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Política de Minoria e Religião
Muniz Sodré
Trata-se aqui de acentuar a dimensão política (no quadro das
práticas ditas "minoritárias") de uma prática religiosa. Em
princípio, isto poderá parecer contraditório, uma vez que
política e religião relacionam-se tradicionalmente apenas por
aspectos externos, isto é, pelo jogo de influências entre dois
campos que se querem distintos. É uma situação decorrente do
fato de que o Estado moderno se afirma como decididamente laico,
portanto como dissociado com relação à religião. O Estado é
fenômeno consentâneo à emergência histórica do sujeito da
consciência autônoma, portanto a um nível de realização humana
diverso do implicado na experiência religiosa.
Na História do homem ocidental, a experiência que se diz
"religiosa" é basicamente romana, já que os gregos não detinham
nem uma experiência particular dessa ordem, nem mesmo uma
palavra que correspondesse a "religião". Religio provém, assim,
seja de religare (o homem ao divino), seja de relegere, no
sentido de reunir ou redispor, no interior de um conjunto
axiomático, ordenações diferentes de poder.
A experiência de que trata a religião diz respeito ao que no
homem é transcendente, em outras palavras, a uma interpelação
que, vindo de um Grande Outro, ultra-humano, sobrenatural,
sagrado, perpassa todo o ser de suas identificações. Na
religião, os valores se absolutizam e tendem a se universalizar,
escudados numa certa violência simbólica (que busca inculcar as
suas ordenações de força e poder advindas da gestão do sagrado),
seja por estruturas de subordinação ou de intermediação. Aí se
inclui a própria atividade política: o monoteísmo pode ser
pensado como questão política, assim como a política medieval
era fundamentalmente teológica.
Ora, o homem da modernidade ocidental transita noutro plano, por
ser antes de tudo sujeito, quer dizer, uma imanência, exigida
pela dinâmica de produção total do capitalismo emergente.
Transformar todo real em objeto e todo homem em sujeito é o
único fundamento universal de qualquer processo modernamente
histórico. Na ordem em que reina o sujeito, caem as
transcendências, neutralizam-se os valores e suspende-se toda
forma de violência simbólica do sagrado em função de um valor
único, que é o valor de troca. A política, e mais precisamente o
liberalismo político, é o modo primordial de encaminhamento das
ordenações de força e poder. Essa neutralização da esfera
absoluta dos valores é a possibilidade de existência da política
liberal.
Mas quando se levanta a questão da possibilidade de existência
de outras formas de política, não se pode deixar de evocar as
proposições de Platão no diálogo Politeia, onde ele atribui ao
ser político um fundamento teórico ou uma idealidade: o saber
essencial da diké, da justiça. Não se trata, porém, de justiça
entendida ao modo da modernidade liberal, isto é, justiça como
experiência jurídica. A diké implica uma experiência ontológica,
ou seja, uma experiência do modo como se realiza e se integra
toda realidade dentro da Cidade Humana, a Polis.
Daí, a exigência platônica de um saber correspondente à
idealidade política, que ele traduziu na convocação dos "amantes
do saber" (filósofos) a assumirem o exercício da política. O
pensador não convocou a um "golpe de Estado" dos filósofos, e
sim o saber da justiça como essencial ao governo dos homens.
Claro, esse apelo não correspondia à prática política no
interior da Polis, como bem o demonstra o fenômeno da tirania,
mas a idealidade da Polis - onde a política é concebida como uma
ação coletiva livre e afirmativa da experiência integradora da
justiça - permaneceu como uma espécie de norte magnético para as
teorias políticas subseqüentes na História ocidental (as de
Hobbes, Locke, Kant e outros), mesmo que estas na prática
encaminhem a política para o âmbito monopolista e administrativo
do Estado.
O Estado moderno, por sua vez, constitui-se a partir da
monopolização da violência (poder militar) e da economia
(finanças, impostos, benefícios), progressivamente administrada
por um aparato de dominação diferenciado. Ao abandonar a
legitimidade teológica ou qualquer fundamento transcendental, a
política efetivamente existente só se tornou possível no âmbito
da institucionalização ensejada pelo Estado.
Historicamente, foi o liberalismo que trouxe essa possibilidade
política, inerente ao projeto moderno. Isto deu-se ao custo da
redução de toda a amplitude ontológica do agir político ao
governo, por sua vez dependente da técnica, da administração, da
delegação de poderes, do direito, do racionalismo argumentativo,
etc. Pensada radicalmente, tal redução é uma negação do agir
político em sentido amplo, e a liberdade daí decorrente é uma
liberdade negativa, a de não ser obrigado a algo.
Deste modo, a política passou a ser entendida em sentido
restrito como exercício do poder de Estado ou como luta pela sua
conquista. Às vezes, pode ser confundida com o direito, porque
as instituições liberais plasmam-se como direitos, em vez de
deveres. Hoje, quando se autonomiza como campo, opõe-se
diferencialmente a outros processos e ao mesmo tempo tende a
totalizar-se, absorvendo todo e qualquer outro modo de agir.
A universalidade da política, entretanto, só pode estar na idéia
de uma potencial ação livre e coletiva - logo, uma liberdade
afirmativa, ainda que parta da negatividade liberal - e não na
padronização totalitária das ações a partir dos modelos estatais
de exercício do poder, que terminam de fato absolutizando o
Estado como valor.
A idéia desse potencial livre-agir não se mantém por mera
idealidade teórica ou por qualquer sublimidade da existência
humana, mas exatamente pelo fato de que a política, lastreada
pelo impulsionamento ético, é sempre excessiva com relação às
instituições que historicamente a moldam. Por isto é que se diz
que a política, enquanto promessa ou antecipação, jamais
coincide com o que efetivamente existe em termos de estrutura. É
isto o que aciona as utopias, os movimentos de transformação,
vistos por Marx como móveis históricos para a constituição final
de uma comunidade política.
Nesse "excesso", faz-se presente o valor como elemento de
dinamização do agir. E o entendimento desse conceito está ligado
à complexidade do próprio pensamento. Valor é a dimensão onde se
movimenta o espírito para ir além da experiência atual ou da
"naturalidade" dos desejos (a simples satisfação de
necessidades, a pura vontade de manutenção de si mesmo). Mas é
uma dimensão, assim como a do infinito, que não podemos conhecer
instrumentalmente.
Como assinala Alquié, "nós não temos conhecimento positivo do
infinito ou do valor: valor e infinito estão, contudo, presentes
para nós, uma vez que a partir deles nós julgamos curtos demais
os instantes de nossa vida, baixos demais os instintos de nossa
natureza, pequenos demais os objetos limitados e temporais que
são por nós encontrados". (ALQUIÉ, F. Le Désir d'Éternité.
Quadrige / PUF, 1990, p. 9) Valor, aqui, não é nenhum absoluto
de que o liberalismo tenha de se desembaraçar para dar lugar à
política. É, sim, uma motivação profunda da ação do homem, esse
sujeito de um descontentamento radical que o força a sempre
transcender-se, substituindo prometeicamente a "eternidade" do
ser pela dinâmica histórica do agir ou do realizar. Nessa
dinâmica, valor e dever (dever ser, fins coletivos, etc.), sem o
absolutismo imobilista dos universais religiosos, exigem-se
reciprocamente.
Ora, uma das dificuldades do liberalismo contemporâneo, por seu
apego estrutural ao imanentismo dos direitos, consiste
justamente em aceitar a implicação de valor e dever. Com a
contínua perda de força axiológica das estruturas sociais, as
ações não têm por que se orientarem finalisticamente, o que
conduz a política à formalização do aparato
jurídico-constitucional ou ao fetichismo da técnica e do
mercado, dos quais constitui irradiação exemplar a prevalência
da mídia no processo eleitoral de hoje.
Entretanto, nada obsta a que o valor (sem a pretensão de
absolutismo) e o dever possam compatibilizar-se com a política.
Claro exemplo disso oferece a história dos cultos
afro-brasileiros que implicaram na vida nacional uma
reinterpretação da singularidade civilizatória africana,
traduzindo a realidade original (africana) em representações
adequadas à especificidade do território da diáspora. Como já
antes precisamos, interpretar e reinterpretar são operações que
requerem um sujeito de enunciação, individual ou coletivo.
´Nagô´ é um dos nomes desse sujeito constituído tanto na forma
de comunidade litúrgica quanto de comunidade étnica, portanto o
lugar histórico de uma identificação existencial que comporta a
descendência fictícia ou a linhagem putativa". (SODRÉ, M. Claros
e Escuros - identidade, povo e mídia no Brasil. Vozes, 1999, p.
167)
O que estamos querendo dizer é que a reinterpretação
afro-brasileira sempre foi, ao mesmo tempo, ético-religiosa e
política. A tradição negra inseriu-se historicamente na formação
social brasileira para orientar os rumos civilizatórios do
escravo e seus descendentes. Os símbolos, os desdobramentos
culturais de um paradigma (a Arkhé africana, manifestada num
sistema axiológico, em que se articulam valores éticos,
cerimônias, sacrifícios e hierarquia) eram e são representações
capazes de atuar como instrumentos dinâmicos no jogo social de
estratos economicamente subalternos.
De natureza política era, assim, a luta para instituir e fazer
aceitar a realidade interpretada ou traduzida, que se
visibilizava como a fé nos princípios cosmológicos, as entidades
sagradas ou orixás, assim como nos ancestrais ilustres ou eguns.
Nessa realidade, o dever para com a comunidade litúrgica (a
"obrigação") e os valores éticos (a continuidade dos princípios
fundadores) são fundamentais e, no entanto, suscetíveis de
transformação segundo a variação espácio-temporal.
Os aspectos políticos dessa movimentação histórica costumam
escapar à etnologia desavisada, geralmente centrada na descrição
das tradições e dos ritos, como se fossem "sobrevivências"
culturais, senão anacronismos místicos. Movidos pela pura lógica
culturalista, muitos são os analistas que passam ao largo do
papel político reconstruções sígnicas (na forma de cânticos,
rituais, danças, etc.), por não conseguirem enxergar o agir
político num grupo econômica e socialmente subalterno.
Por isto, reiteramos que é no mínimo uma miopia analítica, e no
máximo uma completa ingenuidade culturalista, supor que a
problemática dos cultos afro-brasileiros se resolva apenas na
dimensão simbólica - aquela com que lida normalmente a
antropologia. De fato, ao lado dos fenômenos mítico-religiosos
alinham-se pulsões de afirmação grupal, reivindicações de
reconhecimento identitário e estratégias de poder (em torno da
hegemonia das representações) que são inequivocamente políticas.
Isto posto, convém falar da religiosidade (e não de religião em
seu sentido romano) ou dos cultos afro-brasileiros como uma
"experiência" (no sentido que Walter Benjamin dá a essa palavra)
de relacionamento ativo e coletivo de afro-descendentes com a
História, tanto em sua forma manifesta (memória) como em forma
latente (mitos, imaginário, transmissão intergeracional).
Distingue-se, assim, da "vivência" religiosa, que é um
relacionamento privado com o evento da transcendência. Na
verdade, a religião como esfera da vida privada é uma astúcia
liberal para resgatá-la diante do impasse de sua contradição com
a política, modernamente destinada ao espaço público.
Desta maneira, os cultos afro-brasileiros podem ser encarados, à
luz da cultura tardo-moderna - quando Deus e o destino
permanecem associados na crença de segmentos majoritários das
populações - como lugares irradiadores de um agir coletivo,
lastreado por valores e deveres comunitários, ao lado de novos
tipos de ações grupais que incluem meios de comunicação,
sindicatos e entidades civis (ONGs, associações de natureza
diversa), em busca de uma renovação da luta política.
É verdade que, no tocante aos cultos, não se trata de nenhuma
Realpolitik, ou seja, do jogo em torno da administração
jurídico-constitucional dos dispositivos de poder, garantido
pelo absolutismo da representação escrita, mas de um agir
originário da oralidade, em que a existência do culto, como
continuidade de outro paradigma civilizatório, é em si mesma
política. Ou seja, é uma forma particular de soberania, no
interior de um território controlado pelo aparato de um Estado
nacional, que justifica e assegura a liturgia negra.
Com o catolicismo, é diferente. Vejamos um aspecto dessa
diferença. Na virada do século dezenove para o vinte, um
professor de Direito da Universidade de Leipzig, R. Sohm, deu
início a uma polêmica sobre religião, ao argumentar que o
direito canônico estava "em contradição com a essência da
Igreja". Para ele, a verdadeira Igreja era invisível, uma
"comunidade interior", ao invés de toda essa organização externa
com instituições e direito. Logo foi contraditado por
pesquisadores muito atentos aos fatos históricos e prontos a
demonstrar que a palavra sagrada (os textos bíblicos, em resumo)
não provinha diretamente da revelação de uma verdade cristã
originária, mas da História instituída da Igreja.
Em outras palavras, inexiste uma Igreja "pura", puramente
interna e, por isto verdadeira. O que há, sim, é o resultado
histórico da fé organizada, do qual provém o direito canônico. O
catolicismo subsiste por sua vasta argumentação teológica - que
não se origina em apóstolos ou em mártires, mas nos discursos
dos doutores da Igreja -- e por seus aparatos
jurídico-administrativos.
Os afro-brasileiros - não o puro e simples cidadão negro, mas
aqueles organizados nos terreiros - garantem a continuidade de
sua Arkhé por um agir inequivocamente político, embora isto não
seja imediatamente evidente. Os muçulmanos têm plena consciência
de que estão fazendo política ao cultuarem o seu Deus nas
mesquitas. Para os afro-brasileiros, isto não é ainda claro. Mas
pode tornar-se.
Autor: Muniz Sodré é professor do programa de
pós-graduação da Eco-UFRJ.
Abstract
Modern politics (historical
liberalism) excludes the religious experience, except in
external or relational aspects of institutions. However, as we
try to indicate in this text, afro-Brazilian cults guarantee the
continuity of liturgical practical traditions by means of an
unequivocal political action. Due to the growing of public space
created by communication technologies and the emergence of new
forms of action, it is necessary to redefine politics going
beyond the static and old fashioned structures of Realpolitik.
Resumen
La política moderna (el
liberalismo histórico) excluye la experiencia religiosa, escepto
en los aspectos externos o relacionales de las instituciones.
Entretanto, como procuramos indicar en este texto, los cultos
afro-brasileros garantizan la continuidad de sus tradicionales
prácticas litúrgicas por medio de un actuar inequivocamente
político. En face de la ampliación del espacio público por las
tecnologías de la comunicación y de la emergencia de nuevas
formas de acción, se impone, en la contemporaneidad, la
necesidad de redefinir la política, más alla de los cuadros
estáticos y ultrapasados de la Realpolitik.
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