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Tradições que nem o Minho Guarda
A
Casa do Minho estende-se imponente no Cosme Velho, repleta de
histórias de um passado no qual os portugueses fugiam das
guerras e buscavam na entidade um consolo para matar as saudades
da pátria.
Fundada em 1924, a associação tem mantido, desde então, as
tradições do estado do Minho, como as danças folclóricas, a
sardinha frita - à portuguesa, com certeza - e a história de um
Portugal imponente, construído com o ouro das colônias que seus
patrícios aprenderam a amar. A saudade dos freqüentadores é
apaziguada com reuniões semanais, mas nenhum deles pretende
voltar a morar em terras portuguesas - a descendência é de
Portugal, mas a alma é brasileira.
Quando foi fundada, a Casa do Minho só permitia o acesso de
portugueses legítimos, e era localizada na Praça da Cruz
Vermelha. Nos anos seguintes, o Rio receberia um grande número
de Portugueses, muitos fugidos da obrigatoriedade de servir na
Guerra de Angola.
Meu pai não queria me ver perder quatro anos na Angola, então
vim para cá e fui ajudado por um tio - conta Manuel Félix
Igrejas, 76 anos, que faz parte do conselho da Casa do Minho.
Manuel foi um dos milhares de portugueses que viu em terras
brasileiras a oportunidade de se livrar as privações do campo.
- No dia que cheguei estava chovendo, aí tomei um susto, porque
se dizia que no Brasil não havia chuva. Não senti muita
diferença nas terras daqui ou de Portugal e logo no ano seguinte
procurei a Casa do Minho, onde me senti de novo em casa - narra
o português.
Manuel conta que a migração reduziu na década de 60, quando a
moeda portuguesa fortaleceu-se. Em 54 a comunidade ganhou mais
um centro de lazer, o Rancho Folclórico Maria da Fonte.
O rancho acaba de completar 50 anos e guarda a maior coleção de
roupas típicas portuguesas do mundo - conta o presidente da
casa, Agostinho do Santos. A partir da década de 70 a entrada de
brasileiros netos ou filhos de portugueses foi permitida. Há 10
anos foi permitido que qualquer brasileiro - descendente ou não
de portugueses - pudesse se filiar à casa.
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Hoje os grupos folclóricos são formados 95% por brasileiros, com
exceção dos veteranos, 40% portugueses e 60% veteranos. Se não
fossem os brasileiros a tradição já teria se perdido – declara
Agostinho.
A Casa se mantém através da contribuição dos associados, que
pagam cotas quadrimestrais, aluguéis das quadras e outros
ambientes, e principalmente com o lucro das festas realizadas
regulamente. No primeiro sábado de cada mês, uma legítima festa
portuguesa é oferecida aos cariocas. Possuindo o maior acervo de
roupas folclóricas da região, as comemorações conseguem
reproduzir as tradições do Minho de um jeito que a própria
região não mais consegue - ou não mais se interessa. A Casa do
Minho se transforma em uma verdadeira memória viva de costumes
em extinção.
As festas da Casa têm a autêntica sardinha portuguesa, vinhos
portugueses, caldo verde e broa de milho. Os shows são embalados
por concertinas e danças folclóricas. A principal comemoração é
a Festa da Nossa Senhora do Sameiro, padroeira do Minho -
detalha Agostinho.
Outras festas folclóricas clássicas são a 'Malhadas e
Desfolhadas', que reúnem todas as Comunidades Portuguesas do
Rio. A casa mantém boas relações com outras comunidades de
estrangeiros, como a Casa de Espanha e a Hebraica.
Sempre nos comunicamos para trocar experiências e organizar
festivais internacionais, além de buscar apoio e parcerias com
as outras associações portuguesas - conta Agostinho.
A relação com as outras comunidades dos patrícios, porém, não é
tão tranqüila.
Há muita competição em torno das festas e tradições, por isso
acho que não deveria haver tantas comunidades portuguesas, isso
evitaria disputas. Mas cada uma quer agir de um jeito - conta à
diretora artística do Rancho Juvenil, Julia Lima, 77 anos.
A
Casa possui três jornais, produzidos no Brasil, voltados para o
público português: O Mundo Português, A Voz de Portugal e
Portugal em Foco. Além disso, a revista Lusíadas e sites
portugueses são consultados todo o mês. A Voz de Portugal, em
formato tablóide, é exposto no mural da Casa, com muitas fotos
sociais dos eventos dos representantes do Minho. Sem sofrer as
influências das regras americanas e a imposição do lead, o
jornal narra, no melhor estilo ufanista, as últimas novidades
dos luso-brasileiros.
Internamente, o site da
Casa do
Minho é a maior fonte de informação para sócios e a
comunidade externa. O site divulga o calendário de eventos,
fotos das festas e um histórico completo da região do Minho e da
fundação da Sociedade. Em termos de comunicação impressa não há
revistas ou jornais produzidos pela entidade, apenas um
informativo impresso em formato A4 é produzido e entregue aos
sócios no início do mês. Em 96 foi lançado um vídeo sobre a
história da Casa.
A maior parte dos freqüentadores brasileiros tem raízes
portuguesas e cita o ambiente saudável e as atividades como
principais motivos para visitar a casa.
Um dia estava passando aqui em frente e vi uma festa animada.
Entrei para ver o que era e nunca mais saí. Há 19 anos sou
diretora e sempre convido novas pessoas, falo dos esportes e da
proteção que a casa oferece. Aqui os jovens estão seguros,
longes das drogas, por exemplo - conta Julia.
Outra atividade que atrai participantes são as festas religiosas
e as procissões.
As principais são as homenagens a São Pedro da Porta Aberta (que
tem esse nome porque sua igreja não tinha portas) e os sameiros
- detalha a diretora artística.
Apesar de todas as tradições e das saudades da terrinha, Julia
declara que não pensa em se mudar.
Eu não me adapto mais a Portugal, lá eu sou considerada
brasileira. Português que vem de fora não ganha de volta sua
nacionalidade – afirma. Ainda acrescenta que o português que
veio morar no Brasil perdeu a identidade: lá não se é português
e aqui não se é brasileiro.
No fim da entrevista, ela confessa que tem medo de que as
tradições não resistam.
Infelizmente não acredito que a casa vai se manter por mais que
dez anos. Os netos dos veteranos gostam do ambiente, mas depois
crescem e se afastam - prevê a diretora.
Mas talvez Júlia esteja apenas sendo pessimista. As tradições
são parte muito importante de uma cultura e o homem sempre quer
conhecer um pouco mais sobre seus antecessores. Além do mais,
com a hospitalidade portuguesa, regada a bolinho de bacalhau e
cerveja, é difícil não retornar a casa. Nem que seja apenas para
contar piadas de português e ouvir as versões dos brasileiros,
ou dançar o Vira-Vira.
Autores: Vivian Torres de Mello Rangel e Diego Paleólogo.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
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