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A Niterói Lusa
O
texto No Ritmo da Banda: História da comunidade Lusa da Ponta
D'areia faz um estudo
identitário, biográfico, histórico e cultural desse grupo de
descendentes portugueses que se estabelece em Niterói a partir
de 1920. O eixo do estudo é a banda portuguesa da cidade, que no
início da colonização representava um importante evento de
integração para a comunidade. Através de entrevistas e consultas
a documentos históricos o texto reflete sobre a construção da
memória do imigrante português na cidade de Niterói.
O grupo português do bairro de
Ponta D'areia se estabelece no local a partir de 1920 e
consagra-se por participar de trabalhos diversos, o que resulta
em uma disputa de vagas com os brasileiros. Mas, mesmo com tanto
trabalho pesado a ser feito, o início do século é descrito como
uma época de riquezas para os portugueses, considerados
trabalhadores, solidários, austeros e disciplinados. A
comunidade era a guardiã dos valores lusos da terra de além mar
e ficou conhecida como Portugal Pequeno.
A integração de projetos diversos
forjou a identidade dos imigrantes, dentro do conceito que
Gilberto Velho denomina Campo de possibilidades, o que significa
que as escolhas de cada indivíduo não são arbitrárias mas
determinadas pela dimensão sociocultural e por sua formação
pessoal. O imigrante, por sua vez, é estimulado o tempo todo a
reelaborar códigos culturais, como forma de defender sua origem
e demarcar a diferença para afirmar sua identidade, mas também
para reelaborar seus códigos culturais e construir sua nova
identidade étnica.
Niterói no
início do século
Niterói recebeu muito imigrantes
no início do século, para suprir a falta de mão-de-obra
resultante do fim da escravidão. Apenas para se ter uma idéia o
censo da década de 20 indica que 1/6 da população da cidade era
de imigrantes, a maior parte deles de portugueses.
A fundação da Sociedade
Beneficente Colônia Portuguesa acontece em 1904, no mesmo ano em
que o prefeito Paulo Alves começa a remodelar a cidade (a
exemplo do que aconteceu no Rio de Janeiro). A implantação de
esgoto e sistema de distribuição de água desagradou parte dos
moradores que foram realocados, mas que somada a ligação ao Rio,
feita através de barcas, aumentaram o fluxo de pessoas que
passam a circular pela cidade.
Muitos imigrantes portugueses
vieram ao Brasil para escapar do serviço militar. Outros fugiam
da má situação do país europeu e se apoiavam na comunidade com a
esperança de encontrar um emprego.
Época de
ouro de Ponta D'areia
Logo nos primeiros anos de
ocupação da comunidade, importantes construções, guardiãs da
memória lusa, ajudam a consolidar a ocupação portuguesa. A
importância para os imigrantes e para a própria cidade de
Niterói do Centro musical beneficente, a Igreja de Nossa Senhora
de Fátima e do Hospital Santa Cruz, são evidentes. Esses espaços
consolidam a imagem do grupo imigrante na cidade e reúnem outros
conterrâneos que moram fora do bairro.
Ponta d´areia é descrita como um
bairro calmo, tranqüilo, onde comia-se e vivia-se bem. O grupo é
visto como coeso e unido. O bairro é formado por um grupo de
casas que lembra muito uma aldeia portuguesa, com casas
espalhadas entre o morro da Penha e o mar. O crescimento do
bairro do início do século é fomentado pelos estaleiros que
empregavam muitos imigrantes na atividade naval e pesca, com
portugueses trabalhando como ferreiros, torneiros, carpinteiros
e calafates.
Outra importante influência foram
os negócios do Barão de Mauá, que dá nome a principal rua de
Ponta d´Areia. O estaleiro montado pelo barão possuía tubos de
ferro para água e gás, armamento em bronze e navios que
empregavam mais de mil operários. A Companhia de Comércio e
Navegação também foi um importante pólo de empregos, com
predominância de mão-de-obra lusa e ponto de encontro de
portugueses em busca de uma nova vida.
Os portugueses que migravam vinham
em busca da idéia de modernização e urbanização como uma vida
melhor que as longas privações impostas pela vida no campo. A
maior parte dos imigrantes relata abundância de comida e
recursos, uma vida melhor, embora não neguem condições precárias
nas ilhas da região e extração de carvão. Os estabelecimentos
comerciais cresceram entre 1920 e 1930, dominados pelos
portugueses.
Memória
afetiva X dados históricos
Embora a memória dos anos dourados
de vários membros da comunidade lusa raramente seja marcada por
incidentes negativos, uma pesquisa histórica revela que o bairro
não vivia sem conflitos. No jornal O Fluminense, o bairro é
identificado como perigoso cenário de crimes e brigas
constantes. Os moradores se referem ao ambiente familiar e clima
idílico, enquanto as partes obscuras são relatas em voz baixa,
omitidas ou negadas.
Os portugueses que não
freqüentavam as atividades sociais promovidas pela comunidade
eram considerados perdidos. O grupo não perdoava quem não se
submetesse aos códigos sociais vigentes, como freqüentar a
missa. "Os moradores excluem do bairro todos aqueles que não se
enquadram na comunidade portuguesa do modelo que desejam afirmar
e lembrar." Os relatos revelam as ambigüidades entre a
comunidade paraíso dos ancestrais e uma realidade histórica – a
presença de prostitutas por exemplo, é confirmada, mas nenhuma
delas é tida como parte da comunidade ou moradora no bairro.
Banda
portuguesa
A primeira forma de integração da
comunidade lusa no Brasil foi o assistencialismo com a fundação
da Igreja Nossa Senhora de Fátima, do Hospital Santa Cruz de
Beneficência Portuguesa e do Centro musical, construídos com
recursos conseguidos através de eventos beneficentes. O
atendimento exclusivo aos patrícios nunca foi uma exigência
nessas instituições.
A motivação para as construções
pode ser explicada objetivamente, em razão das necessidades e do
vazio de espaços em que se encontravam e subjetivamente pelo
sentimento de não-pertencimento ao novo país.
A Banda foi fundada para organizar
as farras musicais que já aconteciam nos momentos de folga e
antecedeu a formação do Centro Musical, a primeira forma de
associação da comunidade lusa do Centro musical. O estuda da
organização interna do Centro musical e a disputa pelo controle
da Banda é escolhida pelo autor do texto, para exemplificar, as
transformações por quais passou a comunidade portuguesa da Ponta
d'Areia – uma metáfora que reflete a passagem dos anos dourados
para os conflitos.
Ascensão e
queda
O Centro musical foi organizado pelos comerciantes de Ponta
d´areia e contou com o apoio do vice-cônsul de Portugal da
época, para levantar os recursos necessários, sendo inaugurado
em maio de 1929.
O perfil do associado era
restritivo: ele deveria ser preferencialmente português. Em caso
de ter outra nacionalidade, o candidato deveria ser apreciado
pela diretoria, que não contava com nenhuma representante do
sexo feminino. Os cidadãos "beberrãos, de aspecto ruim ou com
moléstia contagiosa" estavam terminantemente proibidos de
freqüentar o local. Além disso, era necessário usar terno e
gravata em ocasiões festivas. Os candidatos a sócios passavam
ainda por um período de teste, acompanhados por um tutor da
banda, que seria responsável pela boa conduta do indicado.
Por outro lado, a entidade tinha
obrigação de prestar auxílio aos associados em caso de doença,
desemprego, funeral e etc, desde que as necessidades fossem
atestadas pela diretoria.
Mas mesmo com toda essa
característica de união, os conflitos na organização não
tardaram. O primeiro deles foi causado por um grupo de sócios
que apoiou o maestro Joaquim Tavares, numa disputa de poder
interna, e aparece registrado nos documentos como Rebelião
Vermelha. A disputa de poder provocou o afastamento do maestro,
readmitido meses depois com plenos poderes, e aumentado o número
de músicos de 10 para 45. A análise dos documentos indica que
ocorreu um descontentamento em relação a divisão da renda,
porcentagem acertada na volta do maestro. A briga foi um duro
golpe financeiro na instituição, que teve que arrecadar uma
contribuição muito maior com o grupo de associados. No fim dos
anos 80 outro acontecimento provocou a discórdia do grupo, com a
saída do maestro Moisés Pitta.
A briga é um verdadeiro tabu, a
comunidade parece ter conseguido criar um consenso em torno dos
valores que delimitam as fronteiras do grupo, como o desapego ao
dinheiro e a solidariedade entre os patrícios - valores que os
protegem de uma possível desestruturação, mas que não
correspondem à realidade, como revelam os conflitos.
O conflito com o maestro Pitta,
não teve um resultado benéfico, como no caso do maestro Tavares,
que voltou a comunidade e é considerado um herói, um modelo
sobre qual a comunidade construiu suas crenças. Moisés se tornou
persona non grata e é visto como o ícone da decadência da
comunidade. A polarização entre os antigos fundadores da
comunidade e os jovens também fica evidente nesse paralelo de
conflitos.
Segundo os documentos encontrados,
a necessidade de afirmar a diferença entre as nacionalidades é
uma constante, embora não seja expressa pelos moradores. "O
imigrante luso precisa reforçar sua imagem de trabalhador
moderno, urbano e capaz de trazer ordem e progresso para a nova
pátria." As mulheres, por sua vez, só assumem cargos na
diretoria, a partir de 1947 e nunca puderam participar da banda,
compondo o grupo de músicos. Essa atribuição sempre foi
privilégio de homens brancos.
O racismo é assim uma questão
evidente, mas bastante complexa. Ao mesmo tempo em que os
imigrantes afirmam que os negros formavam uma espécie de
família, eles precisavam se diferenciar radicalmente do
trabalhador negro para construir sua própria identidade - a do
trabalhador disciplinado ao europeu que vinha contribuindo com
disciplina e modernidade.
Ao longo das décadas iniciais do
século 20 a comunidade lusa afirma sua identidade pela
reivindicação de espaços específicos, como alguns bairros e
instituições, demarcando assim sua nacionalidade no Brasil. "O
ser português é determinado por valores como a religiosidade,
neutralidade política, o trabalho desinteressado, a humildade e
a filantropia, enquanto transforma-se em brasileiro poderia
representar até mesmo a perda dessas virtudes". O conflito
interno da comunidade reflete mais do que a disputa econômica,
mas revela a própria construção da identidade lusa e a mudança
que ela sofre a partir do processo da segunda geração de filhos
de portugueses nascidos no Brasil.
O bairro
hoje
O bairro de Ponta d´areia está
bastante descaracterizado, sua banda está desativada e grande
parte das famílias, sentindo a "invasão de não pertencentes as
comunidades" se mudou. Mesmo assim, o rótulo de Portugal Pequeno
continua, com transformações urbanas e um progresso que não foi
bem aceito pelos imigrantes "pois afetou a convivência
familiar", que aconteceu principalmente após a década de 50. O
progresso aparece com mensageiro da fragmentação do núcleo
familiar, que teria sido garantia de paz, harmonia e segurança.
Por um lado, os estaleiros passam
a oferecer aos trabalhadores os serviços antes prestados pelo
comércio do bairro, por outro, a diminuição da imigração foi
minando o próprio crescimento da comunidade. O prédio Musical
continua sendo o símbolo máximo da comunidade. O auge da reunião
da comunidade acontece ainda por motivos religiosos - a
procissão de Nossa Senhora de Fátima.
Paradoxalmente, os tempos idílicos
da comunidade se assemelham a uma colônia portuguesa perdida no
meio urbano do Rio de Janeiro, mas são considerados o exemplo da
modernidade no século 20 - impossíveis de serem revividas na
atualidade. A nostalgia parece surgir sobretudo em relação à um
tempo onde existiam poucos obstáculos para se conquistar alguma
coisa - onde a colônia representava uma casa onde se conservavam
valores e proteção e sempre se podia contar com algum padrinho
mais bem situado. Oportunidades que hoje encontram-se
fragmentadas e perdidas pela cidade grande.
[GOMES, Ângela de Castro.
Histórias de Imigrantes e de Imigração no Rio de Janeiro. RJ:
7Letras, 2000]
Outras
fontes:
Site Notícias Lusófonas:
http://www.noticiaslusofonas.com/
Site dedicado a toda a comunidade
de língua portuguesa, com notícias sobre exposições culturais,
economia e cultura.
Sapo – Portal Português
http://imigrantes.no.sapo.pt/page6Cont.html
Instituto Camões
http://www.instituto-camoes.pt/actividades/estudos/realgabrj.htm
Gabinete de Leitura Portuguesa no Rio
http://www.realgabinete.com.br/
Comunidades Portuguesas pelo mundo
http://lusoplanet.free.fr/comu.htm
Comunidade Portuguesa
http://www.casadeviseu.cjb.net/
Comunidade Açoreana
http://casadosacores.vilabol.uol.com.br/
Autores:
Diego Paleólogo e Vivian Rangel.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
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