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A segunda guerra de Angola
Angolanos fogem da violência em seu país, mudam para favelas no
Rio e passam a ser vítimas do preconceito e do terror imposto
pelo tráfico. Matéria de Ricardo Miranda na Revista IstoÉ,
número 1753, de 7/5/2003
Milhares de imigrantes angolanos, que chegaram nos últimos dez
anos fugindo da guerra civil que devastou seu país, buscam
reconstruir suas vidas no Brasil. A maioria desses cinco mil
muangolés, como são conhecidos, escolheu como novo lar o Rio de
Janeiro, visto como a cara-metade latina da nação africana. Não
encontraram o paraíso. Grande parte mora em áreas pobres, como a
Baixada Fluminense e o Complexo da Maré, na zona norte, um dos
territórios mais violentos da cidade, dominado pelos traficantes
do Terceiro Comando.
Escaparam de uma guerra e hoje vivem amedrontados por outra: a
do tráfico. “Somos triplamente discriminados: negros, africanos
e moradores de uma favela violenta”, resume o sociólogo
Francisco Cruz, 40 anos, morador da Maré e presidente da
Associação dos Angolanos no Rio. Dentro da favela, são obrigados
a obedecer às leis do tráfico – inclusive o toque de recolher.
Fora dela, sofrem a discriminação por morar em um território
violento. Na Vila do João, ISTOÉ encontrou um povo com medo do
tráfico e dos abusos da polícia, mas cheio de esperança.
Os
angolanos se espalham pelo Rio, mas a maioria vive em áreas tão
pobres quanto os guetos que deixaram na periferia de Luanda. No
centro, perto de 500 se empoleiram em velhos casarões do fim do
século XIX entre a Cidade Nova e a Lapa, uma área boêmia e
decadente. Uma centena deles se concentra em pensões e
repúblicas no Estácio, onde vivem muitos músicos, como os
rappers Pupa Nzéu Kanda, 34 anos, e Ala-X, 23 anos. “Cantamos a
discriminação da comunidade negra, sejam angolanos, sejam irmãos
brasileiros”, explica Pupa, que mora há seis anos no Rio e ganha
a vida como entregador de jornais. Em canções como “Balumuka!”
(“Acorde!”, em dialeto banto), os músicos cantam as dificuldades
de sobreviver no Rio como na África.
Também há
angolanos no Morro da Providência (centro) e na Favela do Aço,
em Santa Cruz, zona oeste. Enquanto o aluguel de uma quitinete
na Maré custa até R$ 150, e um apartamento com dois quartos até
R$ 250, no centro, um apartamento de dois quartos pode chegar a
R$ 600. “Somos a cara das nossas dificuldades”, diz Mitô Borges,
uma espécie de “prefeito” dos angolanos no centro. Os cerca de
500 angolanos do Complexo da Maré, espalhados por comunidades
como Vila do Pinheiro, Vila do João, Nova Holanda e Salsa e
Merengue, são em sua maioria de Kassenda e Rangel, dois bairros
miseráveis e superpovoados de Luanda.
A
maioria vive de mukunza – muamba, em bom português. Compram
roupas e tecidos em São Paulo e mandam para seus familiares
revenderem em Luanda. De volta, recebem dólares (ninguém quer
saber da kwanza, moeda local). O fluxo comercial é garantido
pelo vôo semanal entre Rio e Luanda, o “expresso” da Transportes
Aéreos Angolanos (Taag). Tiram em média R$ 500 por quinzena.
Na Maré
eles encontraram um lar barato, mas violento, onde tiroteios são
rotina e as regras são diferentes do asfalto. Entrada e saída
são controladas pelo tráfico e a lei do silêncio é respeitada.
Um dos coordenadores do núcleo de angolanos da Maré, Leonel da
Conceição Martins, 26 anos, há oito meses no Rio, diz que como
todo angolano procura poupar a família da realidade que
encontrou. “Preferimos não falar que vivemos em área de risco”,
conta. Fora da favela, os angolanos denunciam discriminação e
maus-tratos policiais.
“Para a
polícia todo angolano é “mula” do tráfico”, critica o sociólogo
Francisco Cruz. “Nós viemos de um país em guerra, mas somos de
paz. Não somos guerrilheiros nem sabemos manejar armas”, afirma.
A preocupação tem razão de ser. Prisões de angolanos com cocaína
levaram policiais a levantar suspeitas sobre toda a comunidade.
Há dois anos, um delegado declarou, sem prova, que
ex-guerrilheiros angolanos treinavam traficantes da favela. A PM
chegou a intervir na Maré. Houve protestos da Embaixada de
Angola, seguidos de um pedido de desculpas das autoridades
cariocas.
A Polícia
Federal concorda que os angolanos que moram no Rio são ordeiros.
O problema estaria em africanos, não residentes no País, que
desembarcam disfarçados de mukunzeiros para acobertar o
verdadeiro negócio: o tráfico internacional.
Uma das prioridades do Consulado de Angola na cidade é buscar
uma solução urgente para os angolanos na Maré. “Temos de tirar
nossa gente da zona de risco”, diz o vice-cônsul João Diogo
Fortunato, que descarta remover todos os angolanos para um único
bairro para evitar a formação de gueto. “Não temos como fugir do
tráfico ou nos isolar da violência no Rio. Nossos irmãos também
são tentados pela droga”, reconhece o vice-cônsul. O consulado
teme pela permanência dos conterrâneos em territórios dominados
pelo tráfico, não só pelo risco de vida, mas pela disseminação
do preconceito.
Morador da
Maré, o angolano N.A., 23 anos, trabalha em uma lanchonete e
estuda à noite. Identificado pelas iniciais para evitar
represálias, ele conta que quase toda noite é vítima de batidas
policiais e numa delas ficou sem o salário, R$ 350.
Povo
orgulhoso de sua cultura, o angolano só não muda sua vocação
para a alegria. Concentrados sábado à noite em botequins, como o
bar do Tiozinho, na rua 47 da Maré, ou espalhados por quiosques
ao redor dos Arcos da Lapa, insistem em ser felizes. Mostram que
são, antes de tudo, sobreviventes.
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