OS 5 FILHOS DE GABRIEL:Família foge da guerra e agora enfrenta a
seca do semi-árido nordestino sob programa da ONU. Por Fabiano
Maisonnave, enviado especial a Lajes (RN), 6/11/2005
"Só se esqueceram de falar que não tinha água aqui", afirma o
refugiado colombiano Gabriel Mejia Zuluaga sobre Lajes, a
pequena cidade onde vive há um ano e cria sozinho seus cinco
filhos, em pleno semi-árido potiguar. "E o dinheirinho é pouco.
Mas vale a pena pela tranqüilidade." Tranqüilidade foi o que
Gabriel, 35, não teve nos últimos quatro anos: deixou para trás
o cada vez mais violento conflito armado colombiano, a ex-mulher
e a xenofobia equatoriana.
Hoje, dentro do programa de reassentamento de refugiados
colombianos no Brasil do Acnur (Alto Comissariado da ONU para
Refugiados), tenta plantar no semi-árido, prepara o casamento
com uma professora da escola onde os filhos estudam e conquistou
o respeito da cidade, onde é chamado de "colombiano" ou
"boliviano" e descrito como inteligente, bom pai e conversador.
Com Gabriel, vieram: Judy Carine, 11, Luiz Carlos, 9, José Luis,
7, Juan David, 6, e o caçula, Santiago, de quatro anos. "O que é
preciso para ser um bom pai?", pergunta Gabriel para a mais
velha no almoço em casa, onde o número de cadeiras é menor que o
de crianças. A resposta: "Amor, comida e cinto". O colombiano
ri, satisfeito.
À primeira vista, é difícil distinguir os únicos moradores
estrangeiros dos demais 10 mil habitantes de Lajes, distante 130
km a oeste de Natal. O sol onipresente e o calor seco já
curtiram a pele de todos. As crianças falam entre si em
português arretado -a mais velha só chama Gabriel de "painho"- e
a casinha onde moram, de quatro cômodos e sem forro, não se
diferencia da vizinhança. O mimetismo da família só é traído
pelo portunhol de Gabriel. "Ele entende o que eu falo, mas eu
não entendo. A menina é que tem de traduzir", diz Roseane
Cristina, 17, que, por um salário de R$ 100, cuida da casa e da
prole. O estranhamento mesmo a família teve com a falta de rio
para banhar. Carine conta que, certa vez, a família tentou
entrar na piscina de um clube da cidade, mas a taxa de R$ 150
era alta demais.
Da Amazônia ao sertão
A história dessa grande família começa em Villagarzón, no
Departamento de Putumayo, região da Amazônia colombiana com
forte presença das Farc e grande produtora de coca. Gabriel, que
diz ser formado em engenharia e ter estudado agronomia e
veterinária, aponta dois motivos para abandonar a cidade natal.
Segundo ele, com a implantação do Plano Colômbia, em 2000, o
governo começou a fumigação aérea das plantações de coca com
glifosato. O veneno, porém, não atingia só a coca. Gabriel conta
que o glifosato matou as plantações e a criação de peixes que
mantinha em sua fazenda de 50 hectares -reclamação bastante
comum nessa região. Além disso, os aviões eram escoltados por
helicópteros, que trocavam tiros com as Farc.
"Na escola, quando os aviões passavam, os professores levavam a
gente para um buraco embaixo da escola. Ficávamos quietinhos,
agachados, até acabar a guerra", lembra Carine, dona de um
caderno escolar caprichado e responsável por parte das tarefas
da casa, como ajudar na preparação da comida e limpar a louça.
Mas Gabriel resolveu deixar mesmo a Colômbia depois que a sua
ex-mulher o trocou por um homem ligado às Farc. "Depois, um dia,
me ligaram ameaçando pegar as minhas crianças. Aí resolvi ir
embora para o Equador."
No país vizinho, Gabriel trabalhava construindo casas de
madeira. Mas a hostilidade dos equatorianos contra a crescente
população colombiana e os conselhos de uma freira brasileira,
Inês Faccioli, o convenceram a se inscrever no programa de
reassentamento do Acnur para o Brasil, após três anos no
Equador. Foi no final de novembro de 2004, após uma longa viagem
com escalas em Lima, São Paulo e Natal, que os seis chegaram a
Lajes. "A cidade foi escolhida pela entidade anterior, que tinha
contatos na cidade", explica Aluízio Matias, da ONG Centro de
Direitos Humanos e Memória Popular, que desde julho administra o
programa de reassentados no Rio Grande do Norte por meio de um
convênio com o Acnur. "Também pesou o perfil rural dele."
Ao chegar a Lajes, com ajuda do Acnur, Gabriel comprou uma casa
por R$ 6.000 e uma moto, por R$ 5.000. O fato de ser estrangeiro
e o investimento, claro, geraram muita desconfiança. "Foi a
manchete da cidade", diz a dona Fátima, da farmácia Santa Clara.
"Todo mundo queria encostar nele para ouvir ele falar. O povo
achava graça." Rindo, ela confirma ter ouvido um dos boatos
sobre Gabriel: o de que ele era traficante de crianças.
Uma outra hipótese foi contada pelo chefe-de-gabinete da
prefeitura, Gilmar Gomes: "Escutei mais que era um líder
comunista, porque mexia com sindicato". As mulheres o chamam de
"o da escadinha". E uma delas, Kátia de Almeida, 24, o chama de
"noivo" e confessa: quer ter mais um filho com ele. Ciumenta,
disse que a disputa foi acirrada: "Ele é como um ímã para as
mulheres".
"Proyectos"
O jeito falador e os vários "proyectos" sonhados por Gabriel
para a região logo afastaram os boatos e o transformaram numa
espécie de consultor para vários assuntos, desde curar vacas até
técnicas de plantio de macaxeira. Nesse um ano em Lajes, Gabriel
já se envolveu em vários empreendimentos pequenos. Atualmente,
tem dez hectares arrendados e coordena um projeto para plantar
melão e melancia, junto com outras oito famílias. Ele também
fala em criar gado confinado, montar uma fábrica têxtil,
explorar granito e vários outras idéias. "Tenho cinco projetos
prontos." E explica um por um, em detalhes, sem parar.
Gabriel, no entanto, reclama da demora para conseguir
financiamento. Segundo ele, os R$ 450 que recebe por mês do
Acnur pagam apenas a comida. Para ele, a ajuda é demorada e vem
"entrecortada". E exemplifica: "Me deram dinheiro para comprar a
moto, mas não para tirar carteira. Quando dirijo, tenho de fugir
da polícia". Matias disse que o problema está sendo resolvido
pelo Acnur.
Santiago Nunes, 47, presidente de uma cooperativa familiar e que
o conhece desde o primeiro dia em Lajes resume assim a vida de
Gabriel: "Sinto frustração em saber do potencial dele, mas ele
não poder trabalhar. Ele sabe as técnicas, mas cadê a
condição?".
País tem o maior projeto de reassentados da AL
O crescente
número de refugiados provocado pelo conflito armado colombiano e
a difícil situação dessa população em países como o Equador e a
Costa Rica levaram o Acnur (Alto Comissariado da ONU para
Refugiados) a criar no Brasil o maior programa de reassentamento
de refugiados da América Latina. Desde o final de 2003, quando
os primeiros refugiados chegaram ao Rio Grande do Sul vindos do
Equador, 179 colombianos chegaram ao Brasil sob o programa.
Atualmente, há reassentados no interior de São Paulo e no Rio
Grande do Norte. Para 2006, a previsão é atender mais 200
reassentados.
O problema não pára de crescer na Colômbia. Relatório da ONG
Codhes, cujo trabalho tem financiamento da ONU, mostra que
99.338 colombianos tiveram de deixar as suas casas no último
trimestre -média de 1.080 pessoas por dia, aumento de 32% com
relação ao mesmo período de 2004. A maioria se muda para outras
regiões da Colômbia -nesse caso, são os "deslocados", cuja
estimativa chega a 2 milhões.
Os reassentados no Brasil vêm sobretudo do Equador, que recebe o
maior número de refugiados colombianos - estima-se que haja ali
220 mil, a maioria vivendo ilegalmente. As fronteiras porosas e
a instabilidade política equatoriana fazem com que o conflito
transborde junto com os refugiados, que ainda sofrem com a
xenofobia. "O que geralmente motiva um novo pedido de proteção
do Acnur é por motivo de perseguição", explica Antenor Rovida,
da Cáritas e administrador do programa em São Paulo, para onde
veio o maior grupo. Como exemplo, cita uma mulher que chegou ao
Brasil dias depois de o marido ter sido seqüestrado no Equador.
Até hoje, ele está desaparecido.
Mas o que leva um refugiado para o Rio Grande do Sul e outro
para o do Norte? "Os critérios são uma combinação de
experiências pessoais, segurança e parceiros capacitados", diz
Luis Varese, representante do Acnur no Brasil. O objetivo é que
os colombianos reassentados percam o temor de perseguição ao
chegar ao Brasil. Para isso, é necessário um certo isolamento
entre os grupos. "Há mais de seis atores no conflito colombiano.
Nem todos os refugiados vêm do mesmo lado." O programa sofre
resistências. A principal crítica ouvida por Rovida é por que o
Brasil deveria abrigar estrangeiros em meio a tanta pobreza
interna. Ele mesmo justifica: "São pessoas que, se não dermos
apoio imediato, certamente vão morrer".
Fonte:
Folha de S. Paulo