Choques da Civilização

Análise

O Desvanecimento do Ocidente: Poder, Cultura e Indigenização

O PODER OCIDENTAL: PREDOMÍNIO E DECLÍNIO

Há duas imagens contemporâneas sobre o Ocidente (em relação a outras civilizações):

— a de um “predomínio avassalador” sobre as outras civilizações, hegemonia, e a tendência à formação de uma Civilização “Universal”

— e a do “declínio”, da exaustão pós-Guerra Fria, problemas internos, perda de poder econômico, em diminuição quantitativa (população, território) e qualitativa (produção, influência cultural) em relação às demais.

Como única superpotência após a Guerra Fria, os Estados Unidos dividem o poder político-militar mundial com o Reino Unido e a França e o poder econômico mundial com a Alemanha e o Japão. “O Ocidente é a única civilização que tem interesses substanciais em todas as outras civilizações ou regiões e tem a capacidade de afetar a política, a economia e a segurança de todas as outras civilizações ou regiões”. Ítens que comprovam esse poder são os fatos de que as nações ocidentais:

• São donas e operadoras do sistema bancário internacional

• Controlam todas as moedas fortes

• São o principal cliente do mundo

• Fornecem a maioria dos bens acabados do mundo

• Dominam os mercados internacionais de capitais

• Exercem considerável liderança moral dentro de muitas sociedades

• São capazes de maciça intervenção militar

• Controlam as rotas marítimas

• Realizam a maior parte da pesquisa e desenvolvimento de tecnologia de ponta

• Controlam o ensino técnico de ponta

• Dominam o acesso ao espaço

• Dominam a indústria aeroespacial

• Dominam as comunicações internacionais

• Dominam a indústria de armamentos de alta tecnologia

A segunda imagem, o declínio do Ocidente, é de um processo originado da exaustão pós-Guerra Fria. Está caracterizada por três aspectos:

— é um processo lento (se ascensão do Ocidente levou cerca de 400 anos, o declínio também levará o mesmo ou mais). O auge do poder ocidental ocorreu por volta de 1900 e o declínio se estendeu ao longo de todo o século XX.

— não é regular nem estável (o declínio pode sofrer pausas, inversões e reversões). As sociedades abertas do Ocidente têm uma alta capacidade de renovação, além de estaram polarizadas em dois núcleos principais de poder: Europa e EUA.

— diminuição do poder de mudar o comportamento alheio (por indução, coerção, exortação)

São indícios dessa decadência a ascensão econômica e militar acelerada da China; a iminência da decolagem econômica da Índia; a hostilidade crescente do mundo islâmico para com o Ocidente; e a diminuição da disposição de outras sociedades em aceitar os ditames políticos e econômicos ocidentais.

Há também as causas internas nos países ocidentais, como o lento crescimento econômico; o desemprego, enormes déficits públicos; uma ética de trabalho em declínio; baixas taxas de poupança; desintegração social; drogas e criminalidade.

Aspectos Quantitativos do Declínio do Ocidente

Território e população: de ocupando 48,5% da superfície planetária, passou para para 24,2%, em 73 anos (outras civilizações aumentaram, com exceção da América Latina); de 48% da população mundial para 13%, no mesmo período (outras civilizações aumentaram, exceto Ortodoxa e Sínica)

Produto econômico: da Revolução Industrial, que aumentou a produção de 18% para 31% entre 1750 e 1830, chegou ao ápice em 1928 (véspera crise) com 84%, e caiu pra 57% em 1980; China e Japão aumentaram a produção em números absolutos (ainda que a porcentagem tenha despencado)

Capacidade militar: quatro dimensões (qualitativa, tecnológica, organizacional, societária); o Ocidente estava muito à frente das outras civilizações em 1920, mas estas aceleraram em muito sua modernização e ampliação da força bélica e militar; ao mesmo tempo, o Ocidente reduziu drasticamente gastos com material de defesa após a Guerra Fria.

Aspectos Qualitativos do Declínio do Ocidente

De forma geral, os anos pós-Guerra Fria foram dominados por cinco tendências principais na evolução da capacidade militar no mundo:

— fim das Forças Armadas da URSS, como potência integrada e espalhada (reduziu e reconcentrou o poder bélico)

— fim da “ameaça vermelha” fez cair também os gastos com defesa no Ocidente, já que diminuía a justificativa para o armamentismo

— nações da Ásia Oriental (mesmo países mais pobres) compraram a sucata militar da URSS e do Ocidente
— o desenvolvimento econômico e tecnológico de Terceiro Mundo, ainda que lento, possibilita maior armamento, inclusive não-convencionais (compensam: mais baratas e ameaçadoras)

— regionalização: não há mais capacidade militar global (além dos EUA); poderes militares são concentrados em áreas estratégicas das civilizações.

“Em resumo, de forma geral, o Ocidente considerará sendo a civilização mais poderosa até bem adiante nas primeiras décadas do século XXI.” Até lá, é provável que continue à frente das demais civilizações em aspecto científico, tecnológico civil e militar. Mas o controle de outros meios de poder está se difundindo em outros núcleos civilizacionais não-ocidentais. O Ocidente tinha poder absoluto global em 1919/1928, mas hoje é forçado a dividir esse poder com outros Estados e outras civilizações. Assim reascendem culturas não-ocidentais.

INDIGENIZAÇÃO: O RESSURGIMENTO DAS CULTURAS NÃO-OCIDENTAIS

“A distribuição das culturas pelo mundo reflete a distribuição do Poder. (...) Uma civilização universal requer um poder universal.” O crescente poder das sociedades não-ocidentais produzido pela modernização está gerando um renascimento das culturas não-ocidentais pelo mundo afora.

A “Indigenização” seria um processo que identificado como retorno dos valores nativos de um país descolonizado, contra os Ocidentais, geralmente promovido por camadas médias urbanas, as “segundas gerações” de cidadãos nacionalistas pós-independência.

O cenário atual não é o de estabelecimento de uma cultura/civilização universal liderada pelo Ocidente, mas sim do ressurgimento de valores “nativos” que se oponham aos valores ocidentais.

Distinção “poder duro” x “poder suave” (cultura & ideologia atraentes): poder duro seria o poder exercido à força, baseado no domínio militar e político-econômico de uma sociedade sobre outra, com uso de coerção, chantagem etc.. O poder suave seria o poder atraente, bem-vindo pela sociedade dominada por admirar a cultura e/ou a ideologia da sociedade dominadora. Mas a cultura e a ideologia são atraentes quando fundamentadas no sucesso material e na influência. “O poder suave só é poder quando se apóia numa base de poder duro.” Decréscimos de poder econômico e militar conduzem à dúvida sobre si mesmo e diminuem a capacidade de influenciar os outros.

A União Soviética atraiu muita gente enquanto a economia e o poder militar soviéticos eram crescentes, mas essa atração se evaporou quando a economia soviética estagnou e se tornou incapaz de sustentar o poderio militar soviético.

Diminuiu o poder do Ocidente para impor seus valores e atrair pessoas para eles. Antes, o Ocidente era objeto de admiração e imitação por aqueles que queriam modernizar seus países (por exemplo, a reforma de Mustafá Kemal/Atatürk na Turquia). Os não-ocidentais mudaram o discurso: antes usavam democracia e valores ocidentais pra legitimar seus interesses, e agora “cospem no prato que comeram”, usando seus próprios valores nativos pra se afirmar.

Há exemplos de reformadores “indigenistas” no Paquistão (Mohammed Ali Jinnah/Quaid-i-Azam), Singapura (Lee Kuan Yew) e Sri Lanka (Solomon Bandanaraike). Em cada caso, são filhos da segunda geração a partir da independência do país, de origem nas classes médias urbanas que, graças à modernização pró-ocidental na época da independência, tiveram oportunidade de se educar nos sistemas ocidentais e, mais tarde, renegaram-no.

“A indigenização passou a ser a ordem do dia em todo o mundo não-ocidental das décadas de 1980 e 1990.” Ressurgimento do Islã nos países muçulmanos, hinduização da política e da sociedade na Índia, promoção do Confucionismo na Ásia Oriental, a Nihonjinron no Japão, ameaça de Jironovsky na Rússia. “A indigenização é beneficiada pelo paradoxo da democracia: a adoção pelas sociedades não-ocidentais das instituições democráticas incentiva e dá acesso ao poder a movimentos nativistas antiocidentais.”

O resultado desse processo é uma mobilização popular contra as elites de formação ou orientação ocidentais. Na Argélia, na Índia, no Sri Lanka e na África do Sul, por exemplo, os movimentos políticos indigenistas alcançaram poder por via eleitoral.

Durante muito tempo até o século XIX, outras civilizações do mundo sentiam auto-confiança em seus próprios valores e realizações e desprezo pela inferioridade cultural, institucional e moral do Ocidente. Na medida em que os êxitos do Ocidente se desvanecerem, essas atitudes tenderão a reaparecer.

LA REVANCHE DE DIEU

Até meados do século XX, as elites intelectuais pressupunham que a modernização econômica e social levaria à diminuição da importância da religião nas sociedades. Concordavam com isso tanto os que viam esse fato como positivo quanto os que o viam como negativo. Os secularistas modernizadores aplaudiam o racionalismo/ciência/pragmatismo tomando lugar ao irracionalismo/mito/superstição das religiões. Por outro lado, os conservadores alertavam para as conseqüências morais do desaparecimento das religiões. “O resultado final seria a anarquia, a depravação e o solapamento da vida civilizada.”

A segunda metade do século XX provou que tanto essas esperanças otimistas quanto os receios pessimistas não tinham fundamento. A modernização econômica e social foi paralela à revitalização da religião — chamada por Gilles Kepel de la revanche de Dieu. Em meados da década de 1970, a tendência à secularização se reverteu. O novo enfoque pregava não mais adaptar a religião aos valores seculares, e sim recompor alicerces sagrados para a organização da sociedade (“não mais modernizar o Islã, mas islamizar a modernidade”), advogando o afastamento de um modernismo que tinha fracassado e atribuindo os problemas contemporâneos da sociedade ao distanciamento de Deus.

Parte dessa revitalização religiosa deveu-se à expansão de religiões novas; porém a maior parte do fenômeno foi causada pelo retorno das comunidades às suas religiões tradicionais, revigorando e dando novo significado a elas (Cristianismo, Islamismo, Judaísmo, Hinduísmo e Budismo). Houve surtos de engajamento por fiéis que antes eram apenas praticantes ocasionais.

Em todas essas religiões, houve nascimento de movimentos fundamentalistas, que podem até ter impacto político significativo e espetacular, mas são apenas ondas da maré religiosa, mais ampla e fundamental, que está dando um formato diferente à vida humana no final do século XX.

A relevância da religião pôde ser notada de forma mais evidente nos países ex-comunistas, pois foram varridos por uma revitalização religiosa que preencheu o vácuo deixado pelo desmoronamento da ideologia. Na Rússia e na Ásia Central, igrejas foram reabertas e passaram a ser locais muito freqüentados — um movimento cultural de maiorias, com uma base extremamente ampla.

Duas “clientelas” são origens da nova massa de seguidores do ressurgimento religioso: as populações recém-urbanizadas provindas de migração (êxodo rural) ou industrialização acelerada, que buscam reafirmação de identidade e orientação emocional/social/material; e as camadas médias urbanas, mesmos protagonistas da indigenização, predominantemente jovens com bom nível de instrução.

Causas que podem explicar o ressurgimento religioso mundial são:

— justamente os processos de modernização social, que deslocaram pessoas para centros cosmopolitas e puseram em xeque suas identidades, demandando por isso novos laços de estabilidade comunitária, aos quais a religião responde.

— o fato de religiões tradicionalmente dominantes não satisfazerem as necessidades emocionais e sociais de determinadas realidades, sendo substituídas por outras que atendessem melhor aos novos questionamentos (ascensão do Cristianismo na Coréia do Sul e do Protestantismo na América Latina, bem como as correntes fundamentalistas entre os islâmicos).

— o recuo do Ocidente e o fim da Guerra Fria, que tinham exportado o liberalismo e o socialismo como ideologias para o resto do mundo, mas que após suas respectivas decadências, deixaram um vácuo ideológico. “Na ausência de novas divindades seculares atraentes, voltam-se com alívio e paixão para o que é religião de verdade.”

De modo mais amplo, o ressurgimento religioso em todo o mundo é uma reação contra o secularismo, o relativismo moral e a auto-indulgência. De forma geral, constata-se que, sempre que houve um conflito, la revanche de Dieu ganhou da indigenização: caso das necessidades religiosas da modernização não possam ser satisfeitas por suas crenças tradicionais, as pessoas se voltam para importações religiosas que proporcionem satisfação emocional. Os movimentos de revitalização religiosa são anti-seculares, anti-universais e, com exceção de suas manifestações cristãs, antiocidentais. Além disso, se opõem ao relativismo, ao egoísmo e ao consumismo, associados com o “modernismo”.

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