Poloneses

Análise

Sonho de libertação

“Partiam atordoados. Libertava-se da penúria, da opressão, da perseguição. Aliciados e iludidos, demandavam o além-mar. Que poderia resistir a tentação?”. Todos tinham casos com o senhorio, com o gendarme, com a caterva de vivaldinos. Os que possuíam coração, os que amavam a Mãe-Terra enxugavam as lágrimas e partiam em busca de areias cintilantes, para do retorno atirá-las aos olhos do inimigo e cegar os tiranos. Abandonavam searas de trigo. Tentados, aventuravam melhor sorte. Sonhavam com minas de prata, árvores leiteiras, frutas-pão, maná em desertos."

Assim Romão Wachowicz inicia sua história Homens da Terra (Curitiba, 1997), sobre a sorte de uma família de emigrantes poloneses no Brasil, constituindo, ao mesmo tempo, a história dos destinos de dezenas de milhares de outras famílias, que, através de décadas, a partir de 1870, co-criaram o Brasil meridional, e, hoje em dia, por intermédio de seus descendentes, co-decidem da sorte do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Por que partiram? Parte das respostas encontra-se no citado fragmento do livro de Wachowicz. Eram impingidos pela injustiça social, pela falta de terra, pela pobreza. Eram atraídos pelas perspectivas de uma vida melhor, pela lenda de terras sem fim, pela liberdade. A utopia da América.

Primeiros contatos:

Os primeiros poloneses, militares e missionários, chegaram ao Brasil no século XVII. Até 1871, início de emigração em massa dos camponeses, o número dos que vieram da Polônia não superava 150 pessoas, porém entre elas não faltavam os que se notabilizaram na história do Brasil e que deram uma contribuição significativa para o seu desenvolvimento.

‘’ De acordo com o estabelecido até o momento, o primeiro grupo organizado de imigrantes poloneses chegou ao Brasil em 1869, por persuasão de Edmundo Woś-Saporski, chamado o "Pai da imigração polonesa no Brasil", originário da aldeia de Siołkowice, situada nos arredores de Opole. Essa área foi testemunha da variada sorte dos poloneses, sendo que no período em questão encontrava-se sob a dominação alemã. Eis porque, inicialmente, foram dirigidos para a região de colonização alemã, perto de Blumenau (Santa Catarina), e, somente após dois anos de esforços contínuos, conseguiram transladar-se para o Paraná, onde, nas imediações de Curitiba, fundaram a colônia de Pilarzinho. Os primeiros grupos de imigrantes vinham da Silésia, das regiões sob domínio alemão, embora houvesse também imigrantes da Pomerânia Oriental, da presente Polônia setentrional. ‘’

O primeiro nome polonês que aparece na história do Brasil é o de Krzysztof Arciszewski (1592-1652), que entre 1629 e 1639 veio três vezes ao Brasil como um dos comandantes das tropas holandesas na guerra contra os portugueses e espanhóis pelo domínio da costa nordeste, atual estado de Pernambuco. Ligado à corte do príncipe Krzysztof Radziwi, Arciszewski recebeu uma boa educação humanística e militar, estudou a artilharia, a fortificação e a navegação marítima. Banido da Polônia por ter assassinado um homem, refugia-se na Holanda onde é contratado pela Companhia das Índias Ocidentais. Chega a ser nomeado o general da artilharia e o almirante no mar. A sua tomada de Arraial de Bom Jesus, Castelo Real e Barra Grande, assim como a vitória em Porto Calvo, foram considerados grandes feitos militares. Quando em março de 1639 a esquadra de Arciszewski chegou ao Recife, foi recebida com um tiro que destruiu a bandeira do Almirante. O conflito com o governador da colônia holandesa, Maurício Nassau, resultou em deportação de Arciszewski para a Holanda. Reabilitado, Arciszewski volta a Polônia onde participa das guerras na Ucrânia como o general da artilharia.
Além das suas façanhas militares Arciszewski era o primeiro polonês e um dos primeiros europeus que se interessavam pela vida dos índios do Brasil, e cujos trabalhos etnográficos e cartográficos contribuíram significativamente para o conhecimento da América na Europa. Os resultados das suas pesquisas e observações Arciszewski mandava para um estudioso holandês Gerard Voss, que os aproveitava nas suas aulas na Universidade de Leiden e no seu trabalho De theologia gentili et physiologia christiana sive de origine et progressu idolatriae, publicado em Amsterdã em 1642. As suas observações sobre a vida dos índios, principalmente os Tapuias, são também citadas pelo historiador holandês Johannes de Laet no seu livro História ou Anáis dos Feitos da Companhia das Índias Ocidentais desde o seu começo até o fim do ano de 1636, editado em 1636 em Leiden (edição brasileira em 1925). Antes de deixar o Brasil, Arciszewski escreveu dois poemas elegíacos em polonês.

No século XVII começaram também chegar ao Brasil os missionários poloneses. O primeiro era o jesuita pe. Wojciech Męciński (1601-1643), missionário no Japão onde morreu como mártir da fé. O navio em que em 1631 ele ia de Lisboa a Goa foi desviado pelos fortes ventos e, durante a sua permanência em terra, ele fez uma descrição e um mapa de Pernambuco, que infelizmente foi perdido.

O primeiro polonês que veio ao Brasil em conseqüência da perda da independência da Polônia no final do século XVIII, foi um famoso viajante e autor de memórias, Maurycy August Beniowski (1746-1786), cujo navio em que ia de Baltimore a Madagascar ficou três meses parado na costa brasileira.

O insucesso de uma tentativa de recuperação da independência da Polônia, a da insurreição de 1830-1831, fez com que o Brasil se tornasse a terra do exílio de cerca de 45 poloneses, militares e outros profissionais, entre eles o médico Piotr Napoleon Luiz Czerniewicz, no Brasil conhecido com o nome como Pedro Luís Napoleão Chernoviz (1812-1882), um dos fundadores da Academia de Medicina no Rio de Janeiro, autor do livro Formulário e guia médico (1841), um best seller na área de medicina, reeditado várias vezes até 1924. Outro exilado daquela época, Andrzej Przewodowski (1799-1879), oficial da cavalaria na insurreição polonesa, mas também engenheiro e geólogo, foi contratado pelo governo brasileiro em 1839, quando trabalhava na construção do primeiro túnel sob o Tâmisa. Autor de grandes obras de engenharia do tempo do Império (a ponte de D. Pedro II sobre o rio Paraguaço, o canal de Ilhéus, entre outros), Przewodowski era também o precursor da descoberta do petróleo na região do Recôncavo da Bahia. O seu filho, Stanisław Przewodowski (1843-1903) era oficial da marinha brasileira, destacando-se na guerra do Paraguai, depois da qual foi nomeado comandante da frota no rio Uruguai.

Em 1850 chega ao Brasil o major e o engenheiro Florestan Rozwadowski (1822-1879), que lutava na revolução húngara de 1848-49. Contratado pelo exército brasileiro, fez os primeiros planos topográficos e mapas da Amazônia. Escreveu o diário da expedição no rio Solimões de 1854: Roteiro e relatório da viagem do primeiro vapor que subiu o Solimões até Nauta. Em 1857 publicou no Rio uma brochura O governo e a colonização ou considerações sobre o Brasil e o engajamento do estrangeiro, defendendo a política brasileira de imigração e propondo ao imperador D. Pedro I a sua intensificação. Quando em 1863 soube da eclosão da nova insurreição na Polônia, deixa o Brasil para lutar pela liberdade da sua pátria. Morre no campo de batalha na Polônia.

Em 1878 chega ao Brasil Aleksander Brodowski (1855-1899), engenheiro formado em Poznan e Zurique, que desempenha um papel importante na construção das ferrovias no Brasil. Uma das novas cidades construídas à margem da ferrovia recebe o nome Brodowski em sua homenagem. É nesta cidade que nasce um dos maiores artistas brasileiros, o pintor Cândido Torquato Portinari (1903-1962). Brodowski era também diretor de Ferrovia Nacional em São Paulo e lecionava na escola politécnica desta cidade. O seu irmão, engenheiro Karol Brodowski (1869-1937), que vem ao Brasil em 1892, também se destaca como o construtor dos caminhos de ferro neste pais.

A IMIGRAÇÃO POLONESA NO SUL DO BRASIL

A ocupação da Polônia pelos países vizinhos, a Rússia, a Prússia e a Áustria desde o final do século XVIII até 1918, a miséria e a superpopulação das aldeias, provocaram um verdadeiro êxodo, em que, durante os cinqüenta anos antes da Primeira Guerra Mundial, cerca de 3,6 milhões de pessoas deixaram a Polônia, das quais aproximadamente 100 mil chegaram ao Brasil. Tanto a insegurança individual e coletiva, confrontos com os ocupantes e repressões, quanto a insustentável situação econômica levaram milhares dos poloneses, sobretudo os mais pobres, a procurarem os meios de sobrevivência em terras longínquas. Não faltavam também os que deixavam se levar pelo espírito de aventura, a vontade de conhecer o mundo ou sonhos de ganhar a fama e a riqueza.

O aparecimento dos cereais oriundos dos Estados Unidos e do Canadá na Europa no início dos anos noventa do século passado intensifica uma crise agrária nas terras polonesas. Também a crise da indústria textil de Łódź e no centro industrial de Varsóvia no final dos anos oitenta deixa muitos desempregados. A viagem gratuita, a perspectiva de ganhar terra, promessas mirabolantes dos agentes de viagem e as cartas convidativas dos primeiros que ousaram cruzar o oceano, fomentavam a “febre brasileira” que despovoava as aldeias. Não atraíam aqueles “sem-terras” os centros urbanos e industriais que naquela época começavam a surgir no país. O sonho de cultivar a sua própria terra era mais forte e levava “além da dor”, custa que custar. O preço era alto, muitos pagaram este sonho com a vida, mas muitos também venceram o desafio, conquistando a sua propriedade, a vida digna e o trabalho em liberdade.

Nas cartas dos imigrantes poloneses do Brasil, escritas nos anos 1890-91, confiscadas pelas autoridades tzaristas contrárias à emigração, mas cuja parte foi recuperada e salva do fogo da Segunda Guerra pelo Witold Kula, encontramos os testemunhos bem expressivos como o Brasil era atraente aos camponeses que deixaram as condições extremamente difíceis no seu país dominado e estagnado (Listy). Naquele momento o Brasil encontrava-se em fase de desenvolvimento econômico e a situação dos seus estados do Sul não lembrava a situação da fase pós-servidão reinante nas terras polonesas. Eis alguns trechos das cartas (Cartas): “Estou muito melhor do que na Polônia, somente pelo fato de não estar submisso a nenhum senhor” (carta 5); “Querido irmão comunico-te que no Brasil é bom e ficaria satisfeito se você viesse para junto de nós no Brasil, porque aqui nós não temos miséria. Venda sua propriedade e traga consigo o dinheiro porque no Brasil é bom” (carta 44). Não faltam também as cartas que falam sobre os problemas e dificuldades, mas prevalece a fé de que o trabalho dará o seu fruto: “Só é necessário saúde para trabalhar e em breve teremos um pedaço de pão” (carta 76).

A primeira leva dos imigrantes, 32 famílias de camponeses procedentes da Silésia chegou ao Brasil, no estado de Santa Catarina, em 1869, por iniciativa de Sebastian Edmund Woś Saporski (1844-1933) - “Pai da emigração polonesa no Brasil”. O grupo foi transferido em 1871 para o estado do Paraná, estabelecendo a primeira colônia polonesa no Brasil, em Pilarzinho, perto de Curitiba. Nos anos seguintes surgem novas colônias polonesas, formando em torno de Curitiba um “cinturão verde”, que abastecia a cidade com produtos agrícolas. Surgem também colônias polonesas em Estado de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A partir da abolição da escravatura (1888) e a proclamação da República (1889) aumenta o fluxo imigratório para o Brasil de vários países europeus. A “febre brasileira” traz milhares de camponeses, mas as autoridades brasileiras já não lhes asseguram condições tão boas quanto aos imigrantes das primeiras levas. Enviados para os lugares distantes, muitas vezes no interior da selva, ganham com muito suor as terras para cultivar, enfrentando também os índios que defendiam a sua terra.

Assim descreve a conquista e a adoção do Brasil pelos camponeses poloneses, um dos seus descendentes, professor e escritor Roman Wachowicz:

O homem amou a terra renitente com teimosia. O homem e a gleba formaram uma unidade inquebrantável, eram unos. Nos escombros e nas cinzas, nas tumbas e nos monumentos, nas roças e no sertão, nos lares e nas escolas, nas cidades e nas fábricas nasceu a fraternidade. Ela fulgurou qual sol meridiano. Dessa borrasca, desse reboar do golpe do machado, desse parto de gigantesca dor, nasceu para eles o sentimento de uma nova pátria, o Brasil. (Wachowicz, Roman, 11-12)

No período de 1871 a 1914 surgiram 91 povoações polonesas, entre eles Sta. Cândida, Tomás Coelho, S. Inácio, S. Mateus, Cruz Machado – no Paraná; Rio Vermelho, Grã Pará, Nova Galícia – em Santa Catarina; Sta. Bárbara, Bento Gonçalves, D. Feliciano, Guarani das Missões, Erechim – no Rio Grande do Sul; Águia Branca, Sta. Leopoldina – em Espírito Santo.

Com a reconquista da independência da Polônia em 1918, o fluxo migratório não parou, mas ganhou um novo caráter, o de uma emigração organizada e dirigida pelas instituições do Estado polonês. Entre 1918 e 1939 chegaram ao Brasil cerca de 40 mil imigrantes da Polônia, entre eles cidadãos poloneses de origem judaica e ucraniana. Segundo as estatísticas do início dos anos vinte, os poloneses e seus descendentes representavam 1% da população do Brasil. Hoje a estimativa é de 1,5 milhão o que também corresponde a cerca de 1% de toda população brasileira. (Kawka, Mariano, 1996, 37)

Durante a Segunda Guerra Mundial, até o ano 1942, o Brasil acolheu cerca de dois mil de refugiados de guerra poloneses, muitos dos quais receberam ajuda do Comitê de Socorro às vítimas da guerra na Polônia do Rio de Janeiro, com os filiais em outras cidades, presidido pelo vice-presidente da República, Fernando Mello Vianna. Foram 580 poloneses do Brasil que integraram as Forças Armadas Polonesas na Europa Ocidental. Também no Corpus Expedicionário Brasileiro que lutava na Itália não faltaram brasileiros de origem polonesa.

A imigração polonesa para o Brasil era predominantemente camponesa (mais de 90%) e, em grande parte por isso resistente aos processos de assimilação. Os camponeses vieram aqui porque o Brasil oferecia-lhes a chance de continuarem o seu próprio modo de vida e preferiam derrubar a selva para conseguir a terra para cultivar, do que aceitar as ofertas de trabalho nas plantações.

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O contato com a nova realidade, em que o imigrante podia transformar-se em proprietário das terras até do tamanho das fazendas da nobreza na Polônia, era um grande desafio que fazia o camponês dedicar-se ao trabalho e não interessar muito pelo que havia além do horizonte da colônia. A opção pela preservação da própria identidade, camponesa e nacional, não propiciava integração na sociedade brasileira. Entre os imigrantes vindos da Polônia havia também médicos, advogados, professores, fotógrafos, barbeiros, mas esses estabeleciam-se em cidades. São poucos os filhos dos imigrantes, que saíam da colônia para estudar.Mesmo assim o processo de inserção de imigrante na sociedade prosseguia. O camponês polonês introduzia e difundia as novas plantas e cereais como centeio, trigo saraceno, batata inglesa, assim como também as novas técnicas e instrumentos de trabalho como o arado, a grade, a gadanha, o mangal, o picador de palha, a alfange. Os poloneses foram também os principais responsáveis pela difusão de um meio de transporte que é a carroça; a “carroça polonesa” tornou-se a marca inconfundível do Paraná. Mas, ao mesmo tempo, os imigrantes poloneses adotavam o modo de cultivo e os produtos típicos da população local, como o milho e a erva mate.

Os poloneses raramente se ocupavam do comércio de uma forma profissional, mas a necessidade de troca dos produtos agrícolas por outros bens, os levava aos contatos com a sociedade, exigia a aprendizagem da língua, dos costumes e de sistema das medidas local.

Apesar de sujeita às transformações e processos de assimilação, a família era uma comunidade de base dos imigrantes poloneses, que geralmente chegavam em famílias. O sucesso econômico dependia do trabalho de todos e as famílias numerosas eram mais privilegiadas. A família assumia também o papel – que na Polônia era dividido entre várias instituições – o de educar os filhos em espírito patriótico e cristão e de transmitir-lhes a língua, história e cultura polonesas.

Os imigrantes foram surpreendidos com as casas da população local, os barracos, que por razões climáticas e culturais eram bem mais simples do que aquelas que deixaram na sua pátria. Mesmo assim, alguns, obrigados pelas circunstâncias, construíam as suas casas do modo semelhante. Mas a grande maioria reproduzia as casas típicas da Polônia, utilizando a madeira do pinheiro araucária. A casa de troncos encaixados, sem utilização de prego, pode ser hoje vista em vários museus a ar aberto do Paraná. Com passar do tempo a arquitetura tradicional polonesa ganha os elementos da arquitetura local.

Os imigrantes poloneses distinguiam-se, sobretudo na fase inicial, pelos seus trajes típicos, usados sobretudo nos domingos e feriados, mas adotavam também os elementos de traje local como as capas que protegiam da chuva e do frio e os chapéus, grandes e redondos. Às vezes os elementos de traje típico da região são incorporados no traje dos grupos folclóricos poloneses. Por exemplo, um grupo folclórico polonês de Guarani das Missões (RS) dança a polonesa em traje gaúcho e isto é um fato muito interessante pois as culturas dos 2 países passam a se unir em prol da Cultura Polono-brasileira.

Os pratos típicos poloneses podem ser encontrados até hoje no Sul do Brasil. A cozinha e os produtos alimentícios tradicionais eram para os imigrantes um sinal de identidade e o motivo de orgulho. Os imigrantes poloneses não resistiram também aos sabores da cozinha brasileira e o feijão preto, mandioca, milho e churrasco enriqueceram o seu cardápio. Acostumaram-se também logo tomar o café e o chá mate de que, alias, tornaram-se grandes produtores.

No Brasil, os agricultores poloneses ficaram bem mais dispersos do que na sua terra de origem, mas logo depois de construir as suas casas e prepararem a terra para o cultivo, começaram a construir a igreja, a escola e criar a “Escola-Sociedade”, considerada a primeira manifestação coletiva de aculturação do imigrante polonês no Brasil. Composta pelos chefes de famílias, a Sociedade-Escola era uma entidade mantenedora das escolas. Havia cerca de duzentas sociedades e organizações polonesas no Brasil, que organizavam a vida comunitária, as festas e comemorações, integrando os imigrantes e arrecadando fundos para as despesas da comunidade, como os pagamentos dos professores. O objetivo principal dessas organizações era a preservação da identidade nacional e cultural polonesa, mas não faltam também exemplos de cooperação com as organizações de outras etnias e da sociedade brasileira.

Marcin Kula chama a atenção à tendência de identificação multicultural no meio dos poloneses do Brasil nos anos vinte, representada pela revista Nasza Szkoła (Nossa Escola) de Curitiba. A revista defendia um tal modelo de ensino nas escolas polonesas do Brasil, que favorecesse a maior inserção dos jovens na sociedade brasileira, lembrando que “o nosso povo vem da Polônia, mas vive no Brasil; fala polonês, mas precisa da língua portuguesa". Em conseqüência, apontava-se a necessidade de ensino de português, da inclusão no programa das diversas informações sobre o Brasil e até de inculcar aos jovens certas características dos brasileiros (Kula, Marcin, 1988, 27). Infelizmente, não foram essas as tendências predominantes, e, até a política do governo polonês dos anos trinta era contrária a assimilação e incentivava um certo separatismo dos imigrantes em relação a sociedade brasileira. A forma radical com que o governo de Getúlio Vargas reagiu no final dos anos trinta a essas tendências anti-assimilatórias, comuns também entre os imigrantes de outras nacionalidades, destruiu em grande parte o patrimônio cultural dos imigrantes, diminuindo o potencial multicultural do Brasil.

Ao analisar processo de assimilação dos camponeses poloneses na sociedade brasileira, é preciso lembrar, que no início os seus contatos com a população local – índios, negros, mulatos, caboclos – eram escassos e os centros da cultura brasileira eram distantes. Os imigrantes poloneses relacionavam-se nessa fase inicial mais com os outros imigrantes, geralmente de origem européia, contribuindo substancialmente para criação de um perfil cultural próprio do Sul do Brasil. As diferenças culturais não propiciavam a integração com a população local. “No Brasil, os imigrantes poloneses – afirma Rui Wachowicz – encontraram também, predominando na sociedade, as formas arcaicas de vida. (...) As populações agrícolas locais, constituídas de escravos, libertos e caboclos, eram bem diferentes das populações agrícolas européias (...). Os poloneses, apesar de seu atraso com relação aos moldes da Europa ocidental, sentiram sua superioridade técnica, e isto os satisfez em seu orgulho. Onde quer que as populações agrícolas nativas brasileiras entrassem em concorrência, os poloneses se impuseram na agricultura” (Wachowicz, Rui, 1981, 12).

Um certo isolamento das colônias polonesas fez com que elas não se inseriam suficientemente no processo de construção do “Brasil novo”, moderno, industrial e urbano que começou no fim do século XIX. Porém, os camponeses poloneses no Brasil não deixaram de dar a sua contribuição neste processo, tanto como fornecedores de produtos agrícolas, quanto como componentes do panorama multicultural do Brasil.

Mas também não faltam exemplos dos poloneses que contribuíram para o desenvolvimento industrial do Brasil do século XX. Um deles é Alfred Jurzykowski (1899-1966), que viveu no Brasil entre 1950 e 1960, um dos pioneiros da indústria automobilística no Brasil, construtor e um dos donos da fábrica Mercedes Bens do Brasil em São Bernardo de Campo. A atuação de Jurzykowski contribuiu para que o Brasil se tornasse um país exportador de automóveis. Outro exemplo é a empresa WARPOL Indústria de Alimentos Ltda. do Guarani das Missões (RS), fundada em 1935 pelo imigrante polonês Antoni Warpechowski (n. 1900), pioneira na extração e produção de olho de soja no região. Entre os filhos de emigrantes poloneses do início do século que contribuíram para o desenvolvimento do Brasil destaca-se Roberto Wypych (n. 1928), incentivador do cooperativismo, fundador e diretor de várias cooperativas agropecuárias, que em 1985 chega a ser eleito o senador da República.

Nos últimos anos observa-se uma intensificação da vida cultural dos descendentes dos imigrantes poloneses no Brasil, assim como da cooperação entre as suas instituições e as instituições da Polônia. Em 1990 foram fundadas duas novas organizações, POLBRAS presidida por Anisio Oleksy e BRASPOL, presidida por Rizio Wachowicz. A BRASPOL congrega atualmente mais de trezentas entidades polono-brasileiras espalhadas pelo Brasil, aproximando-as e contribuindo para a intensificação das suas atividades. Organizações essas participam também do movimento de integração em escala do continente, liderado pela Union de Sociedades y Organizaciones Polacas en America Latina, presidida por Jan Kobylański do Uruguai. Não faltam também organizações culturais dos descendentes dos poloneses no Brasil, que desenvolvem uma intensa atividade cultural sem se filiar às organizações supracitadas, como por exemplo o Grupo Folclórico Polonês de Erechim (RS), JUPEM.

Entre as instituições polonesas, que marcaram a sua presença no meio dessas organizações, assim como no meio acadêmico brasileiro, destaca-se o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Varsóvia (CESLA), dirigido pelo prof. Andrzej Dembicz. Frutos dessa cooperação foram simpósios e publicações como Obecność Polska w Brazylii (A presença polonesa no Brasil) (1988), Relacje Polska-Brazylia: historia i wspólczesność (Relações Polônia-Brasil: história e contemporaneidade (1996). É significativa também a concessão de bolsas pelo governo da Polônia para os estudantes brasileiros de origem polonesa, o que lhes possibilita estudar no país dos seus antepassados.

Não faltam exemplos de cooperação dos poloneses com outros grupos étnicos do Brasil. Um deles é a sua participação da Associação Inter-Étnica do Paraná, fundada em 1974, por iniciativa de grupos folclóricos de Curitiba. Em numerosos grupos folclóricos poloneses espalhados pelos estados do Sul do Brasil participam os jovens brasileiros não só de origem polonesa.

Presença Polonesa nas Artes e na Literatura Brasileiras

Eram tantos os encontros que, nos campos da literatura, da ciência e das artes, aproximavam, e continuam aproximando, a Polônia e o Brasil, que aqui citaremos apenas alguns dos mais significativos. Aparentemente o Brasil recebia mais, como o país que acolhia os imigrantes. Mas a Polônia também recebia, porque dessa forma inseria-se na sua história o Brasil. Eis alguns exemplos.

Paulo Leminski (1944-1989), mestiço de polonês com negra, “Rimbaud curitibano com físico de judoca”, segundo Haroldo de Campos, é um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos. Ligado ao movimento concretista é autor de poemas experimentais, mas também escreve haikais e letras para cantores da música popular brasileira. Em 1976 publica um romance experimental Catatau, considerado obra-prima da literatura brasileira contemporânea. Partindo de uma hipótese de que René Descartes teria vindo ao Brasil junto com Maurício de Nassau, Leminski constrói uma narrativa que é um fluxo de consciência, bastante psicodélica, do grande filósofo europeu enfrentando a realidade tropical do Novo Mundo. No final aparece Krzysztof Arciszewski, a quem Descartes espera para lhe esclarecer as dúvidas que o atormentam. Leminski era também tradutor de Whitman, Alfred Jarry, Petrônio, Mishima e Beckett. O estereótipo negativo do “polaco” brasileiro (“o negro do Paraná”), não o escandalizava, antes brincava com ele, assumindo a herança e o marco do filho do imigrante.

meu coração de polaco voltou
coração que meu avô
trouxe de longe pra mim
um coração esmagado
um coração pisoteado
um coração de poeta.

(Polonaises)

O pai do moderno teatro brasileiro é considerado Zbigniew Ziembiński (1908-1978), nascido em Wieliczka, formado pela Universidade Jagelloniana e Academia de Arte Dramática de Cracóvia, ator em vários teatros poloneses. Chega ao Brasil em 1941 e dois anos depois dirige a peça Vestido de noiva de Nelson Rodrigues no Teatro Municipal do Rio, o que inicia a “revolução teatral” no Brasil. Ator, diretor teatral e da TV, Ziembinski formou toda a geração dos atores e diretores brasileiros. Modernizando o teatro, promovendo as obras dos autores brasileiros e lutando pelo acesso a arte teatral de um público de todas as classes sociais, Ziembinski deixou uma marca inconfundível na cultura contemporânea do Brasil. Na opinião de Fernanda Montenegro “ele revigorou toda a cena brasileira, principalmente do ponto de vista estético” e, segundo Yan Michalski, “entrou para a história do teatro brasileiro por ter sido o homem que nos ensinou a fazer personagens; ensinou também, pela primeira vez, o que é unidade de espetáculo”.

Entre os escritores brasileiros de origem polonesa tornaram-se conhecidos também Alfredo Syrkis (n. 1950), autor de Os carbonários (prêmio Jabuti em 1981) e Corredor polonês (1983), entre outros, assim como Samuel Rawet, (1929-1984), nome de destaque da prosa contemporânea brasileira (Contos do imigrante, 1956; Diálogo, contos, 1963; Os sete sonhos, contos, 1968, entre outros).

Não faltam também nomes poloneses que são destaques na história das artes plásticas no Brasil.

Bruno Lechowski (1887-1941) nasceu em Varsóvia. estudou nas Academias de Belas Artes em Kiev e São Petersburgo. Em 1909 realiza a sua primeira exposição, seguida por muitas outras na Polônia e outros países da Europa. Durante a guerra russo-polonesa de 1920 alista-se como voluntário para socorrer os soldados feridos. Como professor da Academia das Belas Artes de Varsóvia cria também os núcleos de ensino para “jovens talentos” de famílias pobres. O projeto de criação da Casa Internacional do Artista o leva a uma viajem pelo mundo. Em 1925 chega ao Brasil e logo integra-se na vida artística do pais, morando em Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. As suas idéias e o estilo são vistos como revolucionários e entre os seus discípulos encontram-se os grandes pintores brasileiros como Pancetti, Takaoka e Tamaki. “Lechowski foi, sinceramente – escreveu Oswaldo Teixeira – um grande amigo do Brasil. Ele, que aqui havia chegado simbolista, pintando numa metafísica bizarra de idéias muito avançadas, terminou o mais suave dos bucólicos, o mais calmo e idílico paisagista, pastoreando cores e formas líricas, numa santa comunhão com a natureza” (Catálogo, 1942).

Conhecido no Brasil com nome Zaco Paraná, Jan Żak (1884-1961) nasceu na Polônia, chegando ao Brasil com os seus pais aos 12 anos de idade. Como criança fazia pequenas esculturas em madeira. O seu talento chamou a atenção de um viajante belga, que ofereceu ajuda para que o filho dos colonos do interior do Paraná pudesse estudar em Curitiba. Segue os estudos nas Academias das Belas Artes no Rio e em Bruxelas, onde conhece Amadeo Modigliani, Marc Chagall, Brancusi e Picasso. Simpatizando com os movimentos de vanguarda, Jan Żak mantém-se ligado ao estilo acadêmico e realista. Em 1922 volta ao Brasil. A comunidade polonesa de Curitiba encomenda a ele um monumento para comemorar o centenário da independência do Brasil. A obra “O Semeador”, uma escultura em pedra que simboliza o esforço do camponês polonês e a sua gratidão a nova pátria, foi um sucesso artístico seguido por uma série de encomendas dos monumentos e estátuas. As obras de João Zaco Paraná podem ser hoje encontradas em museus, nas ruas e nas praças do Rio de Janeiro e de várias outras cidades do Brasil e do mundo. Uma das suas esculturas mais conhecidas é “A Maternidade”.

Também alguns dos maiores artistas brasileiros contemporâneos nasceram na Polônia. Fayga Ostrower (Lódź, 1920), no Brasil desde 1934, é um nome de referência da arte abstrata brasileira. Suas xilogravuras, litografias, gravuras em metal, aquarelas, encontram-se em principais museus brasileiros e internacionais e chamam atenção pela harmonia entre a estrutura abstrata e o lirismo.

Na arte do cinema publicitário, o Brasil associa muitos dos seus sucessos com o nome de Andrés Bukowinski (Varsóvia, 1940). Aos seis anos de idade deixa a Polônia com os seus pais, rumo a Inglaterra, onde mora até 1949, ano em que emigra para a Argentina. Aos 21 anos começa sua carreira como diretor de filmes de propaganda. Foi o primeiro ganhador de três Leões de Ouro consecutivos em Cannes. Em 1973 muda-se para o Brasil, onde vive e trabalha até hoje, sendo sócio-diretor da ABAFILMES em São Paulo. Ganhador de 25 Leões em Cannes e Prêmio Clio, 7 vezes considerado Profissional do Ano da Rede Globo, Andrés Bukowinski, é hoje um dos diretores de publicidade mais premiados do mundo. O seu filme “Hitler” foi escolhido como um dos 40 melhores comerciais do mundo do século XX.

Entre os artistas fotógrafos de origem polonesa destaca-se João Urban (Curitiba, 1943), cujas obras registram com um olhar investigativo e solidário os trabalhadores diaristas na agricultura (Bóias-Frias), o movimento e os caminhos das tropas (Tropeiros), as tradições populares (Aparecidas), as paisagens urbanas, assim como a vida cotidiana e a cultura dos imigrantes poloneses e seus descendentes no Brasil.

LíNGUA E LITERATURA POLONESA NO BRASIL

Havia poloneses que ao vir ao Brasil inseriam-se na vida brasileira adotando sua língua e costumes, identificando-se com a terra e o povo que os recebiam. Zbigniew Ziembinski é um exemplo desses, o que testemunha Nelson Rodrigues dizendo:

Ziembinski foi não só um grande homem mas, também e sobretudo, um grande brasileiro. Só um alienado pode tê-lo como um polonês. Eu diria que ele não só foi um grande brasileiro como um grande carioca. Conhecia profundamente nossa língua, a língua das esquinas, dos botecos. Tinha uma ternura imensa pela nossa gíria e entendia profundamente o povo brasileiro (Michalski, Yan, 1995).

Tornar-se brasileiro não significava no entanto renunciar a pátria de origem, e o próprio Ziembinski mantinha contatos com a Polônia, inclusive dirigindo duas peças dos autores brasileiros em Varsóvia, em 1964.

Mas o Brasil é também a terra onde entre diversas línguas e culturas está presente a língua e a cultura polonesa, manifestando-se em muitos grupos folclóricos, escolas polonesas (até 1938), associações, jornais e inúmeros livros escritos aqui em polonês. Entre a opção de Ziembinski e a de um escritor que no Brasil escreve em polonês, há uma diferença, mas as obras dos dois fazem parte do patrimônio das duas nações.

A mais conhecida obra da literatura polonesa escrita no Brasil é Flores polonesas (Kwiaty Polskie) de Julian Tuwim (1894-1953), que durante a Segunda Guerra viveu dois anos no Rio de Janeiro.

(...)
Rio — um pedaço de Atlântida
salvo na Terra como por milagre
e do céu a pender
por meio de palmeiras e cipós,
e morros denteados e rochas íngremes!
Rio — de beija-flores a vibrarem
junto a janela, na seia de Natal!
(...)

(Kwiaty Polskie)

O Brasil está presente nas obras de Maria Konopnicka, Adolf Dygasiński, Michał Choromański, Jarosław Iwaszkiewicz, Jan Lechoń, Antoni Słonimski, Michał Rusinek, Jan Krawczyk, Bohdan Teofil Lepecki e muitos outros escritores poloneses, apesar de nem todos viverem ou passarem por aqui.

Entre 1892 e 1966 saíam no Brasil cerca de cem jornais e revistas polonesas. Um deles, “Lud” ("O Povo"), fundado em 1920, registra a história da comunidade polonesa no Brasil até ao fim do século. Além das notícias publicavam reportagens e textos literários que testemunhavam a vida do imigrante, seu relacionamento com a Polônia e com a nova pátria brasileira. Alguns dos escritores polaco-brasileiros conseguiram publicar seus romances e livros de poesia, alguns dos quais saíram também na Polônia. São poucos que foram traduzidos para o português.

Roman Wachowicz (1907-1991) é um dos mais expressivos escritores polaco-brasileiros nascidos no Brasil. Era professor das escolas polonesas e um grande incentivador da vida cultural. Escreveu dezenas de peças para teatros poloneses, livros históricos e romances sobre a vida do imigrante. Polskie korzenie é uma das sua melhores obras, cuja tradução para o português foi recentemente publicada sob o título Homens da terra.

Entre as várias iniciativas de aproximação entre a Polônia e o Brasil encontramos alguns períodicos editados em português, como Brazil — Polônia. Revista mensal editado por Leoncio Correa no Rio de Janeiro nos anos vinte, Brasil — Polônia, orgão da Sociedade Kosciuszko editado no Rio de Janeiro nos anos trinta, Anais da Comunidade Polaco-Brasileira, editada em Curitiba (vol. 1-8, 1970-1977) em comemoração dos cem anos da imigração polonesa ao Paraná; Aproximações. Europa de Leste em Língua Portuguesa, (Brasília, vol. 1-4, 1988-1991) e Projeções: Revista de estudos polono-brasileiros editada em Curitiba desde 1999.

A língua dos poloneses no Brasil, tanto o polonês quanto o português, é um testemunho vivo do processo de sua integração na sociedade brasileira. Os lingüístas chegam a falar sobre o dialeto polaco-brasileiro (Mariano Kawka) ou bilingüismo polaco-brasileiro (Arlindo M. Druszcz), apontando os brasileirismos no polonês ou a interferência polonesa na fonologia portuguesa. O pesquisador do bilingüismo numa das mais antigas colônias polonesas no Paraná, afirma:

Araucária está na fase do bilingüismo. Não há conflito, mas influência mútua “por meio de reações íntimas, no interior dos sujeitos falantes”. A língua materna ou primeira foi aprendida em Araucária, durante anos, sem sistematização, na infância - e, mais tarde, com o ensino sistemático das escolas-sociedade, até sua proibição, em 1837 (...). Hoje, porém, continua sendo ensinada em casa e muitas crianças só vêm a aprender a língua portuguesa na escola, de lá (Druszcz, Arlindo Milton, 1984, 78).

Ao relatar e sistematizar os estudos sobre a língua dos poloneses no Brasil, Władysław Miodunka chama a atenção para a necessidade e urgência de pesquisar o bilingüismo polonês no Brasil, devido aos processos sócio-econômicos que levam ao desaparecimento das colônias habitadas pelos descendentes dos emigrantes. A publicação do seu manual Cześć jak się masz: polonês para iniciantes (UnB Editora, Brasília, 2000) atende a demanda de materiais de ensino de língua polonesa no Brasil.

A maior onda da imigração polonesa para o Brasil ocorreu no período de 1870 a 1914. Segundo as estimativas do início dos anos vinte, chegaram então ao Brasil 102.196 poloneses, distribuídos pela seguinte estrutura temporal (segundo M. Kawka):

1871-1889

8.080

1890-1894

62.786

1895-1900

6.600

1901-1914

24.730

Total

102.196

O período de maior fluxo de imigrantes das terras polonesas recebeu a denominação de "Febre Brasileira".

./Até então milhares de aldeãos haviam deixado o território polonês sem despertar maiores atenções nas classes intelectualizadas. No Brasil, os imigrantes ficaram como que abandonados ao seu próprio destino." (Brasil-Polônia, Varsóvia, 1997, p. 83).

Devemos lembrar que, nesse mesmo período, das terras polonesas emigravam, também em grande proporção, outros grupos étnicos, sobretudo os ucranianos e judeus. Assim, de modo geral, a quantidade das populações que afluíam dos territórios que compreendiam a antiga Polônia era significativamente maior.
No período da I Guerra Mundial observou-se, o que é natural, uma redução da imigração. No entanto, em resultado de diversas formas de atividade cultural conduzida por escolas, paróquias e organizações cada vez mais numerosas, nasceu um movimento de apoio à pátria, destruída pela guerra e que tinha esperança de renascimento. Foi criado o Comitê Central da Polônia no Brasil, o qual, em novembro de 1918, foi reconhecido pelo governo brasileiro como representante da Polônia em renascimento.

Independentemente das relações políticas e econômicas entre a Polônia e o Brasil, que oscilavam entre uma fria normalidade, nos primeiros anos, e uma aproximação comercial, particularmente a partir dos anos setenta, os meios poloneses no Brasil ficaram entregues à sua própria sorte, obtendo poucas vantagens da existência do Estado Polonês. De acordo com a doutrina oficial, pretendia-se agir ideologicamente sobre os descendentes dos emigrantes poloneses e subordiná-los aos objetivos políticos do Estado. Contudo, não houve iniciativa, forças suficientes, nem recursos para uma cooperação cultural real, que, reforçada por ações políticas, tivesse grandes chances de sucesso. Em mínimo grau, também, teve êxito a política de repatriação levada a efeito em relação à parte da emigração polonesa.

Em efeito, a grande maioria dos meios polônicos brasileiros permaneceu, nesse período, fora de contato cultural com a Polônia.

No entanto, devemos lembrar que, nesse mesmo período, muitos intelectualistas e artistas poloneses interessavam-se pelo Brasil, estudavam a problemática brasileira, apresentavam seus trabalhos no Brasil. Cientistas poloneses, embora à distância, ocupavam-se também da história e da contemporaneidade da emigração polonesa para o Brasil. Sobre esse tema, criaram inúmeras e importantes obras. Mas seus contatos diretos e regulares com os meios brasileiros de descendência polonesa começaram somente em 1989. Por outro lado, certo número, pequeno, de brasileiros, incluindo os de origem polonesa, estudaram na Polônia.

A única instituição polonesa que, a começar dos anos sessenta, deu início a um extenso trabalho nos meios polônicos, foi a Igreja Católica. Os padres diocesanos, bem como frades e freiras de inúmeras ordens, acompanharam os emigrantes praticamente desde o início. Esse trabalho foi renovado após 1956, quando as relações do Estado face à Igreja na Polônia começaram, gradualmente, a se normalizar. Em resultado, presentemente (dados referentes a 1998), trabalhando no Brasil encontram-se cerca de 300 padres (diocesanos e pertencentes a diferentes ordens), bem como freiras, em grande parte nos meios de origem polonesa.

Momento fundamental para os meios brasileiros de origem polonesa veio a ser, nesse período, a eleição do Papa-Polonês, João Paulo II (1978) e sua visita ao Brasil e a Curitiba, em julho de 1980. A Polônia chegou ao Brasil, não de Varsóvia, mas do Vaticano. Era a Polônia da qual os descendentes poloneses tinham saudades, era a Polônia que os valorizava ainda mais. Esse parece ter sido o momento capital para a renovação do movimento polônico no Brasil.

A começar de 1989, desde o momento da recuperação pela Polônia da plena soberania, as suas relações com o Brasil e com a Comunidade Polônica brasileira entraram numa etapa completamente nova. O seu princípio, em cada um dos casos, é a cooperação dentro dos princípios de parceria, com pleno respeito pela identidade política e cultural. No entanto, passaram-se somente alguns anos e ambas as partes estão em via de elaboração de uma política de cooperação.

Durante esses primeiros anos:

  § foram normalizadas as relações políticas e econômicas entre ambos os países;

  § as universidades brasileiras estão desenvolvendo, dinamicamente, cooperações com universidades polonesas, na qual participam também cientistas brasileiros de descendência polonesa;

  § organizações polaco brasileiras encetaram boas relações com instituições públicas na Polônia, também com universidade, sendo que os efeitos dessa cooperação implicam otimismo.

Nos anos de pós-guerra, merece atenção, sobretudo, a configuração acelerada das elites profissionais e intelectuais, o interesse pelo aprofundamento científico do próprio passado, a criação de uma arte mais sublimada, incluindo a literatura e as artes plásticas. Bom exemplo desse fato são os Anais da Comunidade Brasileiro-Polonesa, editados nos anos 1970-1977, o surgimento de algumas obras básicas sobre a história e a contemporaneidade da colonização polonesa no Brasil. Clássicos da literatura polono-brasileira e brasileira tornaram-se Witold Żongołłowicz, Jan Krawczyk, Ladislau Romanowski e Paulo Leminski.

A partir de 1980, tem início no Brasil um novo período de renascimento do interesse pelo polonismo, em cada dimensão, popular e intelectual.

Renascem as organizações de caráter polonês. Em 1989, surgiu a POLBRAS – Federação das Associações Polonesas do Brasil, que agrupa diversas organizações culturais e sociais, que já existiam anteriormente. Em 1990, começou a atuar a BRASPOL – Federação das Organizações Polonesas do Brasil, cujo objetivo é despertar a consciência da origem entres os descendentes dos imigrantes da Polônia. Em 1999, existia já mais de 300 entidades locais da BRASPOL em todo o Brasil, mas, principalmente, em seus estados sulinos e centrais.

Papel importante, contribuindo para o despertar da consciência das raízes polonesas, desempenhou também a USOPAL – União das Associações e Organizações Polonesas na América Latina, promotor dos Congressos dos Poloneses da América Latina. Em 1996, em Curitiba, foi organizado o II Congresso, enquanto, no ano 2000, o IV Congresso.

Um papel não menor desempenha a cooperação entre universidades polonesas e brasileiras. Da parte polonesa, nessa cooperação tomam parte a Universidade de Varsóvia, a Universidade Yaguellônica de Cracóvia e a Escola Politécnica de Cracóvia. Da parte brasileira, a Universidade Federal do Paraná, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. À essa cooperação se incorporam organizações polonesas brasileiras, bem como ordens religiosas que conduzem trabalho de evangelização nos meios poloneses, mas, sobretudo, padres da Sociedade de Cristo, cuja sede sul-americana se encontra em Curitiba.

Somos, assim, testemunhas da criação, no limiar dos séculos, de novas qualidades na vida dos meios brasileiros de origem polonesa.

Segundo Grazyna Machalek da Embaixada da Polônia em Brasília, pelos dados da Polícia Federal Brasileira, no Brasil no total moram acerca de 700 cidadãos poloneses. Este número não inclui as pessoas que tem assim chamada ''dupla nacionalidade'' (são no mesmo tempo Brasileiros e Poloneses) que podem ser (no Brasil todo) algumas centenas (300 - 500 talvez).

Outro aspecto do assunto são os Brasileiros de origem polonesa. Não há estatísticas oficiais, considera-se que no total seriam entre um milhão e meio no Brasil todo, com a predominância nos estados sulinos (Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo). Os descendentes de Poloneses em Curitiba seriam um quinto da sua população, quer dizer uns 300 mil.

Segundo o Sr. Ulisses do site www.ui.jor.br acerca de dois anos mais ou menos, foi liberado sinal de satélite da TV
Polônia Internacional para o Brasil. Em São Paulo e Curitiba, alguns descendentes instalaram a parabólica e estão recebendo o sinal desta TV. Alguns polacos acessam pela internet a Radio Polska Online também.

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ENDEREÇOS E TELEFONES ÚTEIS:

Casa da Polônia
R. das Laranjeiras, 540

Consulado da Polônia no Rio de janeiro
Praia de Botafogo,242 – 9º andar
Tel. (0xx21) 2551-8088
Cônsul Geral Michal Zawila
Fax: (+5521) 2552-5093
e-mail: konsulatrj@terra.com.br OU riodejaneiro@polonia.org.br
Área de atuação:
Estados: Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco

Embaixada da Polônia no Brasil
Avenida das Nações, lote 33- Brasília – DF
Tel. (0xx61) 443-3438

Paróquia Pessoal dos Poloneses
Rua Marques de Abrantes,215 - Flamengo

ANEXO:

Números de colonos por sexo em 1876

COLÔNIAS

MASCULINO

FEMININO

TOTAL

ABRANCHES

235

197

432

PILARZINHO

x

x

x

SANTA
CÂNDIDA

135

131

266

ORLEANS

125

126

251

DON PEDRO

19

19

 

DON AUGUSTO

138

143

281

TOMÁZ COELHO

375

365

740

LAMENHA

385

361

746

SANTO IGNACIO

241

273

534

REVIERRE

199

207

406

FONTE: COLONIZAÇÃO. RELATÓRIO DO GOVERNO, LAM ENHA LINS DE 1876.

Colônias do Município de Curitiba em 1890

Nacionalidade

Masc

Fem

Solt

Casado

Católico

Sabem Ler

Não Sabem ler

Total

BRASIL

982

950

1921

16

1873

578

1364

7684

ITALIA

558

496

531

430

-

439

615

3069

POLLONIA

1118

987

1217

820

-

796

1309

6247

ALEMANHA

108

64

114

68

-

92

95

541

FRANÇA

41

28

49

18

-

28

45

209

DIVERSOS

58

36

62

28

84

34

60

362

FONTE: ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO PARANÁ (1890)


Autores: Carlos Felipe Teixeira da Silva e Tatiana Machado de Castro.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.

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