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Leituras no
Império |
Análise |
Polícia do Mundo
André Luiz Izidro
Vários
estudos desde o fim da segunda guerra mundial vêm apontando
para uma nova forma de dominação e estruturação do sistema
capitalista que, seguindo a velha lei científica de seleção
natural de Darwin, teve que se adaptar para não se extinguir.
Assim sendo, e sem abandonar a velha fórmula (se baseando
sobre os mesmos alicerces: argumento econômico, político e
humanitário.) eis que surge o Império uma nova versão do
capitalismo ainda mais arrojada, que obviamente não deixa de
lado a ganância, o poder, as contradições e exclusões.
A palavra
Império vem vigorando há pouco tempo na práxis acadêmica
nomeando a nova fase de um velho sistema: O capitalismo.
Michael Hardt e Antonio Negri organizaram em forma de livro
uma série de observações baseadas nos rumos da história e no
cruzamento de reflexões de outros autores que são postas
inteligentemente de forma complementar e elucidativa. Com
certeza, isso não os põe apenas como meros historiadores, não
se deve tirar o crédito dos autores que articulam de forma
brilhante todos os pensamentos e trabalham novos conceitos em
cima de afirmações pré-existentes ou não.
No livro "O
Império" Hardt e Negri expõem como aconteceu a configuração,
as bases históricas, como se concretizou, se articula e o que
pode ser feito contra o sistema político, econômico e social
de ordem mundial atualmente vigente. Já que, claramente
marxistas, os autores condenam um sistema que se apóia na
miséria de uns para conseqüente supremacia de outros.
Não pretendo
aqui criticar ou ovacionar a obra estudada por nós (grupo PET
ECO) durante exaustivos seis meses. Mas sim, questionar os
rumos e conseqüências da atual forma de poder. Fluido, móvel,
dominante, o Império é fato atestado não só por Hardt e Negri,
como indicado anteriormente por alguns historiadores e
comprovado por pesquisadores contemporâneos.
O Império é
descrito por Hardt e Negri como uma evolução do capitalismo
que sobrepõe as fronteiras e os interesses da soberania dos
Estados- Nação, funcionando como uma malha flexível e
envolvente que agi por si só, se expandindo, absorvendo,
incorporando o que é de seu interesse e execrando e condenando
o que não o beneficia, sem um centro efetivo de poder,
tendendo assim a uma soberania mundial. Porém, segundo os
autores, para tal é necessário à existência de um braço
articulador desse sistema dito como hegemônico. E quem ocupa
atualmente esse lugar importante e estratégico é os EUA.
Entre a
Primeira e a Segunda Guerra, uma série de organizações
internacionais foram construídas para produzir o que nos
termos contratuais tradicionais do direito internacional é
chamado de normatividade e eficácia. Com o fim da guerra fria,
os Estados Unidos foram chamados a desempenhar o papel
supracitado garantindo e dando eficácia jurídica a esse
processo complexo da formação de um novo direito
supranacional. Em todos os conflitos regionais do fim do
século XX, os EUA foram chamados a intervir militarmente em
nome da paz e da ordem, aliás, uma das principais
características do Império. A Constituição ajuda nessa posição
imperial, pois o país foi construído segundo o modelo da
rearticulação de um espaço aberto e da reinvenção incessante
de relações singulares e diversas em redes num terreno
ilimitado.
A Guerra do
Golfo passa então a ser um marco do nascimento do Império que
mostra realmente os Estados Unidos como o único poder capaz de
administrar a justiça internacional, não como função de seus
próprios motivos nacionais mas, em nome do direito global.
Pois, a legitimação da ordem imperial não se pode basear na
mera eficácia da sanção legal e do poderio militar para
impô-la. Ela precisa ser desenvolvida pela produção de normas
jurídicas internacionais que aumentem o poder do ator
hegemônico de uma forma duradoura e legal. Nasce aí a polícia
do mundo.
O
funcionamento do sistema imperial é basicamente maniqueísta
onde a dualidade está permanentemente presente, há sempre a
necessidade do mal para existir a supremacia do bem, mas isso
no cenário contemporâneo não acontece em torno de um conflito
central, mas através de uma rede flexível de microconflitos
administrados por seu representante mor. Na configuração do
Império isso estaria representado pelo conceito de onicrise
que seria vital para existência do sistema. Pois, é essencial,
para manter a hegemonia, o Império demonstrar periodicamente
seu poder, e isso é feito através de soluções e exposições
apaziguadoras e gloriosas aliás, o Império está sempre na
eterna busca de um estado de paz mundial, nem que para isso
tenha que interferir na economia, política, conflitos
regionais, culturais, sociais de outros paises para solucionar
problemas. E essas incursões contam com o apoio de
instituições que funcionam como legisladoras do certo e do
errado no contexto mundial, a justiça como já foi dito,
instituições como a ONU, FMI, G8, OCDE, OTAN, OMC, Banco
Mundial, Parlamento Europeu, Conselho de Ministro que
legitimando ações mundiais de um Estado Global.
O triste é
que hoje, cada vez mais, eles tendem para a preeminência do
direito de comércio sobre os direitos humanos, sociais,
culturais e ambientais.
Na minha
modesta opinião é esse direito de polícia endossado aos
Estados Unidos por essas instituições é que se torna o grande
problema e perigo da contemporaneidade, porque o caráter
englobador pacífico de hegemonia mundial não agrada a todos,
pelo contrário é sempre necessário discriminar e combater
alguém, para demonstrar seu poderio e continuar superior. As
reações a essa soberba são claras como o atentado terrorista
ao WTC em 11 de setembro do ano passado. Um fato marcante na
história americana que acreditou que mais uma incursão
vitoriosa sob o irrisório Afeganistão e a destruição dos
talibans fossem dar fim ao conflito, porém o inimigo não era
tão concreto como parecia. Daí então, surge o terrorismo posto
como inimigo mundial. Só que é um inimigo que, assim como o
Império não possui centro, apesar de os Estados Unidos serem,
sem dúvida, o representante mor dessa instituição de poder
mundial. Não se pode esquecer das milhares de vidas que estão
em jogo ao se destruir cidades e cidades buscando alguns
terroristas. E a atual preocupação mundial gira em torno deste
tema já que o presidente norte americano George W. Bush busca
incessantemente algum inimigo concreto para punir e vingar o
atentado ou simplesmente perpetuar a hegemonia de seu país
tornando o Iraque de Saddam Hussein a "bola da vez". E o
argumento maior americano para qualquer ataque ao oriente
médio atualmente, como propõe o presidente, é o terrorismo e o
medo da união dos paises árabes contra os Estados Unidos
produzindo uma terceira guerra mundial. Só que se esse for o
caso os EUA estarão simplesmente colhendo o fruto do ódio e
destruição que plantaram. Torna-se um perigo eminente o poder
subir a cabeça de um líder aparentemente fraco de uma das
maiores nações do mundo e este sobrepor as normas
internacionais para um ataque dessa proporção e inimagináveis
conseqüências.
Nesse caso
Hardt e Negri estariam certos em apontar para um fim do
Império dentro do próprio Império. Só que pessoalmente prefiro
os projetos sociais por eles propostos a uma destruição
sumária da humanidade que seria uma conseqüência quase
inevitável de uma terceira guerra mundial que conta com armas
letais que surtirão efeitos não apenas localmente. Apesar da
solução dos autores parecer, a meu ver, extremamente utópica
ainda sim é mais branda e coerente do que uma guerra de egos
que só traria conseqüências trágicas.
Que isso seja apenas
passageiro, e a utopia de Hadt e Negri esteja em caminho de se
tornar realidade. Pois o mundo necessita indubitavelmente de,
pelo menos, um pouco mais de PAZ.
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