconstruir significados em uma alternativa global à
ordem mundial excludente.
Pela negação da exclusão, ainda que pelo extremismo do
auto-sacrifício, surge uma nova identidade islâmica no
processo histórico de construção da umma, o paraíso
comunal para os verdadeiros fiéis.
Deus me salve! O fundamentalismo cristão norte-americano
O termo “fundamentalismo” teve origem nos EUA. Os EUA são uma
sociedade que busca a transformação social e a mobilidade
individual e que anseia pela segurança proporcionada pelos
valores tradicionais baseados em Deus. Os EUA são uma
sociedade muito religiosa, porém esse sentimento religioso
parece estar assumindo um tom cada vez mais evangelizador,
fluindo em direção a uma poderosa corrente fundamentalista.
Na essência do pensamento cristão está o perdão, pelo qual, os
pecadores são tirados do pecado para ganhar a vida eterna; o
patriarcalismo, que consiste na santidade do matrimônio e,
sobretudo, a autoridade do homem sobre a mulher e a estrita
obediência dos filhos; e a família, que deve educar os filhos
tementes a deus e obediente à autoridade dos pais, como também
contar com total apoio da educação cristã ministrada na
escola. Uma abundância de recompensas terrenas aguarda o
cristão que se compromete a obedecer a esses princípios e
preferir os desígnios de Deus ao seu próprio planejamento de
vida, repleto de imperfeições. Com uma família patriarcal
estável como base sólida para a vida, os negócios também irão
bem, desde que o governo não interfira na economia.
Os inimigos mais insidiosos e ameaçadores são as feministas e
os homossexuais, pois são eles que abalam a instituição
familiar, fonte primeira da estabilidade social, da vida
cristã e da realização pessoal.
Os fundamentalistas norte-americanos contemporâneos são
geralmente, caracterizados por pessoas que possuem um nível de
escolaridade mais baixo, são mais pobres, têm maior influência
entre as donas de casa, em geral residem no sul do país, são
bem mais religiosos e 100% deles consideram a Bíblia um livro
infalível.
O fundamentalismo não parece ser uma racionalização dos
interesses de classe, tampouco um posicionamento com base no
território. Em vez disso, ele atua nos processos políticos em
defesa dos valores morais e cristãos. É um movimento reativo,
voltado à construção da identidade social e pessoal, como na
maior parte dos casos de fundamentalismo encontrado na
História, com base em imagens do passado projetadas em um
futuro utópico, visando à superação do insustentável tempo
presente.
As causas mais imediatas do fundamentalismo cristão são duas:
a ameaça da globalização, pois a construção da identidade
parece ser uma tentativa de reafirmação do controle sobre a
vida e sobre o país, uma reação direta ao processo desenfreado
de globalização que se faz cada vez mais presente na economia
e na mídia; e a crise do patriarcalismo, motivado
principalmente por movimentos feministas, das lésbicas e dos
gays, causando uma rejeição à autoridade patriarcal, com isso
há uma reação óbvia por parte dos homens em defesa de seus
privilégios, uma vez que seu papel cada vez menos
significativo como único provedor da família abalou as bases
materiais e ideológicas do patriarcalismo.
O fundamentalismo norte-americano está profundamente marcado
pelas características culturais do país, seu individualismo
amparado na família, seu pragmatismo e seu relacionamento
personalizado com Deus, como também com os desígnios de Deus,
como forma de solucionar os problemas pessoais em uma vida
cada vez mais imprevisível e incontrolável.
Nações e Nacionalismo na Era da Globalização: Comunidades
Imaginadas ou Imagens Comunais?
A era da globalização surge como um reforço do nacionalismo
como oposição ao estrangeiro. Isto contrariando o que
imaginavam muitos historiadores, que chegaram a anunciar o fim
do nacionalismo por três motivos: economia e política
internacionalizadas, cultura universalizada (pela mídia) e
ataque à idéia de “nações” como “comunidades imaginadas”.
Castells enuncia teorias de como seria formado o nacionalismo
de acordo com determinados pensadores. Em seguida, explica
porque cada uma delas não deve ser aplicada no estudo do
nacionalismo contemporâneo:
Gellner afirmava que “nacionalismos não passam de ”tribalismos”.
Para ele e para Hobsbawn, o sucesso consiste na construção de
um Estado-Nação moderno e soberano; assim, os movimentos
nacionalistas (representando os interesses de uma elite),
criam uma identidade nacional. O objetivo seria fazer com que
os “nacionais” estejam prontos para morrer por sua nação.
Hobsbawn aceita o nacionalismo como um movimento que,
historicamente, surge das bases para o topo (a partir de
atributos lingüísticos, territoriais, étnicos, religiosos e
político-históricos compartilhados). Mas acredita que só com a
formação de um Estado-Nação é que as nações e o nacionalismo
passam a existir de fato (modelo pós-Revolução Francesa). A
contraposição de Castells à esta idéia está no fato de que os
movimentos nacionalistas atuais têm surgido a partir do
enfraquecimento dos Estado-Nação.
David Hooson afirma que esta segunda metade do século XX é
caracterizada como a era da “proliferação de movimentos
nacionalistas turbulentos, de natureza mais duradoura, sem
apresentar, contudo a característica das terríveis tiranias
(...) Os anseios de expressar a própria identidade e de tê-la
reconhecida de forma concreta pelos outros são cada vez mais
contagiantes, e têm de ser admitidos como força elementar,
mesmo no mundo restrito e aparentemente homogeneizador da alta
tecnologia do final do século XX”.
Para Castells, muitas destas teorias sociais não se aplicam à
experiência prática contemporânea pelo fato de que “o
nacionalismo, bem como as nações, têm vida própria,
independentemente da condição de Estado, embora estejam
inseridos em ideários culturais e projetos políticos”. Ele não
acredita em nações e nacionalismos construídos com base apenas
em etnia, religião, idioma, território. Ele acredita na experiência
compartilhada. Como exemplo disso, compara as experiências
de Japão e Estados Unidos: o primeiro é uma das nações mais
homogêneas do mundo. O segundo, o contrário. Porém, ambos
conseguiram construir uma forte identidade nacional e um
profundo sentimento patriótico graças às suas narrativas
históricas, que têm o poder de se aplicar aos povos de cada um
desses países sob perspectivas diversas.
Com o objetivo de simplificar a análise do nacionalismo
contemporâneo de acordo com as Teorias Sociais do
Nacionalismo, Castells propões quatro pontos fundamentais:
1)
O nacionalismo contemporâneo não surge,
necessariamente, ligado a um Estado-Nação, ou seja, as nações
são entidades independentes do Estado.
2)
As nações não estão historicamente limitadas ao
Estado-Nação moderno/pós-Revolução Francesa. Na verdade, no
final do século XX, surgem movimentos nacionalistas em
diversas regiões do mundo, baseados em uma enorme variedade de
tendências culturais e projetos políticos.
3)
O nacionalismo não é necessariamente um fenômeno das
elites, podendo ser, muitas vezes, até mesmo uma reação às
mesmas. Nem o fato de as elites tenderem a ter um nível
cultural mais elevado diminui o apelo e o significado do
nacionalismo à manipulação das massas pelas elites, de acordo
com os próprios interesses dessas elites.
4)
O nacionalismo contemporâneo tende a ser mais reativo
do que ativo, mais cultural do que político, mais dirigido à
defesa de uma cultura já institucionalizada do que à
construção ou defesa de um Estado. As novas políticas tendem a
ser trincheiras defensivas da identidade.
Assim, Castells afirma que “o nacionalismo é, na verdade,
cultural e politicamente construído, mas o que realmente
importa, tanto do ponto de vista prático quanto teórico é,
como, a partir de quê, por quem e para quê uma identidade é
construída”. E, para exemplificar a complexidade da
(re)construção da identidade nacional neste novo contexto
histórico, o autor propõe uma análise de dois casos
“contrários”:
-
A desconstrução de um Estado Centralizado e multinacional,
com a extinta União Soviética e a formação subseqüente de
“quase-Estados-Nação”;
-
E o quase-Estado nacional que vem surgindo na Catalunha por
meio do duplo movimento de federalismo na Espanha e
confederalismo na União Européia.
As nações contra o Estado: a dissolução da União Soviética e
da Comunidade de Estados Impossíveis
A União Soviética foi um dos poucos Estados modernos
constituído explicitamente como Estado plurinacional, com
diversas nacionalidades, tanto no plano individual (cidadãos
tinham nacionalidades diferentes), quanto no plano
administrativo. Eram 15 repúblicas federais, que
continham dentro de si repúblicas autônomas, territórios (krai),
distritos nativos autônomos (okrag) e diversas províncias (oblasti).
Tais repúblicas eram divididas com base em um princípio
territorial de nacionalidade, de acordo com a vontade do
partido comunista soviético – discordâncias eram reprimidas,
sobretudo durante a era stalinista.
A administração do Estado Soviético era fundamentada na
nacionalidade: Lênin e Stalin apoiavam políticas de
nativização até a década de 30 (retomadas nos anos 60). O
objetivo era preservar costumes e idiomas nativos, favorecendo
o recrutamento e a promoção de nacionalidades não-russas nos
aparatos do Estado e do partido nas repúblicas, bem como nas
instituições educacionais, e fomentar o desenvolvimento de
elites culturais nacionais, sob a condição de subserviência ao
poder soviético.
Esta aparente abertura à autodeterminação nacional está ligada
à formação do Estado soviético e à Revolução. A princípio, a
posição bolchevique, apoiada no pensamento marxista ortodoxo,
era contra a importância da nacionalidade como critério
significativo para a construção do novo Estado.
Posteriormente, Lênin percebeu que precisava do apoio das
forças nacionalistas externas à Rússia, principalmente da
Ucrânia.
A partir daí, o principal debate passou a ser acerca de qual
identidade seria reconhecida pelo novo Estado federal, em meio
a tantas diferentes. Lênin e Stalin optaram pelo princípio da
territorialidade como fundamento do conceito de nação. Tal
diversidade de sujeitos territoriais estava submetida ao
controle dos aparatos dominantes do partido comunista e do
Estado soviético. Agora, o Estado soviético contava com uma
dupla identidade: de um lado, identidades étnico-culturais; de
outro, a identidade soviética – identidade cultural a ser
conquistada.
A estratégia leninista-stalinista consistia em manter a URSS
como um sistema institucional centralizado, porém flexível,
sempre aberto e adaptável à aceitação de novos países como
membros da União, visando o avanço da causa comunista pelo
mundo.
A União Soviética era composta por mais de 100 nacionalidades
e grupos étnicos espalhados por todo o mundo. E foi esse
universalismo
versus
a valorização de interesses étnicos/nacionais que levaram à
quebra da política soviética. Na formação do conglomerado
soviético, juntavam territórios desconsiderando culturas ou
etnias diferentes. Pessoas foram tiradas de suas regiões e
mandadas para outras como formas de mão-de-obra qualificada.
Assim, quando a União Soviética se desintegrou, o princípio da
nacionalidade territorial concentrou nas repúblicas
recém-independentes dezenas de milhões de pessoas que, do dia
para a noite, se tornaram “cidadãos nacionais estrangeiros”.
Curiosamente, de todas as nacionalidades, a russa foi a que
mais sofreu, por ter sido a mais “espalhada” (inclusive suas
riquezas, recursos e qualificações “). E a história, a
religião e a identidade russas foram as mais reprimidas, para
dar lugar a nova identidade soviética que estava sendo
construída.
Essa paradoxal constituição do Estado deixou a “brecha” que
levou a um forte movimento nacionalista russo. E foi a partir
desta luta pela democracia e a recuperação da entidade
nacional russa que se articulou a derrocada do comunismo
soviético e a dissolução da União Soviética.
Segundo Castells, “os primeiros anos de existência desse novo
conglomerado de estados independentes revelaram tanto a
fragilidade de sua estrutura como a durabilidade de
nacionalidades historicamente arraigadas, que pouco se
importavam com as fronteiras herdadas quando da desintegração
da URSS”. Vários conflitos e guerras eclodiram por todo o
território da ex-União Soviética.
O exemplo da União Soviética serve para comprovar como as
teorias sociais do nacionalismo não podem ser aplicadas ao
nacionalismo contemporâneo pelos seguintes fatores:
1)
Um dos mais poderosos Estados da história da humanidade não
conseguiu, mesmo depois de 74 anos, criar uma identidade
nacional. Momentos de crença e descrença nessa nova identidade
se alternavam durante todo este tempo, mas esta identidade era
tão frágil e tão dependente da falta de informações sobre o
que realmente acontecia no país e no mundo que não resistiu
aos choques da estagnação econômica e ao entendimento da
verdadeira realidade. “Comunidades podem ser imaginadas, mas
isso não significa necessariamente que serão acolhidas pelo
povo”.
2)
O reconhecimento das identidades nacionais não obteve sucesso
no processo de integração de nacionalidade no sistema
soviético. As identidades nacionais não conseguiam se ver
representadas nas instituições artificialmente construídas do
federalismo soviético. A tentativa de integração das
identidades nacionais fracassou pelo fato de que sua
institucionalização artificial não atentou para a real
identidade histórica e cultural/religiosa de cada comunidade
nacional, nem de sua especificidade geográfica.
3)
Quando o povo teve condições de se expressar contra a União
Soviética, ele (inclusive as elites) não lutou em nome da
democracia ou das virtudes da economia de mercado, mas sim,
lutou a favor do nacionalismo, não por manipulação política,
mas pela resistência e vitalidade da identidade nacional como
princípio mobilizador. O povo se baseou nas instituições
básicas de sua memória coletiva: a família, a comunidade, o
pássaro rural, às vezes, a religião e, sobretudo, a nação como
auto-identificação pessoal.
Por fim, ao final de toda essa história, surgiram novos
Estados-Nação para fazer valer suas identidades suprimidas.
Isto ocorre pelo atual entrelaçamento em um mosaico de
nacionalidades e identidades históricas nas atuais fronteiras
independentes. Além disso, há a interpenetração de economia,
bem como a infra-estrutura compartilhada, o que tornam a
desarticulação dos territórios da extinta União Soviética
muito dispendiosa, fazendo da cooperação um instrumento
decisivo para o desenvolvimento.
Por acreditar ser impossível a reconstrução da União
Soviética, Castells propõe, por fim, como futuro mais
provável, a noção da
Comunidade de Estados Inseparáveis,
ou seja, uma rede de instituições suficientemente dinâmicas e
flexíveis para articular a autonomia da identidade nacional e
uma instrumentalização política compartilhada no contexto da
economia global.
Nações sem Estado: a Catalunha
A Catalunha nos mostra que nações existem e (re)constroem-se
sem dispor de um Estado Nação e sem lutar pelo estabelecimento
de um. “A Catalunha é uma nação sem Estado. Pertencemos ao
estado espanhol, mas não alimentamos pretensões separatistas.
Essa idéia deve ser exposta de forma bem clara... O caso da
Catalunha é peculiar: temos nossa própria língua e cultura,
somos uma nação sem Estado.” (Jordi Pujol – atual presidente e
líder nacional ad Catalunha)
Em sua história, chegou a ser um império soberano, mas após o
acordo de união voluntária com o reino de Castela foi quando a
Catalunha deixou de ser uma entidade política soberana, sendo
excluída de muitos privilégios comerciais e decaindo
totalmente com isso. Ela até tentou uma luta por maior
autonomia entre 1705 e 1714, mas perdeu a luta e com isso
perdeu mais direitos ainda. Seu poder econômico e social se
contrariam com sua marginalidade política, mas mesmo assim seu
nacionalismo se manteve. O mais marcante foi que depois disso
tudo, logo após o atendimento das exigências nacionalistas de
autonomia cultural e governo independente da Catalunha, houve
uma revolta entre os povos que culminou na Guerra civil de
1936-39 na Espanha, reprimindo toda a cultura catalã.
Os catalães rejeitam a idéia de separatismo, justificam-se
afirmando que precisam das instituições simplesmente para
existir como nação, não para se tornarem um Estado-Nação
soberano. Isso parte também da Espanha, que após todos os
conflitos anteriores respeita e libera a identidade catalã. A
Catalunha e o País Basco vem forçando a Espanha a tornar-se um
Estado federal altamente descentralizado (e, as outras regiões
têm reivindicado a mesma autonomia concedida aos catalães e
aos bascos).
A Catalunha é uma grande seqüência de gerações unidas pela
língua e tradição catalãs, que se sucederam em um território.
Sua identidade é, em grande medida, lingüística e cultural. O
que distinguiu os catalães como povo foi à língua (diferente
do espanhol e do francês) e dotada de uma literatura já
desenvolvida no século XIII.
A língua como identidade adquiriu uma importância ainda maior
na segunda metade do século XX. Em 1983, o Parlamento catalão
aprovou por unanimidade a “Lei de Normalização Lingüística”.
Isso concretizaria a integração da população de origem
não-catalã na cultura catalã, de modo a não fomentar a criação
de guetos culturais que causariam uma ruptura na sociedade. O
Estado foi utilizado para reforçar / produzir a nação sem
exigir sua soberania do Estado Espanhol. A Catalunha é uma
comunidade humana, organizada fundamentalmente em torno da
língua, também dotada de significativa continuidade
territorial e uma tradição e governo autônomo e democracia
política.
A Espanha respeita a identidade catalã, o que tem se mostrado
uma das melhores maneiras de relações democráticas.
Por não buscar um Estado, mas sim preservar sua nação
mostra que os catalães são um povo muito ligado a suas origens
e tradições comerciais sem fronteiras, o que caracteriza a era
da informação.
A trajetória pelos dois extremos opostos da Europa dá noção do
novo significado do nacionalismo em vista da Era da
informação. É essencial a diferenciação entre nações e Estados
(surgidos da Idade Moderna). Temos conhecimento de nações sem
Estado, Estado sem nações, Estado pluri e uninacionais,
Estados que compartilham uma nação e nações que compartilham
um Estado, deixando claro que cidadania não corresponde a
nacionalidade. Assim, comparar nações e Estados a Estado-nação
torna-se uma contradição.
A desagregação étnica: raça, classe e identidade na sociedade
em rede
A etnia sempre foi uma fonte fundamental de significado e
reconhecimento, sendo uma das estruturas mais primárias de
distinção e reconhecimento social, como também de
discriminação em muitas sociedades contemporâneas. Ela foi e é
a base para o surgimento de revoltas na luta por justiça
social.
Segundo Cornel West, “nessa era de globalização, com suas
fantásticas inovações científicas e tecnológicas em
informática, comunicações e tecnologia aplicada, o enfoque nos
efeitos remanescentes do racismo parece antiquado e
desatualizado... Contudo, a raça – na linguagem cifrada da
reforma previdenciária, política de imigração, penas
criminais, ação afirmativa e privatização suburbana –
permanece como um dos principais significantes no debate
político”. Um exemplo disso são as discussões em torno da Lei
de Cotas para negros em universidades públicas.
Consideradas questões fulcrais, a etnia e a raça têm sido
alteradas pela atual tendência social. Castells diz que,
embora a questão racial seja importante, e provavelmente a
principal fonte de opressão e discriminação, a etnia vem sendo
especificada como fonte de significado e identidade, que
estaria integrada a princípios como religião, nação ou
gênero.
Para justificar isso, o autor faz uma breve explanação da
evolução da identidade afro-americana nos Estados Unidos e
conclui que a realidade dos afro-americanos tem sido
transformada nas últimas décadas devido a uma profunda divisão
em termos de classes sociais. Atualmente, cerca de um terço
deles faz parte da classe média americana e, de outro lado,
cerca de um terço vivem em condições de pobreza ou miséria.
Por último, o um terço restante dos afro-americanos luta para
não cair no inferno da pobreza, dependendo de empregos dos
setores públicos e de serviços, e dos programas de treinamento
vocacional e educacional para aprendizado de algumas
habilidades que garantam a sobrevivência em uma economia
desindustrializada. As conseqüências dessa situação são
comprovadas em números, que revelam, por exemplo, que os
negros norte-americanos respondem por mais de 50% do total de
detentos.
Para compreender essa transformação na identidade
afro-americana é importante considerar que sua identidade foi
constituída a partir de um povo seqüestrado e escravizado, sob
controle da sociedade mais livre da época. Assim, para
justificar a contradição das idéias de liberdade e a economia
escravocrata, os Estados Unidos tiveram de negar a condição
humana dos negros. A divisão em termos de classes sociais,
citada anteriormente, tem transformado esse cenário cultural.
Poderíamos imaginar que a classe média negra pudesse ser
assimilada à sociedade como um todo, constituindo uma nova
identidade e fazendo parte da “colcha de retalhos” étnica da
sociedade norte-americana. Por outro lado, ao mesmo tempo, os
elementos pertencentes à subclasse tornar-se-iam mais pobres
que os negros. Mas alguns dados mostram ao contrário,
revelando que os negros ascendentes se desiludem com o “sonho
americano” e os da subclasse já esperam pelo seu destino
(“sempre foi assim”).
Paralelamente, os guetos têm desenvolvido uma nova cultura,
composta por aflições e raiva, que expressa uma identidade que
poderia ser caracterizada como uma identidade de resistência.
Os temas dessa nova experiência de guetos seriam ambientes,
organizações sociais baseada em gangues e uso de violência
como meio de vida. Seriam, portanto, duas identidades: a dos
negros de classe média e a dos pertencentes a guetos. Diante
da rejeição por parte do racismo institucional, só resta aos
negros como alternativa à condição de líderes de sua própria
raça, porém nas trincheiras dos guetos e nas diretorias das
empresas, a identidade histórica afro-americana está se
fragmentando e se individualizando, sem estar, contudo,
integrada a uma sociedade aberta e multiracional.
Tudo isso mostra que a etnia não fornece as bases para os
paraísos comunais da sociedade em rede por estar fundamentada
nos vínculos primários que perdem o sentido quando extraídos
de seu contexto histórico. As matérias-primas étnicas estão
integradas nas comunas culturais que são mais fortes e possuem
uma definição mais ampla que a etnia, tais como a religião e o
nacionalismo.
Identidades territoriais: a comunidade local
Debates antigos da sociologia diziam respeito ao
desaparecimento da comunidade, mas pesquisas factuais
revelaram que as pessoas se socializam e interagem em seu
ambiente local, seja ele a vila, a cidade, o subúrbio,
formando redes sociais entre seus vizinhos. Isso seria o
ressurgimento da comunidade basicamente estabelecida no âmbito
local. Castells não considera impreciso afirmar que ambientes
locais não induzam um padrão específico de comportamento ou,
ainda, justamente por isso, uma identidade distintiva. Segundo
ele, as pessoas resistem ao processo de individualização e
atomização, tendendo a agrupar-se em organizações comunitárias
que geram um sentimento de pertença e, em última análise, uma
identidade cultural, comunal. Para isso, as pessoas precisam
participar de movimentos urbanos pelos quais são revelados e
defendidos interesses em comum.
Os movimentos urbanos estariam voltados a três conjuntos de
metas principais: necessidades urbanas de condições de vida e
consumo coletivo, afirmação da identidade cultural local e
conquista da autonomia política local e participação na
qualidade de cidadãos. Esses três unidos e diferenciados em
cada caso chegam a produzir algum significado para a
comunidade, e esses movimentos são a principal resistência ao
unilateralismo dado pelo capitalismo, estatismo e informalismo.
Ma luta contra a exploração econômica, a dominação cultural e
a repressão política, não restou outra alternativa ao povo
senão render-se ou reagir com base na fonte mais imediata de
auto-reconhecimento e organização autônoma: seu próprio
território.
Castells divide a trajetória dos movimentos sociais em quatro
grandes grupos: o primeiro oferece a possibilidade da
existência do Estado local como exemplo significativo de
reconstrução do controle político e do significado social; o
segundo apresenta uma natureza defensiva e reativa,
preocupando-se com a conservação do seu próprio espaço; o
terceiro é constituído por um grande número de comunidade de
baixa renda que se engajou em um projeto de sobrevivência
coletiva; e , por último, as gangues, que desempenham um papel
estrutural em diversas áreas e acabam se tornando movimentos
áridos por destruição.
Enfim, as comunidades locais, que montam seu próprio
movimento, constituem fontes específicas de identidades, que
se defendem das condições impostas pela desordem global.
Conclusão: As Comunas Culturais na era da Informação
Para os atores sociais excluídos ou que tenham oferecido
resistência, é a rede global de riqueza e poder que
individualiza a identidade. A construção de significados em
nossa sociedade está nas comunas culturais de cunho religioso,
nacional ou territorial. Essas comunas são caracterizadas por:
aparecerem como reação a tendências sociais predominantes;
constituírem identidades defensivas e por serem construídas
culturalmente. A etnia não resulta no estabelecimento de
comunas. As comunas culturais são comunidades construídas
(materialmente construídas) em torno de reações e projetos
determinados por fatores históricos.
Fundamentalismo religioso, nacionalismo cultural, comunas
territoriais são reações defensivas. São formas de reação à
globalização, à formação de redes e à flexibilidade e à crise
da família patriarcal. Essas reações defensivas tornam-se
fontes de significado e identidade ao construírem novos
códigos culturais.
A forma de construção de identidade gira essencialmente em
torno da identidade de resistência. A identidade legitimadora
está em crise estrutural. E a identidade de projeto
relaciona-se com o surgimento, nas comunas, de novos sujeitos
(agentes coletivos de transformação social). Pode ser esta a
principal fonte de mudança social no contexto da sociedade em
rede.
Autores: Alessandra Lemos, Fernanda
Gabriela, Immanuela d’Oliveira e Michelle Pereira (2005).
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed
ElHajji.
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