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Leituras no
Império |
Análise |
Povo Unido...
Eliane Eufrásio Vieira
Globalização
é a palavra da nova ordem mundial. O mercado rompeu as
fronteiras locais, o Estado perdeu, ou teve deslocado, seu
poder político, a massa trabalhadora foi expulsa das fábricas
e viu crescer diante de si uma nova relação de trabalho
imposta pelo capital, acirrando os mecanismos de dominação
exploração. Este período é caracterizado como sendo a passagem
da sociedade disciplinar para a sociedade de controle.
Historicamente as organizações e movimentos de trabalhadores
têm se valido de instituições políticas e sociais legitimadas
pelo Estado na luta por direitos e em busca da superação do
sistema. A criação de sindicatos, partidos de trabalhadores e
movimentos populares foram meios pelos quis exerceram
influência na criação de normas sociais sancionadas pela lei,
o que garantia paulatinamente condições de participação ativa
na constituição de seu Estado.
Mas já
estamos em outro momento. O Imperialismo ruiu na mesma
velocidade em que se ergueu um gigantesco organismo do qual
nada nem ninguém está do lado de fora e todos os lugares
encontram-se agrupados em um "não-lugar" geral, uma força
intangível que permeia a política, economia e todas as esferas
da vida humana - o Império.
Segundo os
autores Antonio Negri e Michael Hardt, a passagem do governo
disciplinar para o de controle foi uma reação do capitalismo à
rejeição em massa dos trabalhadores à exploração e às
subcondições de trabalho. Esse movimento de recusa dos
trabalhadores fez emergir uma nova subjetividade, uma
configuração do modo de trabalho caracterizada por lutas
pontuais e globais contra a exploração do trabalho e pela
qualidade do tempo de não-trabalho. Ainda segundo os autores,
a multidão é responsável pela transformação e derrubada do
Império. Nos séculos XIX e XX, essa massa de mão de obra
explorada pelo capital era reconhecida facilmente - um mesmo
modo de vida, condições de subordinação em comum, espaço
dividido nas fábricas e nos cortiços fora delas... Hoje, o
trabalho é imaterial, o espaço de convivência evaporou-se, o
tempo e o local de trabalho são "flexíveis", dificultando o
poder de articulação dessa multidão. Como, então, se reconhece
essa massa de trabalhadores espalhada por todos os
continentes? Qual é a cara da multidão?
No início da
industrialização as formas de luta eram direcionadas a
instituições concretas: o governo, as fábricas, e a
resistência do proletariado obrigou o capital, em determinados
momentos a atender demandas, como um espaço para sua expressão
na constituição das leis, participação em (algumas) decisões
políticas, e outras medidas para "civilizar" o capital,
garantindo os meios básicos de subsistência da força de
trabalho.
O capitalismo
reage a esses movimentos para absorver e controlar as novas
expressões de subjetividade do trabalhador. Já no final do
século XX, crises como a dos anos 60/70, mostram que mudanças
adotadas pelo grande capital estão diretamente ligadas à
reações proletárias contra a dominação e exploração. O capital
só se modifica para continuar mantendo a ordem. Vê-se obrigado
a adotar novos paradigmas para manter o comando quando há um
momento de reação criativa do proletariado. Segundo Nietzsche,
acontece uma "transvaliação de valores", o capital muda porque
o proletariado inventa meios de manifestação e afronta ao
capital, ameaçando seu poder.
Emerge,
então, como reação à essa nova expressão subjetiva de trabalho
um novo tipo de dominação, onde o tempo e o espaço são
virtuais. A nova força de trabalho é baseada na permuta
contínua de informação e conhecimento. A tecnologia se tornou
parte do cérebro de trabalhador, submetendo-o à sua lógica,
desarticulando as organizações trabalhistas de forma a
individualizá-lo, impedindo a luta coletiva contra a dominação
capitalista.
A queda dos
Estados-Nação implica na mobilidade de trabalhadores e
instituições por todo o globo. Países pobres se instalam nos
ricos como guetos, e países ricos se espalham pelo mundo
através de instituições financeiras que transformam em lucro a
pobreza e o atraso dos países subdesenvolvidos, agravando,
dessa forma, as diferenças sociais existentes ali. O
trabalhador, ao mesmo tempo que é livre para circular por todo
o globo, carrega dentro de si a dominação que lhe foi imposta
pelo sistema capitalista de produção.
A chamada
Sociedade de Controle é um passo além da Sociedade
Disciplinar. Não que esta tenha deixado de existir, ma foi
expandida para o campo social de produção. Segundo Foucault, a
disciplina é interiorizada. Esta é exercida fundamentalmente
por três meios globais absolutos: o medo (através da
comunicação), o julgamento (onde o dinheiro é o árbitro), e
destruição (figurada na bomba). Logo, com o colapso das
antigas instituições imperialistas os dispositivos
disciplinares tornaram-se menos limitados. As modernas
instituições sociais produzem indivíduos sociais muito mais
móveis e flexíveis dos que antes. Essa transição para a
Sociedade de Controle envolve uma subjetividade que não está
fixada em identidade, é híbrida e modulada. O indivíduo não
pertence a nenhuma identidade e pertence a todas. Mesmo fora
do seu local de trabalho, continua sendo intensamente
governado por sua lógica disciplinar. A configuração dessa
força de trabalho dentro do Império pode ser governada em
linhas internacionais, pois a disciplina está implícita.
Porém, a capacidade de autonomia desterritorializada dessa
multidão tem o potencial de ser transformada numa massa
autônoma de produtividade inteligente, passível de derrubar
essa dominação que permeia produção, troca, consumo e
comunicação. Prevenir isso é a principal tarefa do governo
imperial.
Logo, a
constituição do Império depende, para sua própria existência,
das forças que apresentam ameaça e as forças autônomas de
cooperação produtiva. Seus poderes precisam ser controlados,
mas não destruídos.
É nesse
imenso emaranhado de forças e domínios que surgem brechas para
a multidão derrubar o Império. Tecnologias de comunicação,
como Internet, fibra ótica... permitem fluxos de informações
em tempo real de e para qualquer parte do globo. As mídias,
controladas por servidores do grande capital são passíveis de
serem permeadas por vozes que representem a multidão. A mídia
alternativa também está ao alcance daqueles que buscam uma
forma de expressão - rádios e tvs comunitárias pipocam por
todos os lados, possibilitando ações locais.
Resumidamente, o espaço e as formas de luta podem, mesmo com
dificuldade, serem delineadas pelos que buscam a superação do
atual sistema. Mas, como reconhecer a multidão responsável por
isso? Essa manifestação de subjetividades tão diferentes pode
também ser delineada? Existe um interesse em comum - derrubar
o Império, instaurar uma nova organização social justa,
igualitária.
Podemos
identificar alguns componentes dessa multidão - trabalhadores,
grupos e movimentos que lutam contra o preconceito,
discriminação, em prol da natureza, partidos políticos. Seria
possível acabar ou "dar uma pausa" nas guerras dos países
islâmicos em prol de um interesse maior? As organizações não
governamentais e espontâneas da sociedade conseguirão se
articular em direção a uma luta conjunta para a derrubada do
império e a constituição de um novo sistema? O que dizer de
Cuba, China e outros países que ainda têm no comunismo real
sua única visão de mundo?
Marx, já no
século XIX, mostrou a direção certa: "Proletários de todo o
mundo, uni-vos!". Hoje, esse "proletariado" não é mais
uniforme, as fábricas não são mais espaços de articulação
porque o contingente de trabalho migrou do setor secundário
para o terciário. O trabalhador está isolado em sua luta
frenética e solitária pela sobrevivência. Os movimentos de
resistência pipocam aqui e acolá. Atitudes como o Fórum Social
Mundial são um passo a frente na tentativa de articular essa
multidão amorfa que corre em todas as direções gritando por
liberdade em diferentes línguas.
Como
legitimar todas essas manifestações? Como articular
subjetividades diferentes e canalizar seus esforços numa única
direção? Que ferramentas utilizarão para transpor o sistema?
Quais as propostas para um novo mundo?
Essas e
outras questões perturbam os que lutam pela mudança, mas não
possuem uma referência (local ou global) para organizar essas
pequenas erupções de subjetividades tão diferentes e até
antagônicas, em um grande e poderoso vulcão. Uma multidão que
erga uma única bandeira em rejeição absoluta ao Império,
destruindo suas raízes mais profundas.
A História caminha rápido. Tão rápido que pode não deixar
tempo para soluções que demandam tanta engenharia para, enfim,
atuar. As possibilidade de superação existentes hoje podem
estar bloqueadas amanhã pela "inteligência imperial".
Mas lembremos
que quem move a história é o proletariado, a multidão. O
capitalismo só se obriga a mudanças em resposta os ataques dos
reprimidos pelo sistema numa atitude quase instintiva pela
sobrevivência. A nós cabe articular uma ação que elimine
qualquer possibilidade de reação do Capital. Conseguiremos?
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