Resenha

O Poder da Identidade

Castells, Manuel, “O Poder da Identidade ( A era da informação: economia, sociedade e cultura )”,  São Paulo: Paz e Terra, 1998, 2ª Ed.

Capítulo I – Paraísos comunais: identidade e significados na  sociedade em rede

A construção da identidade

Identidade é um processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, os quais prevalecem sobre outras fontes de significados. Identidades constituem fontes se significado para os atores sociais e também podem ser formadas a partir de instituições dominantes. Identidades organizam significados, enquanto papéis organizam funções. Significado é a identificação simbólica, por parte de um ator social, da finalidade da ação praticada por tal ator. 

Do ponto de vista sociológico, todo e qualquer identidade é construída. Existem três formas e origens de construção de identidade: 

·               Identidade Legitimadora: Introduzida pelas instituições dominantes da sociedade no intuito de expandir sua dominação em relação aos atores sociais. Essa identidade dá origem a uma sociedade civil, com organizações e instituições.

·               Identidade de Resistência: Criada por atores sociais que têm posições e princípios opostos às instituições da sociedade. Essa identidade dá origem à comunidade, que é uma forma de resistência coletiva diante de uma opressão.

·               Identidade de Projeto: São quando os atores sociais constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade. Essa identidade dá origem a sujeitos, estes criam uma história pessoal, atribuindo significado às experiências da vida individual. 

A identidade de resistência pode acabar resultando em projetos, ou mesmo em identidade dominante, legitimando, assim, a sua dominação. O surgimento da sociedade em rede traz à tona processos de construção de identidade, induzindo assim novas formas de transformação social, isso porque a sociedade em rede está fundamentada na disjunção sistêmica entre o local e o global para a maioria dos indivíduos e grupos sociais. 

É um atributo da sociedade encontrar consolo e refúgio na religião. Já o fundamentalismo é algo mais. Esse “algo mais” representa uma das mais importantes fontes de construção de identidade na sociedade em rede. Fundamentalismo, para o autor, é a construção da identidade coletiva segundo a identificação do comportamento individual e das instituições da sociedade com as normas oriundas da lei de Deus, interpretadas por uma autoridade definida que atua como intermediária entre Deus e a humanidade. O fundamentalismo religioso está surpreendentemente forte e influente como fonte de identidade neste final de milênio. 

Umma versus Jahiliya: o fundamentalismo islâmico 

O fundamentalismo islâmico como identidade reconstruída e como projeto político está no cerne de um processo decisivo, ao qual está condicionado, em grande parte, o futuro do mundo. 

Islã, em árabe, significa submissão, e mulçumano é aquele que se submete à vontade de Alá. Os princípios religiosos preceituados pelo Corão são comuns a todo Islã, mas pode sofrer interpretações múltiplas. Para a maioria dos mulçumanos, a sharia (lei divina, constituída pelo Corão e os Hadiths) não representa uma ordem rígida e inflexível, mas, antes, uma referência para se caminhar em direção a Deus, com as devidas adaptações exigidas pelo contexto histórico e social. 

Existe uma ampla gama de variáveis entre o fundamentalismo conservador e o fundamentalismo radical. Há também diferenças consideráveis entre a tradição Shiaxiita, que inspira Khomeini, e a tradição Sunnisunita, que constitui a crença de cerda de 85% dos mulçumanos, inclusive de alguns movimentos reacionários. 

Para um mulçumano, o vínculo fundamental não é watan (terra natal), mas sim a Umma, ou comunidade de fiéis, em que todos são iguais em sua submissão perante Alá. Para que uma Umma permaneça viva e possa crescer até que englobe toda a humanidade, é preciso lutar contra a Jahiliya ( o estado de ignorância em relação a Deus ou a falta de obediência aos ensinamentos de Deus), em que as sociedades mergulharam novamente. Para superar as forças dos ímpios, pode ser necessário, lançar mão da jihad (luta em nome do Islã) contra os infiéis, o que por sua vez pode significar, em casos extremos, recorrer à guerra santa. 

Nessa estrutura cultural/religiosa/política, a identidade islâmica é construída com base em uma dupla desconstrução, realizada pelos atores sociais, que devem se desconstruir como sujeitos, sejam eles indivíduos, membros de um grupo étnico ou cidadãos de uma nação; e pelas instituições da sociedade, cabe ao Estado-Nação negar sua própria identidade, o Estado islâmico, com base na sharia, prevalece contra o Estado-Nação. 

A identidade islâmica é (re)construída pelos fundamentalistas por oposição ao capitalismo, ao socialismo e ao nacionalismo, árabe ou de qualquer outra origem, que, em sua visão, são todas ideologias fracassadas provenientes da ordem pós-colonial. A construção da identidade islâmica contemporânea realiza-se como uma reação contra a modernização inatingível (capitalista ou socialista), os efeitos negativos da globalização e o colapso de projeto nacionalista pós-colonial. 

O islamismo político, bem como a identidade fundamentalista islâmica, parece estar de expandindo nos anos 90 em uma série de contextos sociais e institucionais distintos, sempre relacionados à dinâmica de exclusão e/ou à crise do Estado-Nação. 

Uma nova identidade islâmica está sendo construída, não por um retorno à tradição, mas pela manipulação de materiais tradicionais para a formação de um novo mundo divino e comunal, em que massas excluídas e intelectuais marginalizados possam reconstruir significados em uma alternativa global à ordem mundial excludente. 

Pela negação da exclusão, ainda que pelo extremismo do auto-sacrifício, surge uma nova identidade islâmica no processo histórico de construção da umma, o paraíso comunal para os verdadeiros fiéis. 

Deus me salve! O fundamentalismo cristão norte-americano 

O termo “fundamentalismo” teve origem nos EUA. Os EUA são uma sociedade que busca a transformação social e a mobilidade individual e que anseia pela segurança proporcionada pelos valores tradicionais baseados em Deus. Os EUA são uma sociedade muito religiosa, porém esse sentimento religioso parece estar assumindo um tom cada vez mais evangelizador, fluindo em direção a uma poderosa corrente fundamentalista. 

Na essência do pensamento cristão está o perdão, pelo qual, os pecadores são tirados do pecado para ganhar a vida eterna; o patriarcalismo, que consiste na santidade do matrimônio e, sobretudo, a autoridade do homem sobre a mulher e a estrita obediência dos filhos; e a família, que deve educar os filhos tementes a deus e obediente à autoridade dos pais, como também contar com total apoio da educação cristã ministrada na escola. Uma abundância de recompensas terrenas aguarda o cristão que se compromete a obedecer a esses princípios e preferir os desígnios de Deus ao seu próprio planejamento de vida, repleto de imperfeições. Com uma família patriarcal estável como base sólida para a vida, os negócios também irão bem, desde que o governo não interfira na economia. 

Os inimigos mais insidiosos e ameaçadores são as feministas e os homossexuais, pois são eles que abalam a instituição familiar, fonte primeira da estabilidade social, da vida cristã e da realização pessoal. 

Os fundamentalistas norte-americanos contemporâneos são geralmente, caracterizados por pessoas que possuem um nível de escolaridade mais baixo, são mais pobres, têm maior influência entre as donas de casa, em geral residem no sul do país, são bem mais religiosos e 100% deles consideram a Bíblia um livro infalível. 

O fundamentalismo não parece ser uma racionalização dos interesses de classe, tampouco um posicionamento com base no território. Em vez disso, ele atua nos processos políticos em defesa dos valores morais e cristãos. É um movimento reativo, voltado à construção da identidade social e pessoal, como na maior parte dos casos de fundamentalismo encontrado na História, com base em imagens do passado projetadas em um futuro utópico, visando à superação do insustentável tempo presente. 

As causas mais imediatas do fundamentalismo cristão são duas: a ameaça da globalização, pois a construção da identidade parece ser uma tentativa de reafirmação do controle sobre a vida e sobre o país, uma reação direta ao processo desenfreado de globalização que se faz cada vez mais presente na economia e na mídia; e a crise do patriarcalismo, motivado principalmente por movimentos feministas, das lésbicas e dos gays, causando uma rejeição à autoridade patriarcal, com isso há uma reação óbvia por parte dos homens em defesa de seus privilégios, uma vez que seu papel cada vez menos significativo como único provedor da família abalou as bases materiais e ideológicas do patriarcalismo. 

O fundamentalismo norte-americano está profundamente marcado pelas características culturais do país, seu individualismo amparado na família, seu pragmatismo e seu relacionamento personalizado com Deus, como também com os desígnios de Deus, como forma de solucionar os problemas pessoais em uma vida cada vez mais imprevisível e incontrolável. 

Nações e Nacionalismo na Era da Globalização: Comunidades Imaginadas ou Imagens Comunais? 

A era da globalização surge como um reforço do nacionalismo como oposição ao estrangeiro. Isto contrariando o que imaginavam muitos historiadores, que chegaram a anunciar o fim do nacionalismo por três motivos: economia e política internacionalizadas, cultura universalizada (pela mídia) e ataque à idéia de “nações” como “comunidades imaginadas”. 

Castells enuncia teorias de como seria formado o nacionalismo de acordo com determinados pensadores. Em seguida, explica porque cada uma delas não deve ser aplicada no estudo do nacionalismo contemporâneo:

Gellner afirmava que “nacionalismos não passam de ”tribalismos”. Para ele e para Hobsbawn, o sucesso consiste na construção de um Estado-Nação moderno e soberano; assim, os movimentos nacionalistas (representando os interesses de uma elite), criam uma identidade nacional. O objetivo seria fazer com que os “nacionais” estejam prontos para morrer por sua nação. Hobsbawn aceita o nacionalismo como um movimento que, historicamente, surge das bases para o topo (a partir de atributos lingüísticos, territoriais, étnicos, religiosos e político-históricos compartilhados). Mas acredita que só com a formação de um Estado-Nação é que as nações e o nacionalismo passam a existir de fato (modelo pós-Revolução Francesa). A contraposição de Castells à esta idéia está no fato de que os movimentos nacionalistas atuais têm surgido a partir do enfraquecimento dos Estado-Nação.
 

David Hooson afirma que esta segunda metade do século XX é caracterizada como a era da “proliferação de movimentos nacionalistas turbulentos, de natureza mais duradoura, sem apresentar, contudo a característica das terríveis tiranias (...) Os anseios de expressar a própria identidade e de tê-la reconhecida de forma concreta pelos outros são cada vez mais contagiantes, e têm de ser admitidos como força elementar, mesmo no mundo restrito e aparentemente homogeneizador da alta tecnologia do final do século XX”. 

Para Castells, muitas destas teorias sociais não se aplicam à experiência prática contemporânea pelo fato de que “o nacionalismo, bem como as nações, têm vida própria, independentemente da condição de Estado, embora estejam inseridos em ideários culturais e projetos políticos”. Ele não acredita em nações e nacionalismos construídos com base apenas em etnia, religião, idioma, território. Ele acredita na experiência compartilhada. Como exemplo disso, compara as experiências de Japão e Estados Unidos: o primeiro é uma das nações mais homogêneas do mundo. O segundo, o contrário. Porém, ambos conseguiram construir uma forte identidade nacional e um profundo sentimento patriótico graças às suas narrativas históricas, que têm o poder de se aplicar aos povos de cada um desses países sob perspectivas diversas. 

Com o objetivo de simplificar a análise do nacionalismo contemporâneo de acordo com as Teorias Sociais do Nacionalismo, Castells propões quatro pontos fundamentais: 

1)     O nacionalismo contemporâneo não surge, necessariamente, ligado a um Estado-Nação, ou seja, as nações são entidades independentes do Estado.

2)     As nações não estão historicamente limitadas ao Estado-Nação moderno/pós-Revolução Francesa. Na verdade, no final do século XX, surgem movimentos nacionalistas em diversas regiões do mundo, baseados em uma enorme variedade de tendências culturais e projetos políticos.

3)     O nacionalismo não é necessariamente um fenômeno das elites, podendo ser, muitas vezes, até mesmo uma reação às mesmas. Nem o fato de as elites tenderem a ter um nível cultural mais elevado diminui o apelo e o significado do nacionalismo à manipulação das massas pelas elites, de acordo com os próprios interesses dessas elites.

4)     O nacionalismo contemporâneo tende a ser mais reativo do que ativo, mais cultural do que político, mais dirigido à defesa de uma cultura já institucionalizada do que à construção ou defesa de um Estado. As novas políticas tendem a ser trincheiras defensivas da identidade. 

Assim, Castells afirma que “o nacionalismo é, na verdade, cultural e politicamente construído, mas o que realmente importa, tanto do ponto de vista prático quanto teórico é, como, a partir de quê, por quem e para quê uma identidade é construída”. E, para exemplificar a complexidade da (re)construção da identidade nacional neste novo contexto histórico, o autor propõe uma análise de dois casos “contrários”:  

  • A desconstrução de um Estado Centralizado e multinacional, com a extinta União Soviética e a formação subseqüente de “quase-Estados-Nação”;

  • E o quase-Estado nacional que vem surgindo na Catalunha por meio do duplo movimento de federalismo na Espanha e confederalismo na União Européia.

As nações contra o Estado: a dissolução da União Soviética e da Comunidade de Estados Impossíveis 

A União Soviética foi um dos poucos Estados modernos constituído explicitamente como Estado plurinacional, com diversas nacionalidades, tanto no plano individual (cidadãos tinham nacionalidades diferentes), quanto no plano administrativo. Eram 15 repúblicas federais, que continham dentro de si repúblicas autônomas, territórios (krai), distritos nativos autônomos (okrag) e diversas províncias (oblasti). Tais repúblicas eram divididas com base em um princípio territorial de nacionalidade, de acordo com a vontade do partido comunista soviético – discordâncias eram reprimidas, sobretudo durante a era stalinista. 

A administração do Estado Soviético era fundamentada na nacionalidade: Lênin e Stalin apoiavam políticas de nativização até a década de 30 (retomadas nos anos 60). O objetivo era preservar costumes e idiomas nativos, favorecendo o recrutamento e a promoção de nacionalidades não-russas nos aparatos do Estado e do partido nas repúblicas, bem como nas instituições educacionais, e fomentar o desenvolvimento de elites culturais nacionais, sob a condição de subserviência ao poder soviético. 

Esta aparente abertura à autodeterminação nacional está ligada à formação do Estado soviético e à Revolução. A princípio, a posição bolchevique, apoiada no pensamento marxista ortodoxo, era contra a importância da nacionalidade como critério significativo para a construção do novo Estado. Posteriormente, Lênin percebeu que precisava do apoio das forças nacionalistas externas à Rússia, principalmente da Ucrânia. 

A partir daí, o principal debate passou a ser acerca de qual identidade seria reconhecida pelo novo Estado federal, em meio a tantas diferentes. Lênin e Stalin optaram pelo princípio da territorialidade como fundamento do conceito de nação. Tal diversidade de sujeitos territoriais estava submetida ao controle dos aparatos dominantes do partido comunista e do Estado soviético. Agora, o Estado soviético contava com uma dupla identidade: de um lado, identidades étnico-culturais; de outro, a identidade soviética – identidade cultural a ser conquistada. 

A estratégia leninista-stalinista consistia em manter a URSS como um sistema institucional centralizado, porém flexível, sempre aberto e adaptável à aceitação de novos países como membros da União, visando o avanço da causa comunista pelo mundo. 

A União Soviética era composta por mais de 100 nacionalidades e grupos étnicos espalhados por todo o mundo. E foi esse universalismo versus a valorização de interesses étnicos/nacionais que levaram à quebra da política soviética. Na formação do conglomerado soviético, juntavam territórios desconsiderando culturas ou etnias diferentes. Pessoas foram tiradas de suas regiões e mandadas para outras como formas de mão-de-obra qualificada. Assim, quando a União Soviética se desintegrou, o princípio da nacionalidade territorial concentrou nas repúblicas recém-independentes dezenas de milhões de pessoas que, do dia para a noite, se tornaram “cidadãos nacionais estrangeiros”. 

Curiosamente, de todas as nacionalidades, a russa foi a que mais sofreu, por ter sido a mais “espalhada” (inclusive suas riquezas, recursos e qualificações “). E a história, a religião e a identidade russas foram as mais reprimidas, para dar lugar a nova identidade soviética que estava sendo construída. 

Essa paradoxal constituição do Estado deixou a “brecha” que levou a um forte movimento nacionalista russo. E foi a partir desta luta pela democracia e a recuperação da entidade nacional russa que se articulou a derrocada do comunismo soviético e a dissolução da União Soviética. 

Segundo Castells, “os primeiros anos de existência desse novo conglomerado de estados independentes revelaram tanto a fragilidade de sua estrutura como a durabilidade de nacionalidades historicamente arraigadas, que pouco se importavam com as fronteiras herdadas quando da desintegração da URSS”. Vários conflitos e guerras eclodiram por todo o território da ex-União Soviética. 

O exemplo da União Soviética serve para comprovar como as teorias sociais do nacionalismo não podem ser aplicadas ao nacionalismo contemporâneo pelos seguintes fatores: 

1)     Um dos mais poderosos Estados da história da humanidade não conseguiu, mesmo depois de 74 anos, criar uma identidade nacional. Momentos de crença e descrença nessa nova identidade se alternavam durante todo este tempo, mas esta identidade era tão frágil e tão dependente da falta de informações sobre o que realmente acontecia no país e no mundo que não resistiu aos choques da estagnação econômica e ao entendimento da verdadeira realidade. “Comunidades podem ser imaginadas, mas isso não significa necessariamente que serão acolhidas pelo povo”.

2)     O reconhecimento das identidades nacionais não obteve sucesso no processo de integração de nacionalidade no sistema soviético. As identidades nacionais não conseguiam se ver representadas nas instituições artificialmente construídas do federalismo soviético. A tentativa de integração das identidades nacionais fracassou pelo fato de que sua institucionalização artificial não atentou para a real identidade histórica e cultural/religiosa de cada comunidade nacional, nem de sua especificidade geográfica.

3)     Quando o povo teve condições de se expressar contra a União Soviética, ele (inclusive as elites) não lutou em nome da democracia ou das virtudes da economia de mercado, mas sim, lutou a favor do nacionalismo, não por manipulação política, mas pela resistência e vitalidade da identidade nacional como princípio mobilizador. O povo se baseou nas instituições básicas de sua memória coletiva: a família, a comunidade, o pássaro rural, às vezes, a religião e, sobretudo, a nação como auto-identificação pessoal. 

Por fim, ao final de toda essa história, surgiram novos Estados-Nação para fazer valer suas identidades suprimidas. Isto ocorre pelo atual entrelaçamento em um mosaico de nacionalidades e identidades históricas nas atuais fronteiras independentes. Além disso, há a interpenetração de economia, bem como a infra-estrutura compartilhada, o que tornam a desarticulação dos territórios da extinta União Soviética muito dispendiosa, fazendo da cooperação um instrumento decisivo para o desenvolvimento. 

Por acreditar ser impossível a reconstrução da União Soviética, Castells propõe, por fim, como futuro mais provável, a noção da Comunidade de Estados Inseparáveis, ou seja, uma rede de instituições suficientemente dinâmicas e flexíveis para articular a autonomia da identidade nacional e uma instrumentalização política compartilhada no contexto da economia global. 

Nações sem Estado: a Catalunha 

A Catalunha nos mostra que nações existem e (re)constroem-se sem dispor de um Estado Nação e sem lutar pelo estabelecimento de um. “A Catalunha é uma nação sem Estado. Pertencemos ao estado espanhol, mas não alimentamos pretensões separatistas. Essa idéia deve ser exposta de forma bem clara... O caso da Catalunha é peculiar: temos nossa própria língua e cultura, somos uma nação sem Estado.” (Jordi Pujol – atual presidente e líder nacional ad Catalunha) 

Em sua história, chegou a ser um império soberano, mas após o acordo de união voluntária com o reino de Castela foi quando a Catalunha deixou de ser uma entidade política soberana, sendo excluída de muitos privilégios comerciais e decaindo totalmente com isso. Ela até tentou uma luta por maior autonomia entre 1705 e 1714, mas perdeu a luta e com isso perdeu mais direitos ainda. Seu poder econômico e social se contrariam com sua marginalidade política, mas mesmo assim seu nacionalismo se manteve. O mais marcante foi que depois disso tudo, logo após o atendimento das exigências nacionalistas de autonomia cultural e governo independente da Catalunha, houve uma revolta entre os povos que culminou na Guerra civil de 1936-39 na Espanha, reprimindo toda a cultura catalã. 

Os catalães rejeitam a idéia de separatismo, justificam-se afirmando que precisam das instituições simplesmente para existir como nação, não para se tornarem um Estado-Nação soberano. Isso parte também da Espanha, que após todos os conflitos anteriores respeita e libera a identidade catalã. A Catalunha e o País Basco vem forçando a Espanha a tornar-se um Estado federal altamente descentralizado (e, as outras regiões têm reivindicado a mesma autonomia concedida aos catalães e aos bascos). 

A Catalunha é uma grande seqüência de gerações unidas pela língua e tradição catalãs, que se sucederam em um território. Sua identidade é, em grande medida, lingüística e cultural. O que distinguiu os catalães como povo foi à língua (diferente do espanhol e do francês) e dotada de uma literatura já desenvolvida no século XIII. 

A língua como identidade adquiriu uma importância ainda maior na segunda metade do século XX. Em 1983, o Parlamento catalão aprovou por unanimidade a “Lei de Normalização Lingüística”. Isso concretizaria a integração da população de origem não-catalã na cultura catalã, de modo a não fomentar a criação de guetos culturais que causariam uma ruptura na sociedade. O Estado foi utilizado para reforçar / produzir a nação sem exigir sua soberania do Estado Espanhol. A Catalunha é uma comunidade humana, organizada fundamentalmente em torno da língua, também dotada de significativa continuidade territorial e uma tradição e governo autônomo e democracia política. 

A Espanha respeita a identidade catalã, o que tem se mostrado uma das melhores maneiras de relações democráticas. Por não buscar um Estado, mas sim preservar sua nação mostra que os catalães são um povo muito ligado a suas origens e tradições comerciais sem fronteiras, o que caracteriza a era da informação. 

A trajetória pelos dois extremos opostos da Europa dá noção do novo significado do nacionalismo em vista da Era da informação. É essencial a diferenciação entre nações e Estados (surgidos da Idade Moderna). Temos conhecimento de nações sem Estado, Estado sem nações, Estado pluri e uninacionais, Estados que compartilham uma nação e nações que compartilham um Estado, deixando claro que cidadania não corresponde a nacionalidade. Assim, comparar nações e Estados a Estado-nação torna-se uma contradição. 

A desagregação étnica: raça, classe e identidade na sociedade em rede 

A etnia sempre foi uma fonte fundamental de significado e reconhecimento, sendo uma das estruturas mais primárias de distinção e reconhecimento social, como também de discriminação em muitas sociedades contemporâneas. Ela foi e é a base para o surgimento de revoltas na luta por justiça social. 

Segundo Cornel West, “nessa era de globalização, com suas fantásticas inovações científicas e tecnológicas em informática, comunicações e tecnologia aplicada, o enfoque nos efeitos remanescentes do racismo parece antiquado e desatualizado... Contudo, a raça – na linguagem cifrada da reforma previdenciária, política de imigração, penas criminais, ação afirmativa e privatização suburbana – permanece como um dos principais significantes no debate político”. Um exemplo disso são as discussões em torno da Lei de Cotas para negros em universidades públicas. 

Consideradas questões fulcrais, a etnia e a raça têm sido alteradas pela atual tendência social. Castells diz que, embora a questão racial seja importante, e provavelmente a principal fonte de opressão e discriminação, a etnia vem sendo especificada como fonte de significado e identidade, que estaria integrada a princípios como religião, nação ou gênero. 

Para justificar isso, o autor faz uma breve explanação da evolução da identidade afro-americana nos Estados Unidos e conclui que a realidade dos afro-americanos tem sido transformada nas últimas décadas devido a uma profunda divisão em termos de classes sociais. Atualmente, cerca de um terço deles faz parte da classe média americana e, de outro lado, cerca de um terço vivem em condições de pobreza ou miséria. Por último, o um terço restante dos afro-americanos luta para não cair no inferno da pobreza, dependendo de empregos dos setores públicos e de serviços, e dos programas de treinamento vocacional e educacional para aprendizado de algumas habilidades que garantam a sobrevivência em uma economia desindustrializada. As conseqüências dessa situação são comprovadas em números, que revelam, por exemplo, que os negros norte-americanos respondem por mais de 50% do total de detentos. 

Para compreender essa transformação na identidade afro-americana é importante considerar que sua identidade foi constituída a partir de um povo seqüestrado e escravizado, sob controle da sociedade mais livre da época. Assim, para justificar a contradição das idéias de liberdade e a economia escravocrata, os Estados Unidos tiveram de negar a condição humana dos negros. A divisão em termos de classes sociais, citada anteriormente, tem transformado esse cenário cultural. Poderíamos imaginar que a classe média negra pudesse ser assimilada à sociedade como um todo, constituindo uma nova identidade e fazendo parte da “colcha de retalhos” étnica da sociedade norte-americana. Por outro lado, ao mesmo tempo, os elementos pertencentes à subclasse tornar-se-iam mais pobres que os negros. Mas alguns dados mostram ao contrário, revelando que os negros ascendentes se desiludem com o “sonho americano” e os da subclasse já esperam pelo seu destino (“sempre foi assim”). 

Paralelamente, os guetos têm desenvolvido uma nova cultura, composta por aflições e raiva, que expressa uma identidade que poderia ser caracterizada como uma identidade de resistência. Os temas dessa nova experiência de guetos seriam ambientes, organizações sociais baseada em gangues e uso de violência como meio de vida. Seriam, portanto, duas identidades: a dos negros de classe média e a dos pertencentes a guetos. Diante da rejeição por parte do racismo institucional, só resta aos negros como alternativa à condição de líderes de sua própria raça, porém nas trincheiras dos guetos e nas diretorias das empresas, a identidade histórica afro-americana está se fragmentando e se individualizando, sem estar, contudo, integrada a uma sociedade aberta e multiracional. 

Tudo isso mostra que a etnia não fornece as bases para os paraísos comunais da sociedade em rede por estar fundamentada nos vínculos primários que perdem o sentido quando extraídos de seu contexto histórico. As matérias-primas étnicas estão integradas nas comunas culturais que são mais fortes e possuem uma definição mais ampla que a etnia, tais como a religião e o nacionalismo. 

Identidades territoriais: a comunidade local 

Debates antigos da sociologia diziam respeito ao desaparecimento da comunidade, mas pesquisas factuais revelaram que as pessoas se socializam e interagem em seu ambiente local, seja ele a vila, a cidade, o subúrbio, formando redes sociais entre seus vizinhos. Isso seria o ressurgimento da comunidade basicamente estabelecida no âmbito local. Castells não considera impreciso afirmar que ambientes locais não induzam um padrão específico de comportamento ou, ainda, justamente por isso, uma identidade distintiva. Segundo ele, as pessoas resistem ao processo de individualização e atomização, tendendo a agrupar-se em organizações comunitárias que geram um sentimento de pertença e, em última análise, uma identidade cultural, comunal. Para isso, as pessoas precisam participar de movimentos urbanos pelos quais são revelados e defendidos interesses em comum. 

Os movimentos urbanos estariam voltados a três conjuntos de metas principais: necessidades urbanas de condições de vida e consumo coletivo, afirmação da identidade cultural local e conquista da autonomia política local e participação na qualidade de cidadãos. Esses três unidos e diferenciados em cada caso chegam a produzir algum significado para a comunidade, e esses movimentos são a principal resistência ao unilateralismo dado pelo capitalismo, estatismo e informalismo. Ma luta contra a exploração econômica, a dominação cultural e a repressão política, não restou outra alternativa ao povo senão render-se ou reagir com base na fonte mais imediata de auto-reconhecimento e organização autônoma: seu próprio território. 

Castells divide a trajetória dos movimentos sociais em quatro grandes grupos: o primeiro oferece a possibilidade da existência do Estado local como exemplo significativo de reconstrução do controle político e do significado social; o segundo apresenta uma natureza defensiva e reativa, preocupando-se com a conservação do seu próprio espaço; o terceiro é constituído por um grande número de comunidade de baixa renda que se engajou em um projeto de sobrevivência coletiva; e , por último, as gangues, que desempenham um papel estrutural em diversas áreas e acabam se tornando movimentos áridos por destruição. 

Enfim, as comunidades locais, que montam seu próprio movimento, constituem fontes específicas de identidades, que se defendem das condições impostas pela desordem global.      

Conclusão: As Comunas Culturais na era da Informação 

Para os atores sociais excluídos ou que tenham oferecido resistência, é a rede global de riqueza e poder que individualiza a identidade. A construção de significados em nossa sociedade está nas comunas culturais de cunho religioso, nacional ou territorial. Essas comunas são caracterizadas por: aparecerem como reação a tendências sociais predominantes; constituírem identidades defensivas e por serem construídas culturalmente. A etnia não resulta no estabelecimento de comunas. As comunas culturais são comunidades construídas (materialmente construídas) em torno de reações e projetos determinados por fatores históricos. 

Fundamentalismo religioso, nacionalismo cultural, comunas territoriais são reações defensivas. São formas de reação à globalização, à formação de redes e à flexibilidade e à crise da família patriarcal. Essas reações defensivas tornam-se fontes de significado e identidade ao construírem novos códigos culturais. 

A forma de construção de identidade gira essencialmente em torno da identidade de resistência. A identidade legitimadora está em crise estrutural. E a identidade de projeto relaciona-se com o surgimento, nas comunas, de novos sujeitos (agentes coletivos de transformação social). Pode ser esta a principal fonte de mudança social no contexto da sociedade em rede.

Autores: Alessandra Lemos, Fernanda Gabriela, Immanuela d’Oliveira e Michelle Pereira (2005).
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.

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