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Sonho de libertação
“Partiam atordoados. Libertava-se da penúria, da opressão, da
perseguição. Aliciados e iludidos, demandavam o além-mar. Que
poderia resistir a tentação?”.
Todos tinham casos com o senhorio, com o gendarme, com a caterva
de vivaldinos.
Os que possuíam coração, os que amavam a Mãe-Terra enxugavam as
lágrimas e partiam em busca de areias cintilantes, para do
retorno atirá-las aos olhos do inimigo e cegar os tiranos.
Abandonavam searas de trigo. Tentados, aventuravam melhor sorte.
Sonhavam com minas de prata, árvores leiteiras, frutas-pão, maná
em desertos."
Assim Romão Wachowicz inicia sua história Homens da Terra
(Curitiba, 1997), sobre a sorte de uma família de emigrantes
poloneses no Brasil, constituindo, ao mesmo tempo, a história
dos destinos de dezenas de milhares de outras famílias, que,
através de décadas, a partir de 1870, co-criaram o Brasil
meridional, e, hoje em dia, por intermédio de seus descendentes,
co-decidem da sorte do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do
Sul.
Por que partiram? Parte das respostas encontra-se no citado
fragmento do livro de Wachowicz. Eram impingidos pela injustiça
social, pela falta de terra, pela pobreza. Eram atraídos pelas
perspectivas de uma vida melhor, pela lenda de terras sem fim,
pela liberdade. A utopia da América.
Primeiros
contatos: Os primeiros
poloneses, militares e missionários, chegaram ao Brasil no
século XVII. Até 1871, início de emigração em massa dos
camponeses, o número dos que vieram da Polônia não superava 150
pessoas, porém entre elas não faltavam os que se notabilizaram
na história do Brasil e que deram uma contribuição significativa
para o seu desenvolvimento.
‘’ De acordo com o estabelecido até o momento, o primeiro grupo
organizado de imigrantes poloneses chegou ao Brasil em 1869, por
persuasão de Edmundo Woś-Saporski, chamado o "Pai da imigração
polonesa no Brasil", originário da aldeia de Siołkowice, situada
nos arredores de Opole. Essa área foi testemunha da variada
sorte dos poloneses, sendo que no período em questão
encontrava-se sob a dominação alemã. Eis porque, inicialmente,
foram dirigidos para a região de colonização alemã, perto de
Blumenau (Santa Catarina), e, somente após dois anos de esforços
contínuos, conseguiram transladar-se para o Paraná, onde, nas
imediações de Curitiba, fundaram a colônia de Pilarzinho. Os
primeiros grupos de imigrantes vinham da Silésia, das regiões
sob domínio alemão, embora houvesse também imigrantes da
Pomerânia Oriental, da presente Polônia setentrional. ‘’
O primeiro nome polonês que aparece na história do Brasil é o de
Krzysztof Arciszewski (1592-1652), que entre 1629 e 1639 veio
três vezes ao Brasil como um dos comandantes das tropas
holandesas na guerra contra os portugueses e espanhóis pelo
domínio da costa nordeste, atual estado de Pernambuco. Ligado à
corte do príncipe Krzysztof Radziwi, Arciszewski recebeu uma boa
educação humanística e militar, estudou a artilharia, a
fortificação e a navegação marítima. Banido da Polônia por ter
assassinado um homem, refugia-se na Holanda onde é contratado
pela Companhia das Índias Ocidentais. Chega a ser nomeado o
general da artilharia e o almirante no mar. A sua tomada de
Arraial de Bom Jesus, Castelo Real e Barra Grande, assim como a
vitória em Porto Calvo, foram considerados grandes feitos
militares. Quando em março de 1639 a esquadra de Arciszewski
chegou ao Recife, foi recebida com um tiro que destruiu a
bandeira do Almirante. O conflito com o governador da colônia
holandesa, Maurício Nassau, resultou em deportação de
Arciszewski para a Holanda. Reabilitado, Arciszewski volta a
Polônia onde participa das guerras na Ucrânia como o general da
artilharia.
Além das suas façanhas militares Arciszewski era o primeiro
polonês e um dos primeiros europeus que se interessavam pela
vida dos índios do Brasil, e cujos trabalhos etnográficos e
cartográficos contribuíram significativamente para o
conhecimento da América na Europa. Os resultados das suas
pesquisas e observações Arciszewski mandava para um estudioso
holandês Gerard Voss, que os aproveitava nas suas aulas na
Universidade de Leiden e no seu trabalho De theologia gentili et
physiologia christiana sive de origine et progressu idolatriae,
publicado em Amsterdã em 1642. As suas observações sobre a vida
dos índios, principalmente os Tapuias, são também citadas pelo
historiador holandês Johannes de Laet no seu livro História ou
Anáis dos Feitos da Companhia das Índias Ocidentais desde o seu
começo até o fim do ano de 1636, editado em 1636 em Leiden
(edição brasileira em 1925). Antes de deixar o Brasil,
Arciszewski escreveu dois poemas elegíacos em polonês.
No século XVII começaram também chegar ao Brasil os missionários
poloneses. O primeiro era o jesuita pe. Wojciech Męciński
(1601-1643), missionário no Japão onde morreu como mártir da fé.
O navio em que em 1631 ele ia de Lisboa a Goa foi desviado pelos
fortes ventos e, durante a sua permanência em terra, ele fez uma
descrição e um mapa de Pernambuco, que infelizmente foi perdido.
O primeiro polonês que veio ao Brasil em conseqüência da perda
da independência da Polônia no final do século XVIII, foi um
famoso viajante e autor de memórias, Maurycy August Beniowski
(1746-1786), cujo navio em que ia de Baltimore a Madagascar
ficou três meses parado na costa brasileira.
O insucesso de uma tentativa de recuperação da independência da
Polônia, a da insurreição de 1830-1831, fez com que o Brasil se
tornasse a terra do exílio de cerca de 45 poloneses, militares e
outros profissionais, entre eles o médico Piotr Napoleon Luiz
Czerniewicz, no Brasil conhecido com o nome como Pedro Luís
Napoleão Chernoviz (1812-1882), um dos fundadores da Academia de
Medicina no Rio de Janeiro, autor do livro Formulário e guia
médico (1841), um best seller na área de medicina, reeditado
várias vezes até 1924. Outro exilado daquela época, Andrzej
Przewodowski (1799-1879), oficial da cavalaria na insurreição
polonesa, mas também engenheiro e geólogo, foi contratado pelo
governo brasileiro em 1839, quando trabalhava na construção do
primeiro túnel sob o Tâmisa. Autor de grandes obras de
engenharia do tempo do Império (a ponte de D. Pedro II sobre o
rio Paraguaço, o canal de Ilhéus, entre outros), Przewodowski
era também o precursor da descoberta do petróleo na região do
Recôncavo da Bahia. O seu filho, Stanisław Przewodowski
(1843-1903) era oficial da marinha brasileira, destacando-se na
guerra do Paraguai, depois da qual foi nomeado comandante da
frota no rio Uruguai.
Em 1850 chega ao Brasil o major e o engenheiro Florestan
Rozwadowski (1822-1879), que lutava na revolução húngara de
1848-49. Contratado pelo exército brasileiro, fez os primeiros
planos topográficos e mapas da Amazônia. Escreveu o diário da
expedição no rio Solimões de 1854: Roteiro e relatório da viagem
do primeiro vapor que subiu o Solimões até Nauta. Em 1857
publicou no Rio uma brochura O governo e a colonização ou
considerações sobre o Brasil e o engajamento do estrangeiro,
defendendo a política brasileira de imigração e propondo ao
imperador D. Pedro I a sua intensificação. Quando em 1863 soube
da eclosão da nova insurreição na Polônia, deixa o Brasil para
lutar pela liberdade da sua pátria. Morre no campo de batalha na
Polônia.
Em 1878 chega ao Brasil Aleksander Brodowski (1855-1899),
engenheiro formado em Poznan e Zurique, que desempenha um papel
importante na construção das ferrovias no Brasil. Uma das novas
cidades construídas à margem da ferrovia recebe o nome Brodowski
em sua homenagem. É nesta cidade que nasce um dos maiores
artistas brasileiros, o pintor Cândido Torquato Portinari
(1903-1962). Brodowski era também diretor de Ferrovia Nacional
em São Paulo e lecionava na escola politécnica desta cidade. O
seu irmão, engenheiro Karol Brodowski (1869-1937), que vem ao
Brasil em 1892, também se destaca como o construtor dos caminhos
de ferro neste pais.
A
IMIGRAÇÃO POLONESA NO SUL DO BRASIL A ocupação da
Polônia pelos países vizinhos, a Rússia, a Prússia e a Áustria
desde o final do século XVIII até 1918, a miséria e a
superpopulação das aldeias, provocaram um verdadeiro êxodo, em
que, durante os cinqüenta anos antes da Primeira Guerra Mundial,
cerca de 3,6 milhões de pessoas deixaram a Polônia, das quais
aproximadamente 100 mil chegaram ao Brasil. Tanto a insegurança
individual e coletiva, confrontos com os ocupantes e repressões,
quanto a insustentável situação econômica levaram milhares dos
poloneses, sobretudo os mais pobres, a procurarem os meios de
sobrevivência em terras longínquas. Não faltavam também os que
deixavam se levar pelo espírito de aventura, a vontade de
conhecer o mundo ou sonhos de ganhar a fama e a riqueza.
O aparecimento dos cereais oriundos dos Estados Unidos e do
Canadá na Europa no início dos anos noventa do século passado
intensifica uma crise agrária nas terras polonesas. Também a
crise da indústria textil de Łódź e no centro industrial de
Varsóvia no final dos anos oitenta deixa muitos desempregados. A
viagem gratuita, a perspectiva de ganhar terra, promessas
mirabolantes dos agentes de viagem e as cartas convidativas dos
primeiros que ousaram cruzar o oceano, fomentavam a “febre
brasileira” que despovoava as aldeias. Não atraíam aqueles
“sem-terras” os centros urbanos e industriais que naquela época
começavam a surgir no país. O sonho de cultivar a sua própria
terra era mais forte e levava “além da dor”, custa que custar. O
preço era alto, muitos pagaram este sonho com a vida, mas muitos
também venceram o desafio, conquistando a sua propriedade, a
vida digna e o trabalho em liberdade.
Nas cartas dos imigrantes poloneses do Brasil, escritas nos anos
1890-91, confiscadas pelas autoridades tzaristas contrárias à
emigração, mas cuja parte foi recuperada e salva do fogo da
Segunda Guerra pelo Witold Kula, encontramos os testemunhos bem
expressivos como o Brasil era atraente aos camponeses que
deixaram as condições extremamente difíceis no seu país dominado
e estagnado (Listy). Naquele momento o Brasil encontrava-se em
fase de desenvolvimento econômico e a situação dos seus estados
do Sul não lembrava a situação da fase pós-servidão reinante nas
terras polonesas. Eis alguns trechos das cartas (Cartas): “Estou
muito melhor do que na Polônia, somente pelo fato de não estar
submisso a nenhum senhor” (carta 5); “Querido irmão comunico-te
que no Brasil é bom e ficaria satisfeito se você viesse para
junto de nós no Brasil, porque aqui nós não temos miséria. Venda
sua propriedade e traga consigo o dinheiro porque no Brasil é
bom” (carta 44). Não faltam também as cartas que falam sobre os
problemas e dificuldades, mas prevalece a fé de que o trabalho
dará o seu fruto: “Só é necessário saúde para trabalhar e em
breve teremos um pedaço de pão” (carta 76).
A primeira leva dos imigrantes, 32 famílias de camponeses
procedentes da Silésia chegou ao Brasil, no estado de Santa
Catarina, em 1869, por iniciativa de Sebastian Edmund Woś
Saporski (1844-1933) - “Pai da emigração polonesa no Brasil”. O
grupo foi transferido em 1871 para o estado do Paraná,
estabelecendo a primeira colônia polonesa no Brasil, em
Pilarzinho, perto de Curitiba. Nos anos seguintes surgem novas
colônias polonesas, formando em torno de Curitiba um “cinturão
verde”, que abastecia a cidade com produtos agrícolas. Surgem
também colônias polonesas em Estado de Santa Catarina e Rio
Grande do Sul. A partir da abolição da escravatura (1888) e a
proclamação da República (1889) aumenta o fluxo imigratório para
o Brasil de vários países europeus. A “febre brasileira” traz
milhares de camponeses, mas as autoridades brasileiras já não
lhes asseguram condições tão boas quanto aos imigrantes das
primeiras levas. Enviados para os lugares distantes, muitas
vezes no interior da selva, ganham com muito suor as terras para
cultivar, enfrentando também os índios que defendiam a sua
terra.
Assim descreve a conquista e a adoção do Brasil pelos camponeses
poloneses, um dos seus descendentes, professor e escritor Roman
Wachowicz:
O homem amou a terra renitente com teimosia. O homem e a gleba
formaram uma unidade inquebrantável, eram unos. Nos escombros e
nas cinzas, nas tumbas e nos monumentos, nas roças e no sertão,
nos lares e nas escolas, nas cidades e nas fábricas nasceu a
fraternidade. Ela fulgurou qual sol meridiano. Dessa borrasca,
desse reboar do golpe do machado, desse parto de gigantesca dor,
nasceu para eles o sentimento de uma nova pátria, o Brasil. (Wachowicz,
Roman, 11-12)
No período de 1871 a 1914 surgiram 91 povoações polonesas, entre
eles Sta. Cândida, Tomás Coelho, S. Inácio, S. Mateus, Cruz
Machado – no Paraná; Rio Vermelho, Grã Pará, Nova Galícia – em
Santa Catarina; Sta. Bárbara, Bento Gonçalves, D. Feliciano,
Guarani das Missões, Erechim – no Rio Grande do Sul; Águia
Branca, Sta. Leopoldina – em Espírito Santo.
Com a reconquista da independência da Polônia em 1918, o fluxo
migratório não parou, mas ganhou um novo caráter, o de uma
emigração organizada e dirigida pelas instituições do Estado
polonês. Entre 1918 e 1939 chegaram ao Brasil cerca de 40 mil
imigrantes da Polônia, entre eles cidadãos poloneses de origem
judaica e ucraniana. Segundo as estatísticas do início dos anos
vinte, os poloneses e seus descendentes representavam 1% da
população do Brasil. Hoje a estimativa é de 1,5 milhão o que
também corresponde a cerca de 1% de toda população brasileira. (Kawka,
Mariano, 1996, 37)
Durante a Segunda Guerra Mundial, até o ano 1942, o Brasil
acolheu cerca de dois mil de refugiados de guerra poloneses,
muitos dos quais receberam ajuda do Comitê de Socorro às vítimas
da guerra na Polônia do Rio de Janeiro, com os filiais em outras
cidades, presidido pelo vice-presidente da República, Fernando
Mello Vianna. Foram 580 poloneses do Brasil que integraram as
Forças Armadas Polonesas na Europa Ocidental. Também no Corpus
Expedicionário Brasileiro que lutava na Itália não faltaram
brasileiros de origem polonesa.
A imigração polonesa para o Brasil era predominantemente
camponesa (mais de 90%) e, em grande parte por isso resistente
aos processos de assimilação. Os camponeses vieram aqui porque o
Brasil oferecia-lhes a chance de continuarem o seu próprio modo
de vida e preferiam derrubar a selva para conseguir a terra para
cultivar, do que aceitar as ofertas de trabalho nas plantações.
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O contato com a nova realidade, em que o imigrante podia
transformar-se em proprietário das terras até do tamanho das
fazendas da nobreza na Polônia, era um grande desafio que fazia
o camponês dedicar-se ao trabalho e não interessar muito pelo
que havia além do horizonte da colônia. A opção pela preservação
da própria identidade, camponesa e nacional, não propiciava
integração na sociedade brasileira. Entre os imigrantes vindos
da Polônia havia também médicos, advogados, professores,
fotógrafos, barbeiros, mas esses estabeleciam-se em cidades. São
poucos os filhos dos imigrantes, que saíam da colônia para
estudar.Mesmo assim o processo de inserção de imigrante na
sociedade prosseguia. O camponês polonês introduzia e difundia
as novas plantas e cereais como centeio, trigo saraceno, batata
inglesa, assim como também as novas técnicas e instrumentos de
trabalho como o arado, a grade, a gadanha, o mangal, o picador
de palha, a alfange. Os poloneses foram também os principais
responsáveis pela difusão de um meio de transporte que é a
carroça; a “carroça polonesa” tornou-se a marca inconfundível do
Paraná. Mas, ao mesmo tempo, os imigrantes poloneses adotavam o
modo de cultivo e os produtos típicos da população local, como o
milho e a erva mate.
Os poloneses raramente se ocupavam do comércio de uma forma
profissional, mas a necessidade de troca dos produtos agrícolas
por outros bens, os levava aos contatos com a sociedade, exigia
a aprendizagem da língua, dos costumes e de sistema das medidas
local.
Apesar de sujeita às transformações e processos de assimilação,
a família era uma comunidade de base dos imigrantes poloneses,
que geralmente chegavam em famílias. O sucesso econômico
dependia do trabalho de todos e as famílias numerosas eram mais
privilegiadas. A família assumia também o papel – que na Polônia
era dividido entre várias instituições – o de educar os filhos
em espírito patriótico e cristão e de transmitir-lhes a língua,
história e cultura polonesas.
Os imigrantes foram surpreendidos com as casas da população
local, os barracos, que por razões climáticas e culturais eram
bem mais simples do que aquelas que deixaram na sua pátria.
Mesmo assim, alguns, obrigados pelas circunstâncias, construíam
as suas casas do modo semelhante. Mas a grande maioria
reproduzia as casas típicas da Polônia, utilizando a madeira do
pinheiro araucária. A casa de troncos encaixados, sem utilização
de prego, pode ser hoje vista em vários museus a ar aberto do
Paraná. Com passar do tempo a arquitetura tradicional polonesa
ganha os elementos da arquitetura local.
Os imigrantes poloneses distinguiam-se, sobretudo na fase
inicial, pelos seus trajes típicos, usados sobretudo nos
domingos e feriados, mas adotavam também os elementos de traje
local como as capas que protegiam da chuva e do frio e os
chapéus, grandes e redondos. Às vezes os elementos de traje
típico da região são incorporados no traje dos grupos
folclóricos poloneses. Por exemplo, um grupo folclórico polonês
de Guarani das Missões (RS) dança a polonesa em traje gaúcho e
isto é um fato muito interessante pois as culturas dos 2 países
passam a se unir em prol da Cultura Polono-brasileira.
Os pratos típicos poloneses podem ser encontrados até hoje no
Sul do Brasil. A cozinha e os produtos alimentícios tradicionais
eram para os imigrantes um sinal de identidade e o motivo de
orgulho. Os imigrantes poloneses não resistiram também aos
sabores da cozinha brasileira e o feijão preto, mandioca, milho
e churrasco enriqueceram o seu cardápio. Acostumaram-se também
logo tomar o café e o chá mate de que, alias, tornaram-se
grandes produtores.
No Brasil, os agricultores poloneses ficaram bem mais dispersos
do que na sua terra de origem, mas logo depois de construir as
suas casas e prepararem a terra para o cultivo, começaram a
construir a igreja, a escola e criar a “Escola-Sociedade”,
considerada a primeira manifestação coletiva de aculturação do
imigrante polonês no Brasil. Composta pelos chefes de famílias,
a Sociedade-Escola era uma entidade mantenedora das escolas.
Havia cerca de duzentas sociedades e organizações polonesas no
Brasil, que organizavam a vida comunitária, as festas e
comemorações, integrando os imigrantes e arrecadando fundos para
as despesas da comunidade, como os pagamentos dos professores. O
objetivo principal dessas organizações era a preservação da
identidade nacional e cultural polonesa, mas não faltam também
exemplos de cooperação com as organizações de outras etnias e da
sociedade brasileira.
Marcin Kula chama a atenção à tendência de identificação
multicultural no meio dos poloneses do Brasil nos anos vinte,
representada pela revista Nasza Szkoła (Nossa Escola) de
Curitiba. A revista defendia um tal modelo de ensino nas escolas
polonesas do Brasil, que favorecesse a maior inserção dos jovens
na sociedade brasileira, lembrando que “o nosso povo vem da
Polônia, mas vive no Brasil; fala polonês, mas precisa da língua
portuguesa". Em conseqüência, apontava-se a necessidade de
ensino de português, da inclusão no programa das diversas
informações sobre o Brasil e até de inculcar aos jovens certas
características dos brasileiros (Kula, Marcin, 1988, 27).
Infelizmente, não foram essas as tendências predominantes, e,
até a política do governo polonês dos anos trinta era contrária
a assimilação e incentivava um certo separatismo dos imigrantes
em relação a sociedade brasileira. A forma radical com que o
governo de Getúlio Vargas reagiu no final dos anos trinta a
essas tendências anti-assimilatórias, comuns também entre os
imigrantes de outras nacionalidades, destruiu em grande parte o
patrimônio cultural dos imigrantes, diminuindo o potencial
multicultural do Brasil.
Ao analisar processo de assimilação dos camponeses poloneses na
sociedade brasileira, é preciso lembrar, que no início os seus
contatos com a população local – índios, negros, mulatos,
caboclos – eram escassos e os centros da cultura brasileira eram
distantes. Os imigrantes poloneses relacionavam-se nessa fase
inicial mais com os outros imigrantes, geralmente de origem
européia, contribuindo substancialmente para criação de um
perfil cultural próprio do Sul do Brasil. As diferenças
culturais não propiciavam a integração com a população local.
“No Brasil, os imigrantes poloneses – afirma Rui Wachowicz –
encontraram também, predominando na sociedade, as formas
arcaicas de vida. (...) As populações agrícolas locais,
constituídas de escravos, libertos e caboclos, eram bem
diferentes das populações agrícolas européias (...). Os
poloneses, apesar de seu atraso com relação aos moldes da Europa
ocidental, sentiram sua superioridade técnica, e isto os
satisfez em seu orgulho. Onde quer que as populações agrícolas
nativas brasileiras entrassem em concorrência, os poloneses se
impuseram na agricultura” (Wachowicz, Rui, 1981, 12).
Um certo isolamento das colônias polonesas fez com que elas não
se inseriam suficientemente no processo de construção do “Brasil
novo”, moderno, industrial e urbano que começou no fim do século
XIX. Porém, os camponeses poloneses no Brasil não deixaram de
dar a sua contribuição neste processo, tanto como fornecedores
de produtos agrícolas, quanto como componentes do panorama
multicultural do Brasil.
Mas também não faltam exemplos dos poloneses que contribuíram
para o desenvolvimento industrial do Brasil do século XX. Um
deles é Alfred Jurzykowski (1899-1966), que viveu no Brasil
entre 1950 e 1960, um dos pioneiros da indústria automobilística
no Brasil, construtor e um dos donos da fábrica Mercedes Bens do
Brasil em São Bernardo de Campo. A atuação de Jurzykowski
contribuiu para que o Brasil se tornasse um país exportador de
automóveis. Outro exemplo é a empresa WARPOL Indústria de
Alimentos Ltda. do Guarani das Missões (RS), fundada em 1935
pelo imigrante polonês Antoni Warpechowski (n. 1900), pioneira
na extração e produção de olho de soja no região. Entre os
filhos de emigrantes poloneses do início do século que
contribuíram para o desenvolvimento do Brasil destaca-se Roberto
Wypych (n. 1928), incentivador do cooperativismo, fundador e
diretor de várias cooperativas agropecuárias, que em 1985 chega
a ser eleito o senador da República.
Nos últimos anos observa-se uma intensificação da vida cultural
dos descendentes dos imigrantes poloneses no Brasil, assim como
da cooperação entre as suas instituições e as instituições da
Polônia. Em 1990 foram fundadas duas novas organizações, POLBRAS
presidida por Anisio Oleksy e BRASPOL, presidida por Rizio
Wachowicz. A BRASPOL congrega atualmente mais de trezentas
entidades polono-brasileiras espalhadas pelo Brasil,
aproximando-as e contribuindo para a intensificação das suas
atividades. Organizações essas participam também do movimento de
integração em escala do continente, liderado pela Union de
Sociedades y Organizaciones Polacas en America Latina, presidida
por Jan Kobylański do Uruguai. Não faltam também organizações
culturais dos descendentes dos poloneses no Brasil, que
desenvolvem uma intensa atividade cultural sem se filiar às
organizações supracitadas, como por exemplo o Grupo Folclórico
Polonês de Erechim (RS), JUPEM.
Entre as instituições polonesas, que marcaram a sua presença no
meio dessas organizações, assim como no meio acadêmico
brasileiro, destaca-se o Centro de Estudos Latino-Americanos da
Universidade de Varsóvia (CESLA), dirigido pelo prof. Andrzej
Dembicz. Frutos dessa cooperação foram simpósios e publicações
como Obecność Polska w Brazylii (A presença polonesa no Brasil)
(1988), Relacje Polska-Brazylia: historia i wspólczesność
(Relações Polônia-Brasil: história e contemporaneidade (1996). É
significativa também a concessão de bolsas pelo governo da
Polônia para os estudantes brasileiros de origem polonesa, o que
lhes possibilita estudar no país dos seus antepassados.
Não faltam exemplos de cooperação dos poloneses com outros
grupos étnicos do Brasil. Um deles é a sua participação da
Associação Inter-Étnica do Paraná, fundada em 1974, por
iniciativa de grupos folclóricos de Curitiba. Em numerosos
grupos folclóricos poloneses espalhados pelos estados do Sul do
Brasil participam os jovens brasileiros não só de origem
polonesa.
Presença
Polonesa nas Artes e na Literatura Brasileiras Eram tantos os
encontros que, nos campos da literatura, da ciência e das artes,
aproximavam, e continuam aproximando, a Polônia e o Brasil, que
aqui citaremos apenas alguns dos mais significativos.
Aparentemente o Brasil recebia mais, como o país que acolhia os
imigrantes. Mas a Polônia também recebia, porque dessa forma
inseria-se na sua história o Brasil. Eis alguns exemplos.
Paulo Leminski (1944-1989), mestiço de polonês com negra,
“Rimbaud curitibano com físico de judoca”, segundo Haroldo de
Campos, é um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos.
Ligado ao movimento concretista é autor de poemas experimentais,
mas também escreve haikais e letras para cantores da música
popular brasileira. Em 1976 publica um romance experimental
Catatau, considerado obra-prima da literatura brasileira
contemporânea. Partindo de uma hipótese de que René Descartes
teria vindo ao Brasil junto com Maurício de Nassau, Leminski
constrói uma narrativa que é um fluxo de consciência, bastante
psicodélica, do grande filósofo europeu enfrentando a realidade
tropical do Novo Mundo. No final aparece Krzysztof Arciszewski,
a quem Descartes espera para lhe esclarecer as dúvidas que o
atormentam. Leminski era também tradutor de Whitman, Alfred
Jarry, Petrônio, Mishima e Beckett. O estereótipo negativo do
“polaco” brasileiro (“o negro do Paraná”), não o escandalizava,
antes brincava com ele, assumindo a herança e o marco do filho
do imigrante.
meu coração de polaco voltou
coração que meu avô
trouxe de longe pra mim
um coração esmagado
um coração pisoteado
um coração de poeta.
(Polonaises)
O pai do moderno teatro brasileiro é considerado Zbigniew
Ziembiński (1908-1978), nascido em Wieliczka, formado pela
Universidade Jagelloniana e Academia de Arte Dramática de
Cracóvia, ator em vários teatros poloneses. Chega ao Brasil em
1941 e dois anos depois dirige a peça Vestido de noiva de Nelson
Rodrigues no Teatro Municipal do Rio, o que inicia a “revolução
teatral” no Brasil. Ator, diretor teatral e da TV, Ziembinski
formou toda a geração dos atores e diretores brasileiros.
Modernizando o teatro, promovendo as obras dos autores
brasileiros e lutando pelo acesso a arte teatral de um público
de todas as classes sociais, Ziembinski deixou uma marca
inconfundível na cultura contemporânea do Brasil. Na opinião de
Fernanda Montenegro “ele revigorou toda a cena brasileira,
principalmente do ponto de vista estético” e, segundo Yan
Michalski, “entrou para a história do teatro brasileiro por ter
sido o homem que nos ensinou a fazer personagens; ensinou
também, pela primeira vez, o que é unidade de espetáculo”.
Entre os escritores brasileiros de origem polonesa tornaram-se
conhecidos também Alfredo Syrkis (n. 1950), autor de Os
carbonários (prêmio Jabuti em 1981) e Corredor polonês (1983),
entre outros, assim como Samuel Rawet, (1929-1984), nome de
destaque da prosa contemporânea brasileira (Contos do imigrante,
1956; Diálogo, contos, 1963; Os sete sonhos, contos, 1968, entre
outros).
Não faltam também nomes poloneses que são destaques na história
das artes plásticas no Brasil.
Bruno Lechowski (1887-1941) nasceu em Varsóvia. estudou nas
Academias de Belas Artes em Kiev e São Petersburgo. Em 1909
realiza a sua primeira exposição, seguida por muitas outras na
Polônia e outros países da Europa. Durante a guerra
russo-polonesa de 1920 alista-se como voluntário para socorrer
os soldados feridos. Como professor da Academia das Belas Artes
de Varsóvia cria também os núcleos de ensino para “jovens
talentos” de famílias pobres. O projeto de criação da Casa
Internacional do Artista o leva a uma viajem pelo mundo. Em 1925
chega ao Brasil e logo integra-se na vida artística do pais,
morando em Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. As suas idéias
e o estilo são vistos como revolucionários e entre os seus
discípulos encontram-se os grandes pintores brasileiros como
Pancetti, Takaoka e Tamaki. “Lechowski foi, sinceramente –
escreveu Oswaldo Teixeira – um grande amigo do Brasil. Ele, que
aqui havia chegado simbolista, pintando numa metafísica bizarra
de idéias muito avançadas, terminou o mais suave dos bucólicos,
o mais calmo e idílico paisagista, pastoreando cores e formas
líricas, numa santa comunhão com a natureza” (Catálogo, 1942).
Conhecido no Brasil com nome Zaco Paraná, Jan Żak (1884-1961)
nasceu na Polônia, chegando ao Brasil com os seus pais aos 12
anos de idade. Como criança fazia pequenas esculturas em
madeira. O seu talento chamou a atenção de um viajante belga,
que ofereceu ajuda para que o filho dos colonos do interior do
Paraná pudesse estudar em Curitiba. Segue os estudos nas
Academias das Belas Artes no Rio e em Bruxelas, onde conhece
Amadeo Modigliani, Marc Chagall, Brancusi e Picasso.
Simpatizando com os movimentos de vanguarda, Jan Żak mantém-se
ligado ao estilo acadêmico e realista. Em 1922 volta ao Brasil.
A comunidade polonesa de Curitiba encomenda a ele um monumento
para comemorar o centenário da independência do Brasil. A obra
“O Semeador”, uma escultura em pedra que simboliza o esforço do
camponês polonês e a sua gratidão a nova pátria, foi um sucesso
artístico seguido por uma série de encomendas dos monumentos e
estátuas. As obras de João Zaco Paraná podem ser hoje
encontradas em museus, nas ruas e nas praças do Rio de Janeiro e
de várias outras cidades do Brasil e do mundo. Uma das suas
esculturas mais conhecidas é “A Maternidade”.
Também alguns dos maiores artistas brasileiros contemporâneos
nasceram na Polônia. Fayga Ostrower (Lódź, 1920), no Brasil
desde 1934, é um nome de referência da arte abstrata brasileira.
Suas xilogravuras, litografias, gravuras em metal, aquarelas,
encontram-se em principais museus brasileiros e internacionais e
chamam atenção pela harmonia entre a estrutura abstrata e o
lirismo.
Na arte do cinema publicitário, o Brasil associa muitos dos seus
sucessos com o nome de Andrés Bukowinski (Varsóvia, 1940). Aos
seis anos de idade deixa a Polônia com os seus pais, rumo a
Inglaterra, onde mora até 1949, ano em que emigra para a
Argentina. Aos 21 anos começa sua carreira como diretor de
filmes de propaganda. Foi o primeiro ganhador de três Leões de
Ouro consecutivos em Cannes. Em 1973 muda-se para o Brasil, onde
vive e trabalha até hoje, sendo sócio-diretor da ABAFILMES em
São Paulo. Ganhador de 25 Leões em Cannes e Prêmio Clio, 7 vezes
considerado Profissional do Ano da Rede Globo, Andrés Bukowinski,
é hoje um dos diretores de publicidade mais premiados do mundo.
O seu filme “Hitler” foi escolhido como um dos 40 melhores
comerciais do mundo do século XX.
Entre os artistas fotógrafos de origem polonesa destaca-se João
Urban (Curitiba, 1943), cujas obras registram com um olhar
investigativo e solidário os trabalhadores diaristas na
agricultura (Bóias-Frias), o movimento e os caminhos das tropas
(Tropeiros), as tradições populares (Aparecidas), as paisagens
urbanas, assim como a vida cotidiana e a cultura dos imigrantes
poloneses e seus descendentes no Brasil.
LíNGUA E
LITERATURA POLONESA NO BRASIL Havia poloneses
que ao vir ao Brasil inseriam-se na vida brasileira adotando sua
língua e costumes, identificando-se com a terra e o povo que os
recebiam. Zbigniew Ziembinski é um exemplo desses, o que
testemunha Nelson Rodrigues dizendo:
Ziembinski foi não só um grande homem mas, também e sobretudo,
um grande brasileiro. Só um alienado pode tê-lo como um polonês.
Eu diria que ele não só foi um grande brasileiro como um grande
carioca. Conhecia profundamente nossa língua, a língua das
esquinas, dos botecos. Tinha uma ternura imensa pela nossa gíria
e entendia profundamente o povo brasileiro (Michalski, Yan,
1995).
Tornar-se brasileiro não significava no entanto renunciar a
pátria de origem, e o próprio Ziembinski mantinha contatos com a
Polônia, inclusive dirigindo duas peças dos autores brasileiros
em Varsóvia, em 1964.
Mas o Brasil é também a terra onde entre diversas línguas e
culturas está presente a língua e a cultura polonesa,
manifestando-se em muitos grupos folclóricos, escolas polonesas
(até 1938), associações, jornais e inúmeros livros escritos aqui
em polonês. Entre a opção de Ziembinski e a de um escritor que
no Brasil escreve em polonês, há uma diferença, mas as obras dos
dois fazem parte do patrimônio das duas nações.
A mais conhecida obra da literatura polonesa escrita no Brasil é
Flores polonesas (Kwiaty Polskie) de Julian Tuwim (1894-1953),
que durante a Segunda Guerra viveu dois anos no Rio de Janeiro.
(...)
Rio — um pedaço de Atlântida
salvo na Terra como por milagre
e do céu a pender
por meio de palmeiras e cipós,
e morros denteados e rochas íngremes!
Rio — de beija-flores a vibrarem
junto a janela, na seia de Natal!
(...)
(Kwiaty Polskie)
O Brasil está presente nas obras de Maria Konopnicka, Adolf
Dygasiński, Michał Choromański, Jarosław Iwaszkiewicz, Jan
Lechoń, Antoni Słonimski, Michał Rusinek, Jan Krawczyk, Bohdan
Teofil Lepecki e muitos outros escritores poloneses, apesar de
nem todos viverem ou passarem por aqui.
Entre 1892 e 1966 saíam no Brasil cerca de cem jornais e
revistas polonesas. Um deles, “Lud” ("O Povo"), fundado em 1920,
registra a história da comunidade polonesa no Brasil até ao fim
do século. Além das notícias publicavam reportagens e textos
literários que testemunhavam a vida do imigrante, seu
relacionamento com a Polônia e com a nova pátria brasileira.
Alguns dos escritores polaco-brasileiros conseguiram publicar
seus romances e livros de poesia, alguns dos quais saíram também
na Polônia. São poucos que foram traduzidos para o português.
Roman Wachowicz (1907-1991) é um dos mais expressivos escritores
polaco-brasileiros nascidos no Brasil. Era professor das escolas
polonesas e um grande incentivador da vida cultural. Escreveu
dezenas de peças para teatros poloneses, livros históricos e
romances sobre a vida do imigrante. Polskie korzenie é uma das
sua melhores obras, cuja tradução para o português foi
recentemente publicada sob o título Homens da terra.
Entre as várias iniciativas de aproximação entre a Polônia e o
Brasil encontramos alguns períodicos editados em português, como
Brazil — Polônia. Revista mensal editado por Leoncio Correa no
Rio de Janeiro nos anos vinte, Brasil — Polônia, orgão da
Sociedade Kosciuszko editado no Rio de Janeiro nos anos trinta,
Anais da Comunidade Polaco-Brasileira, editada em Curitiba (vol.
1-8, 1970-1977) em comemoração dos cem anos da imigração
polonesa ao Paraná; Aproximações. Europa de Leste em Língua
Portuguesa, (Brasília, vol. 1-4, 1988-1991) e Projeções: Revista
de estudos polono-brasileiros editada em Curitiba desde 1999.
A língua dos poloneses no Brasil, tanto o polonês quanto o
português, é um testemunho vivo do processo de sua integração na
sociedade brasileira. Os lingüístas chegam a falar sobre o
dialeto polaco-brasileiro (Mariano Kawka) ou bilingüismo
polaco-brasileiro (Arlindo M. Druszcz), apontando os
brasileirismos no polonês ou a interferência polonesa na
fonologia portuguesa. O pesquisador do bilingüismo numa das mais
antigas colônias polonesas no Paraná, afirma:
Araucária está na fase do bilingüismo. Não há conflito, mas
influência mútua “por meio de reações íntimas, no interior dos
sujeitos falantes”. A língua materna ou primeira foi aprendida
em Araucária, durante anos, sem sistematização, na infância - e,
mais tarde, com o ensino sistemático das escolas-sociedade, até
sua proibição, em 1837 (...). Hoje, porém, continua sendo
ensinada em casa e muitas crianças só vêm a aprender a língua
portuguesa na escola, de lá (Druszcz, Arlindo Milton, 1984, 78).
Ao relatar e sistematizar os estudos sobre a língua dos
poloneses no Brasil, Władysław Miodunka chama a atenção para a
necessidade e urgência de pesquisar o bilingüismo polonês no
Brasil, devido aos processos sócio-econômicos que levam ao
desaparecimento das colônias habitadas pelos descendentes dos
emigrantes. A publicação do seu manual Cześć jak się masz:
polonês para iniciantes (UnB Editora, Brasília, 2000) atende a
demanda de materiais de ensino de língua polonesa no Brasil.
A maior onda da imigração polonesa para o Brasil ocorreu no
período de 1870 a 1914. Segundo as estimativas do início dos
anos vinte, chegaram então ao Brasil 102.196 poloneses,
distribuídos pela seguinte estrutura temporal (segundo M. Kawka):
|
1871-1889
|
8.080
|
|
1890-1894
|
62.786
|
|
1895-1900
|
6.600
|
|
1901-1914
|
24.730
|
|
Total
|
102.196
|
O período de maior
fluxo de imigrantes das terras polonesas recebeu a denominação
de "Febre Brasileira".
./Até então milhares de aldeãos haviam deixado o território
polonês sem despertar maiores atenções nas classes
intelectualizadas. No Brasil, os imigrantes ficaram como que
abandonados ao seu próprio destino." (Brasil-Polônia, Varsóvia,
1997, p. 83).
Devemos lembrar que, nesse mesmo período, das terras polonesas
emigravam, também em grande proporção, outros grupos étnicos,
sobretudo os ucranianos e judeus. Assim, de modo geral, a
quantidade das populações que afluíam dos territórios que
compreendiam a antiga Polônia era significativamente maior.
No período da I Guerra Mundial observou-se, o que é natural, uma
redução da imigração. No entanto, em resultado de diversas
formas de atividade cultural conduzida por escolas, paróquias e
organizações cada vez mais numerosas, nasceu um movimento de
apoio à pátria, destruída pela guerra e que tinha esperança de
renascimento. Foi criado o Comitê Central da Polônia no Brasil,
o qual, em novembro de 1918, foi reconhecido pelo governo
brasileiro como representante da Polônia em renascimento.
Independentemente das relações políticas e econômicas entre a
Polônia e o Brasil, que oscilavam entre uma fria normalidade,
nos primeiros anos, e uma aproximação comercial, particularmente
a partir dos anos setenta, os meios poloneses no Brasil ficaram
entregues à sua própria sorte, obtendo poucas vantagens da
existência do Estado Polonês. De acordo com a doutrina oficial,
pretendia-se agir ideologicamente sobre os descendentes dos
emigrantes poloneses e subordiná-los aos objetivos políticos do
Estado. Contudo, não houve iniciativa, forças suficientes, nem
recursos para uma cooperação cultural real, que, reforçada por
ações políticas, tivesse grandes chances de sucesso. Em mínimo
grau, também, teve êxito a política de repatriação levada a
efeito em relação à parte da emigração polonesa.
Em efeito, a grande maioria dos meios polônicos brasileiros
permaneceu, nesse período, fora de contato cultural com a
Polônia.
No entanto, devemos lembrar que, nesse mesmo período, muitos
intelectualistas e artistas poloneses interessavam-se pelo
Brasil, estudavam a problemática brasileira, apresentavam seus
trabalhos no Brasil. Cientistas poloneses, embora à distância,
ocupavam-se também da história e da contemporaneidade da
emigração polonesa para o Brasil. Sobre esse tema, criaram
inúmeras e importantes obras. Mas seus contatos diretos e
regulares com os meios brasileiros de descendência polonesa
começaram somente em 1989. Por outro lado, certo número,
pequeno, de brasileiros, incluindo os de origem polonesa,
estudaram na Polônia.
A única instituição polonesa que, a começar dos anos sessenta,
deu início a um extenso trabalho nos meios polônicos, foi a
Igreja Católica. Os padres diocesanos, bem como frades e freiras
de inúmeras ordens, acompanharam os emigrantes praticamente
desde o início. Esse trabalho foi renovado após 1956, quando as
relações do Estado face à Igreja na Polônia começaram,
gradualmente, a se normalizar. Em resultado, presentemente
(dados referentes a 1998), trabalhando no Brasil encontram-se
cerca de 300 padres (diocesanos e pertencentes a diferentes
ordens), bem como freiras, em grande parte nos meios de origem
polonesa.
Momento fundamental para os meios brasileiros de origem polonesa
veio a ser, nesse período, a eleição do Papa-Polonês, João Paulo
II (1978) e sua visita ao Brasil e a Curitiba, em julho de 1980.
A Polônia chegou ao Brasil, não de Varsóvia, mas do Vaticano.
Era a Polônia da qual os descendentes poloneses tinham saudades,
era a Polônia que os valorizava ainda mais. Esse parece ter sido
o momento capital para a renovação do movimento polônico no
Brasil.
A começar de 1989, desde o momento da recuperação pela Polônia
da plena soberania, as suas relações com o Brasil e com a
Comunidade Polônica brasileira entraram numa etapa completamente
nova. O seu princípio, em cada um dos casos, é a cooperação
dentro dos princípios de parceria, com pleno respeito pela
identidade política e cultural. No entanto, passaram-se somente
alguns anos e ambas as partes estão em via de elaboração de uma
política de cooperação.
Durante esses primeiros anos:
§ foram
normalizadas as relações políticas e econômicas entre ambos os
países;
§ as universidades brasileiras estão desenvolvendo,
dinamicamente, cooperações com universidades polonesas, na qual
participam também cientistas brasileiros de descendência
polonesa;
§ organizações polaco brasileiras encetaram boas relações com
instituições públicas na Polônia, também com universidade, sendo
que os efeitos dessa cooperação implicam otimismo.
Nos anos de pós-guerra, merece atenção, sobretudo, a
configuração acelerada das elites profissionais e intelectuais,
o interesse pelo aprofundamento científico do próprio passado, a
criação de uma arte mais sublimada, incluindo a literatura e as
artes plásticas. Bom exemplo desse fato são os Anais da
Comunidade Brasileiro-Polonesa, editados nos anos 1970-1977, o
surgimento de algumas obras básicas sobre a história e a
contemporaneidade da colonização polonesa no Brasil. Clássicos
da literatura polono-brasileira e brasileira tornaram-se Witold
Żongołłowicz, Jan Krawczyk, Ladislau Romanowski e Paulo
Leminski.
A partir de 1980, tem início no Brasil um novo período de
renascimento do interesse pelo polonismo, em cada dimensão,
popular e intelectual.
Renascem as organizações de caráter polonês. Em 1989, surgiu a
POLBRAS – Federação das Associações Polonesas do Brasil, que
agrupa diversas organizações culturais e sociais, que já
existiam anteriormente. Em 1990, começou a atuar a BRASPOL –
Federação das Organizações Polonesas do Brasil, cujo objetivo é
despertar a consciência da origem entres os descendentes dos
imigrantes da Polônia. Em 1999, existia já mais de 300 entidades
locais da BRASPOL em todo o Brasil, mas, principalmente, em seus
estados sulinos e centrais.
Papel importante, contribuindo para o despertar da consciência
das raízes polonesas, desempenhou também a USOPAL – União das
Associações e Organizações Polonesas na América Latina, promotor
dos Congressos dos Poloneses da América Latina. Em 1996, em
Curitiba, foi organizado o II Congresso, enquanto, no ano 2000,
o IV Congresso.
Um papel não menor desempenha a cooperação entre universidades
polonesas e brasileiras. Da parte polonesa, nessa cooperação
tomam parte a Universidade de Varsóvia, a Universidade
Yaguellônica de Cracóvia e a Escola Politécnica de Cracóvia. Da
parte brasileira, a Universidade Federal do Paraná, Universidade
do Estado do Rio de Janeiro, Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo. À essa cooperação se incorporam organizações
polonesas brasileiras, bem como ordens religiosas que conduzem
trabalho de evangelização nos meios poloneses, mas, sobretudo,
padres da Sociedade de Cristo, cuja sede sul-americana se
encontra em Curitiba.
Somos, assim, testemunhas da criação, no limiar dos séculos, de
novas qualidades na vida dos meios brasileiros de origem
polonesa.
Segundo Grazyna Machalek da Embaixada da Polônia em Brasília,
pelos dados da Polícia Federal Brasileira, no Brasil no total
moram acerca de 700 cidadãos poloneses. Este número não inclui
as pessoas que tem assim chamada ''dupla nacionalidade'' (são no
mesmo tempo Brasileiros e Poloneses) que podem ser (no Brasil
todo) algumas centenas (300 - 500 talvez).
Outro aspecto do assunto são os Brasileiros de origem polonesa.
Não há estatísticas oficiais, considera-se que no total seriam
entre um milhão e meio no Brasil todo, com a predominância nos
estados sulinos (Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São
Paulo). Os descendentes de Poloneses em Curitiba seriam um
quinto da sua população, quer dizer uns 300 mil.
Segundo o Sr. Ulisses do site www.ui.jor.br acerca de dois anos
mais ou menos, foi liberado sinal de satélite da TV
Polônia Internacional para o Brasil. Em São Paulo e Curitiba,
alguns descendentes instalaram a parabólica e estão recebendo o
sinal desta TV. Alguns polacos acessam pela internet a Radio
Polska Online também.
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Curitiba, 1996.
WACHOWICZ, Rui, MALCZEWSKI, Zdzisław (org.). Perfis polônicos no
Brasil. Vicentina: Curitiba, 2000.
ENDEREÇOS
E TELEFONES ÚTEIS: Casa da Polônia
R. das Laranjeiras, 540
Consulado da Polônia no Rio de janeiro
Praia de Botafogo,242 – 9º andar
Tel. (0xx21) 2551-8088
Cônsul Geral Michal Zawila
Fax: (+5521) 2552-5093
e-mail: konsulatrj@terra.com.br OU riodejaneiro@polonia.org.br
Área de atuação:
Estados: Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Alagoas,
Sergipe, Pernambuco
Embaixada da Polônia no Brasil
Avenida das Nações, lote 33- Brasília – DF
Tel. (0xx61) 443-3438
Paróquia Pessoal dos Poloneses
Rua Marques de Abrantes,215 - Flamengo
ANEXO:
Números de
colonos por sexo em 1876
|
COLÔNIAS
|
MASCULINO
|
FEMININO
|
TOTAL |
|
ABRANCHES
|
235
|
197
|
432
|
|
PILARZINHO |
x |
x |
x
|
|
SANTA
CÂNDIDA
|
135
|
131
|
266
|
|
ORLEANS
|
125
|
126
|
251
|
|
DON PEDRO
|
19
|
19 |
|
|
DON AUGUSTO
|
138
|
143 |
281 |
|
TOMÁZ COELHO
|
375
|
365 |
740 |
|
LAMENHA
|
385
|
361
|
746
|
|
SANTO IGNACIO
|
241
|
273 |
534 |
|
REVIERRE
|
199
|
207
|
406
|
FONTE:
COLONIZAÇÃO. RELATÓRIO DO GOVERNO, LAM ENHA LINS DE 1876.
Colônias do Município de Curitiba em 1890
|
Nacionalidade
|
Masc
|
Fem
|
Solt
|
Casado
|
Católico
|
Sabem Ler |
Não Sabem
ler |
Total
|
|
BRASIL
|
982
|
950
|
1921
|
16
|
1873
|
578
|
1364
|
7684
|
|
ITALIA
|
558
|
496
|
531
|
430
|
-
|
439
|
615
|
3069
|
|
POLLONIA
|
1118
|
987
|
1217
|
820
|
-
|
796
|
1309
|
6247
|
|
ALEMANHA
|
108
|
64
|
114
|
68
|
-
|
92
|
95
|
541
|
|
FRANÇA
|
41
|
28
|
49
|
18
|
-
|
28
|
45
|
209
|
|
DIVERSOS
|
58
|
36
|
62
|
28
|
84
|
34
|
60
|
362
|
FONTE: ARQUIVO
PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ (1890)
Autores: Carlos Felipe Teixeira da Silva e Tatiana
Machado de Castro.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
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