|
|
Comunidade – a busca por
segurança no mundo atual
Zygmunt Bauman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
2003.
Ana Lúcia Alexandre Borges
“Se vier a existir uma
comunidade no mundo dos indivíduos,
só poderá ser (e precisa sê-lo) uma comunidade tecida em
conjunto a partir do compartilhamento e do cuidado mútuo;
uma comunidade de interesse e responsabilidade em relação
aos direitos iguais de sermos humanos e igual capacidade de
agirmos em defesa desses direitos.”
(Zygmunt Bauman, 2003,
p.128)
Ao narrar seu dia-a-dia, ou ao
descrever o lugar onde moram, moradores de favela do Rio de
Janeiro, como as inúmeras que compõem grandes complexos como o
do Alemão ou o da Maré, ou ainda Vidigal, Mangueira e Rocinha,
poucas vezes usam o termo “favela”. Ainda são mais raras as
ocasiões em que usam a palavra “morro”. Ao falar de si mesmos
e expor sua realidade, o substantivo que empregam é outro.
Quando reclamam de governantes, dizem que falta saneamento na
“comunidade”; que a falta de transporte na “comunidade” é um
absurdo; que houve troca de tiros com traficantes quando a
Polícia Militar invadiu a “comunidade”. Os moradores
enxergam-se como parte integrante desta “comunidade”, uma
organização viva e fechada, onde, apesar dos pesares,
sentem-se seguros, e a qual são capazes de defender custe o
que custar, contra possíveis invasores ou outros fatores que
possam abalar sua estabilidade. E é desse conceito, entre
outras acepções atribuídas para a palavra, que Zygmunt Bauman
trata no livro “Comunidade – a busca de segurança no mundo
atual”.
Nessa obra, lançada por aqui em 2003, o sociólogo polonês
desconstrói a idéia formada, que atravessa o imaginário
coletivo, de que “comunidade” é o paraíso perdido, um lugar
cálido e aconchegante onde estamos protegidos e a salvo: em
suas 138 páginas, o autor mostra que, na verdade, “ser em
comunidade” é uma tarefa complicada, pois está em permanente
conflito com a liberdade. Bauman narra as pressões que o
conceito de comunidade vem sofrendo desde a “Modernidade
sólida”, com a construção do Estado-Nação, até agora, a
“Modernidade líquida”.
Logo no primeiro dos nove capítulos que compõem a obra,
batizado de “A agonia de Tântalo”, Bauman usa para abrir sua
reflexão sobre a comunidade o mito grego que narra a história
de Tântalo, filho de Zeus e Plutó, que ousou compartilhar um
conhecimento que não deveria chegar aos mortais. Como punição,
foi mergulhado até o pescoço num regato e, sobre ele, havia um
cacho de frutas; a crueldade dos deuses se fazia presente
porque, ao baixar a cabeça para matar a sede, a água
desaparecia e, ao esticar a mão para alcançar a fruta, um
vento batia e afastava o cacho. Fica a lição: “só se pode ser
verdadeiramente feliz enquanto não se sabe quão feliz se é”.
Ou seja: a perda da inocência não tem volta. Bauman passeia
por conceitos de comunidade que visam a essa volta à
inocência, à ingênua e desinteressada união entre os homens –
hoje apenas possível, segundo ele, em sonhos. O autor lembra
Ferdinand Tönnies, que convocava a “comunidade” a voltar a ser
um “entendimento compartilhado por todos os seus membros”, que
permite que as pessoas fiquem unidas a despeito de tudo, em
oposição à sociedade em ascensão. Traz à tona ainda um estudo
do sueco Göran Rosemberg, de 2000, que batizou de “círculo
aconchegante” essa crença na união humana. E cita, além disso,
um trabalho de Robert Redfield que descreve a comunidade como
distinta (por ser visível onde ela começa e onde termina, com
claras fronteiras entre “nós” e “eles”, não importa quais
sejam esses atores); pequena (com comunicação facilmente
alcançada por todos os indivíduos que a compõem); e
auto-suficiente (atendendo a seus integrantes de forma
completa e proporcionando total isolamento com relação a
“eles”).
Em comum a essas definições tem-se o fato de que a
“comunidade” tem como ingredientes principais a homogeneidade
e a mesmidade. Mesmidade esta que entra em risco quando as
relações entre os de dentro e os de fora começam a se
intensificar. E, num mundo em que a informação viaja com uma
velocidade nunca antes vista, fica cada vez mais difícil
controlar o fluxo de informações entre os lados de dentro e de
fora. Dessa forma, a fronteira entre essas duas faces fica
cada vez mais tênue, e toda unidade precisa ser construída, de
maneira artificial. E, para ser mantida, essa comunidade (um
acordo entre seus integrantes) precisa ser vigiada e
defendida. Passa a ser “uma fortaleza sitiada”, como diz
Bauman, e “trincheiras e baluartes são os lugares onde os que
procuram o aconchego, a simplicidade e a tranqüilidade
comunitárias terão que passar a maior parte do seu tempo”
(ibidem, p.19).
É seguindo esse raciocínio que Zygmunt Bauman chega à questão
que permeia todo o livro: o paradoxo de que, para a comunidade
existir com segurança, é preciso que os indivíduos abram mão
da liberdade, que, por sua vez, só pode ser ampliada às custas
da segurança. Essa situação provoca na vida um conflito
infinito e é um poço infindável de questionamentos para os
intelectuais, pois “a segurança sacrificada em nome da
liberdade tende a ser a segurança dos outros; e a liberdade
sacrificada em nome da segurança tende a ser a liberdade dos
outros”.
Comunidade
na Modernidade
No segundo capítulo, “A
reinserção dos desenraizados”, Bauman trata da Modernidade,
período da História em que se valorizou a individualização e
em que a liberdade era oferecida em troca de segurança, sendo
que nem todos desfrutavam dessa liberdade. O arranjo moderno
capitalista era constituído de duas faces: uma claramente
emancipatória, para os poderosos; e uma coercitiva, destinada
às massas. A emancipação de uns exigia a supressão de outros,
diz Bauman, e o auge dessa assertiva entrou para a História
conhecida como “Revolução industrial”: as massas de artesãos e
camponeses eram retiradas de suas rotinas comunitárias,
ligadas ao hábito, e inseridas nas rotinas das fábricas,
presas a tarefas.
Foi uma guerra declarada às comunidades auto-reprodutivas e
auto-sustentadas, um dos “sólidos” a se tornarem “líquidos”
com o capitalismo moderno – tomando-se como base a teoria de
Marx e Engels. Para sufocar qualquer manifestação de livre
arbítrio dos camponeses convertidos em operários, donos e
gerentes das indústrias valiam-se do poder da vigilância
contínua, pelo modelo panóptico, com o objetivo de assegurar a
manutenção da disciplina. Subordinados e supervisores,
governados e governantes estavam, portanto, presos uns aos
outros por meio desse sistema de controle. Aquela foi, então,
uma época de engajamento, em que poderosos e subjugados tinham
uma relação de interdependência. E, quando isso foi percebido,
diz Bauman, constatou-se a inconveniência do modelo panóptico:
e tentou-se um resgate do conceito de comunidade para dentro
da fábrica, com a “humanização” das relações de trabalho.
Assim, percebe-se que a Modernidade foi um período onde
conviveram duas tendências: uma de substituir a comunidade por
uma rotina produzida artificialmente, que tinha as fábricas
como cenário e teve como ponto culminante as linhas de
montagem do século XX; e outra que corria de forma paralela,
tinha como objetivo fazer o operário “sentir-se bem” e que foi
levada ao ápice na década de 1930, com a valorização das
“relações humanas” no trabalho e o reconhecimento de que a
elevação de uma atmosfera amistosa nas fábricas aumentava a
produtividade.
Entretanto, Bauman reconhece que, após o desaparecimento das
instituições auto-regenerativas da sociedade pré-moderna, a
Modernidade foi, em sua maior parte, uma época de manejo, em
que a única ordem concebível era uma ordem projetada e mantida
pelo monitoramento.
E depois?
Após o engajamento moderno,
deu-se o tempo do “desengajamento”. No capítulo “Tempos de
desengajamento... ou a grande transformação, segundo tempo”,
Zygmunt Bauman relata a época de “desregulamentação”: passadas
décadas após o terror das guerras e a reconstrução do
pós-guerra, os poderosos percebem que não querem ser regulados
por ninguém; e ainda menos querem regular os outros. E, em
meio à incerteza de não haver alguém tomando as rédeas da vida
e dando-lhes ordens, aqueles que costumavam obedecer vêem-se
livres, mas mantêm a disciplina. “O desmantelamento dos
panópticos anuncia um grande salto para frente no caminho da
maior liberdade do indivíduo” (ibidem, p.43), diz Bauman.
No mundo em que vivemos no século XXI, as muralhas estão longe
de ser sólidas e não foram fixadas de uma vez por todas. E o
primeiro exemplo que Bauman cita como representativo desse
desmantelamento é o que aconteceu com o “trabalho”. Se na
Modernidade o trabalho era uma referência para vida, o eixo em
torno do qual ela girava, atualmente esse eixo está avariado.
A rigidez dos empregos está abalada: postos antes considerados
indispensáveis deixam de existir de uma hora para a outra. É o
que temos ouvido nos noticiários e percebido no mercado de
trabalho brasileiro e internacional nessas últimas décadas: é
a época de conceitos como flexibilização e reengenharia, de
prestação de serviços no lugar de contratos de trabalho.
Mas não é apenas o trabalho que está esboroando. O conceito de
“lugar”, onde se espera estar seguro e passar toda a vida,
também sofre mudanças. No “lugar”, nada se mantém igual por
muito tempo a ponto de que se crie a sensação de familiaridade
e este local se transforme em algo digno do que se espera de
uma comunidade. Bauman cita exemplos corriqueiros para
corroborar essa idéia: deixam de existir os marcos do nosso
cotidiano, dos mercadinhos da esquina aos bancos locais e aos
carteiros... Na família e em casa, as coisas vão igualmente de
mal a pior, explica o sociólogo: a estrutura do casamento está
abalada. Enfim, a maioria dos pontos firmes e sólidos que
sugeriam uma situação social duradoura se foi. E, com eles,
vai-se também o sentimento de comunidade, ou a “experiência de
comunidade”, como afirma o autor. Não há mais relações bem
tecidas entre pessoas, que caracterizariam a comunidade. E,
diz ele, tomado de desesperança, “a decadência da comunidade
nesse sentido se perpetua; uma vez instalada, há cada vez
menos estímulos para deter a desintegração dos laços humanos e
para procurar meios de unir de novo o que foi rompido”
(ibidem, p.48).
No quarto capítulo, “A secessão dos bem-sucedidos”, Bauman
conta que essa decadência do espírito comunitário é reforçada.
Os tais bem-sucedidos a que o autor se refere são integrantes
das “comunidades cercadas”, extremamente protegidas, guardadas
com armas e artefatos eletrônicos, de hoje em dia: pessoas que
dispõem de recursos financeiros para se manter afastados da
confusa realidade do lado “de fora”. São comunidades somente
no nome, pois tudo o que querem é manter-se à distância e
viver livre dos intrusos. Exemplos? Há muitos, e eles não
estão longe. Diante de uma recente onda de assaltos a
residências na Zona Sul do Rio de Janeiro, moradores de
bairros como Leblon, Gávea e Jardim Botânico vêm recorrendo à
instalação de portas e janelas de vidro blindadas à prova de
disparos de fuzis AR-15 e pistolas [1], e supercondomínios na
Barra da Tijuca têm apelado para sistemas sofisticadíssimos de
alarmes, câmeras de vídeo e sensores para detecção de
movimento, com o objetivo de afastar intrusos.
No entanto, como explica Bauman, o mundo habitado pelas elites
não se resume, espacialmente, apenas a essas “comunidades
cercadas”, tão valorizadas no mercado imobiliário. As elites
alcançaram um status extraterritorial, são globalizadas, e não
pertencem, portanto, a um único local. Estão, na verdade, numa
“bolha sociocultural isolada das diferenças mais ásperas entre
as diferentes culturas nacionais... São certamente
cosmopolitas, mas de maneira limitada e isolada” (ibidem,
p.54), segundo avaliação de pesquisadores do Instituto de
Estudos Avançados da Cultura da Universidade da Virgínia,
citada por Bauman. Esses bem-sucedidos cosmopolitas celebram a
irrelevância do lugar, uma condição a que os pobres
pés-no-chão, de padrão de vida mais ordinário e simples, não
podem se dar o luxo. Essa “secessão de bem-sucedidos”, define
Bauman, não passa de uma fuga da comunidade.
Mas mesmo os ricos e poderosos sentem necessidade, de quando
em quando, de pertencer a algo – por mais que prezem sua
autonomia individual – para que tenham algum conforto e saibam
que não estão sós. Imaginam-se pertencentes a uma comunidade
dos sonhos, formada pelo “mesmo”, ou seja, por pessoas
semelhantes na mente e no comportamento, com lutas pela
identidade parecidas. No entanto, a identidade é um processo
sem fim e que deve sempre continuar flexível para poder ser
adaptada ou substituída quando deixar de ser útil. E, como a
“comunidade” dos poderosos tem como deveres principais
confirmar que aquele grupo é coeso justamente por ter feito as
mesmas escolhas de identidade, ela deve ter as mesmas
características da identidade: isto é, deve ser flexível e
fácil de se decompor e reconstruir. E, em nenhum caso, o
vínculo e o compromisso da comunidade com seus integrantes
devem ser irrevogáveis ou indissolúveis. Escolhas novas e
diferentes não devem ser impedidas.
É desse tema que o autor trata no capítulo 5, “Duas fontes de
comunitarismo”. Ele faz ainda uma analogia do conceito de Kant
sobre de comunidade estética, dizendo que “como a beleza, a
identidade não tem outro fundamento que não o acordo
amplamente compartilhado, explícito, ou tácito, expresso numa
aprovação consensual do juízo ou em conduta uniforme” (ibidem,
p.62). Como exemplos dessa comunidade estética que serve à
construção e à destruição da identidade, ele cita a indústria
do entretenimento – particularmente o mundo das celebridades.
As estrelas da mídia constituem, na verdade, uma comunidade de
solitários, que enfrentam publicamente os problemas de suas
vidas sozinhos e servem de exemplo a outros indivíduos, mas
sem ter com eles o menor laço ou envolvimento que pudesse
caracterizar uma comunidade. Quando se vê um artista
lamentando o fim de seu casamento, ou narrando a dificuldade
por que passou por ter se envolvido com drogas ou bebidas –
ambos casos corriqueiros de que revistas de fofocas à venda
nas bancas do país estão lotadas – o público enxerga nessas
situações um exemplo de como sair sozinho de seus problemas,
sem o apoio comunitário. O que os ídolos fazem é invocar a
“experiência de comunidade”, mas sem que haja uma comunidade
real: apenas reforçam a autonomia individual.
Mas nem todas as comunidades estéticas estão centradas em
celebridades, e Bauman cita outros exemplos. Às vezes, a
“celebridade na ribalta” pode ser qualquer outro assunto que
mereça destaque: um inimigo público como a violência urbana ou
um pedófilo à solta, ou um grande evento que una a população
por um tempo, como a Copa do Mundo, que costuma parar o
Brasil. Por comunidade estética, então, Bauman entende aquela
com laços transitórios e superficiais entre seus integrantes,
isentos de responsabilidades de uns com os outros e de
compromissos de longo prazo. No entanto, esses indivíduos
continuam mantendo, dentro de si, o desejo de integrar uma
comunidade de verdade, que tenha o sentido de coletividade. A
comunidade que desejam é uma comunidade “ética”, quase o
oposto da “estética”: que tenha compartilhamento fraterno e
ofereça segurança a todos seus integrantes. No discurso
comunitário, tão em voga hoje, esses dois conceitos distintos
de comunidade misturam-se e causam confusão e questionamentos.
Na
Modernidade líquida, demanda pelo reconhecimento
Se a Modernidade em seu estado
“sólido” tinha como característica primordial a certeza de uma
“sociedade justa e estável”, a atual Modernidade “líquida”
prima pela ausência de assertivas e pelo estímulo a que as
pessoas encontrem seus próprios destinos. O centro das
discussões migra da busca da “justiça social” para a luta
pelos “direitos humanos”. As batalhas atuais são em busca do
reconhecimento e resultam num constante retraçar de
fronteiras. É isso que se discute no sexto capítulo, “Direito
ao reconhecimento, direito à redistribuição”. A nova elite
global, de poder extraterritorial, desiste de impor uma nova
ordem: na decadência do modernismo, sobram as diferenças e as
fronteiras entre elas erigidas. E é da natureza dos direitos
humanos um interessante paradoxo: tais direitos visam a
possibilitar a garantia de ser diferente e manter-se assim e,
no entanto, só podem ser assegurados perante a sociedade por
meio de uma luta coletiva. Isto é, para se tornar um direito
que respeite a individualidade, a diferença tem que ser
compartilhada por um grupo.
E essas demandas pelo mero reconhecimento da diferença, ou
seja, para simplesmente reforçar a distinção cultural, acabam
estimulando uma divisão e uma separação, em vez de fortalecer
laços que pudessem resultar numa comunidade. No entanto, essa
demanda por reconhecimento deveria ser um momento para um
diálogo em que fossem discutidos os méritos e os deméritos
dessa diferença, diferindo, simultaneamente, do
fundamentalismo universalista que se recusa a reconhecer a
pluralidade de formas que a humanidade possa abarcar, e da
tolerância promovida por “certas variedades de uma política
dita ‘multiculturalista’, que supõe a natureza essencialista
das diferenças e, portanto, também a futilidade da negociação
entre diferentes modos de vida” (ibidem, p.75), como diz
Bauman.
Minorias
étnicas: focos de resistência
Mas, na contemporaneidade,
enquanto se observa o desmantelamento das comunidades,
encontra-se pelo menos uma exceção a essa regra de
desintegração: as “minorias étnicas”, em que o sentimento do
pertencimento comunal permanece entre seus integrantes.
Entretanto, esse sentimento não é espontâneo, muito menos uma
livre escolha dos participantes da comunidade. No capítulo 7,
“Da igualdade ao multiculturalismo”, Bauman mostra que as
pessoas são designadas como pertencentes a uma minoria étnica
sem que lhes seja pedido consentimento, uma vez que essas
minorias são determinadas por quem está do lado “de fora”,
isto é, pelas “comunidades poderosas”, fortes, dominantes. As
diferenças que fazem desses grupos “minorias” não derivam de
seus atributos ou particularidades culturais, mas de um
contexto social que forçou a imposição desses limites.
Bauman atribui o fortalecimento do fenômeno das “minorias
étnicas” à passagem do período moderno de construção da nação
para a atualidade, isto é, o estágio pós-estado-nacional. Na
Modernidade, para que se moldasse uma unidade, era preciso que
a nacionalidade compartilhada abarcasse todo o Estado e
legitimasse a união do território. Para tanto, a identidade
nacional era construída por meio de uma narrativa histórica, e
a prática da construção da nação tinha duas faces: a
nacionalista (avessa às comunidades étnicas ou locais que
impedissem a homogeneidade nacional, muitas vezes até de forma
belicista) e a liberal (a favor do individualismo, ou seja, a
favor da liberdade total de escolha e, por isso mesmo, também
contrária às comunidades que pudessem cercear essa liberdade).
Ambas as facetas do Estado-Nação, portanto, tendiam a
aniquilar a comunidade, à qual cabia ser assimilada pela
nação, privando os “outros” de sua alteridade; ou perecer.
Entretanto, na atualidade, com o esmorecimento do poder do
Estado-nação, a “segurança existencial se estilhaçou” e “as
velhas histórias reiteradas para restaurar a confiança na
filiação” e numa identidade nacional perderam sua
credibilidade. O vazio normativo deixado pelo fim da rigorosa
regulamentação estatal abriu espaço para mais liberdade e para
o fortalecimento de identidades antes enfraquecidas ou mesmo
esquecidas. Para que essas identidades recém-reconhecidas
persistam e sejam preservadas, muitas vezes os indivíduos que
as “constroem” caem no exagero e tornam-se conservadores
(insistindo na volta às origens) e exclusivistas (reiterando a
divisão nós x eles).
Não raro, essa postura radical acaba sendo adotada pelas
“minorias étnicas” , como cita Bauman, referindo-se à relação
de imigrantes e nativos em grandes países, como ocorre hoje em
dia. Muitas vezes, explica o autor, os imigrantes não têm
escolha e acabam tornando-se minoria étnica no país de adoção.
Mas essa proximidade dos “estranhos étnicos” com os nativos,
em vez de aproximar e integrar, afasta ainda mais: imigrantes
disparam nos nativos seus instintos étnicos e os fazem desejar
isolar os “invasores” cada vez mais; estes, por sua vez,
sentindo-se agredidos, fecham-se em sua “comunidade”. E, no
lugar de contribuir para reduzir esta distância, as classes
dominantes, ou “forças poderosas” , como define Bauman, até
estimulam essa separação e favorecem a construção de
barricadas. Fazem uso do princípio de “dividir para reinar”
(ibidem, p.95). Deixam que os menos poderosos, ou pobres,
briguem e disputem entre si para que sua representatividade e
seu poder se esvaziem. A pulverização do espaço público,
favorecida pelos conflitos intercomunitários, é o tipo de
estrutura social que agrada à nova hierarquia do poder, de
acordo com o autor. A idéia é que todas as diferenças são boas
e dignas – mas simplesmente porque são diferenças e favorecem
este momento de desengajamento que se vive hoje.
Bauman vai além e ataca ainda a utilização do
“multiculturalismo” de forma interessada pelos detentores do
poder. Segundo ele, muitas vezes o multiculturalismo é um
descaso com relação à diferença. Na teoria, diz-se que o
multiculturalismo é orientado pela tolerância liberal, pela
preocupação com o direito das comunidades à auto-afirmação e
com o reconhecimento público de suas identidades. Porém, na
prática, ele funciona como instrumento para uma força
conservadora, pois transforma desigualdades incapazes de obter
aprovação pública em “diferenças culturais” reconhecidas.
Afasta e não integra. Numa interessante citação, o autor
refere-se a Alain Touraine. Para Touraine, o multiculturalismo
deveria respeitar a liberdade de escolha do indivíduo entre
uma variedade de possibilidades e não ser confundido com o “multicomunitarismo”,
segundo o qual a liberdade do indivíduo é vetada a partir do
momento em que ele está preso a uma comunidade, sem direito a
uma negociação. E enquanto essa confusão de termos e conceitos
perdura persiste também a divisão cada vez mais radical entre
as diferentes comunidades, que leva, inclusive, à guetificação,
tema de que o autor trata a seguir. O gueto
voluntário: a comunidade do ‘bairro seguro’
Rumo à globalização, o espaço
perdeu sua importância, mas ganhou significação. De um lado,
pode-se contatar e atingir locais longínquos sem se sair do
lugar. De outro, pouco se pode saber e prever quanto ao
próprio lugar em que se vive, por mais vigilantes que sejamos.
Houve aumento do valor do lugar, pois seu sentido está não em
pertencer a uma “sociedade” abstrata, mas a um lugar em
particular. Essa abstração da sociedade já vinha sendo
sentida, mas agora é mais evidente. No apogeu do Estado-nação,
a sociedade era o pai rigoroso e implacável, mas a quem se
poderia recorrer quando se sentisse inseguro. Com o
desmantelamento do Estado, um vazio instalou-se onde antes
havia as totalidades às quais as pessoas acreditavam
pertencer, onde antes estava a sociedade. Esse termo já
representou o Estado, armado de meios de coerção e de formas
para corrigir injustiças. Mas, na ausência de um Estado e uma
sociedade fortes, quem poderá garantir a segurança? Num mundo
em que tudo é privatizado e, como Bauman já apresentou,
individualizado, garantir a segurança cabe a cada um. A defesa
do lugar é uma luta solitária. Tornou-se um assunto
comunitário: dos bairros, das ruas, dos condomínios. A
segurança pública torna-se privada. O que se procura é um
abrigo que se possa chamar de identidade: um local onde se
possa isolar do resto (sendo esse resto = os outros que
representam ameaças), e sirva de “abrigo nuclear pessoal” ,
como define o autor no penúltimo capitulo, batizado de “O
nível mais baixo: o gueto”.
É isso que acontece, por exemplo, em ruas residenciais de
bairros como Jacarepaguá e Recreio dos Bandeirantes, em que
moradores desafiam as autoridades públicas fechando, sem
autorizações legais ou alvarás para tal, o acesso às ruas,
transformando-as em vias sem saída, com entrada controlada por
guardas armados em guaritas. Em nome de uma segurança sonhada
e de uma comunidade idealizada, os indivíduos tomam as rédeas
da privatização do espaço público. É o que Bauman definiu como
“política do medo cotidiano”, num dos pontos por ele abordados
mais interessantes para se aplicar à realidade brasileira. O
espectro das ruas inseguras afasta as pessoas dos espaços
públicos. E é nesse cenário que se molda a nova concepção de
comunidade. Segundo essa noção, detalhada de forma bastante
interessante pelo autor, comunidade significa mesmice, e a
mesmice significa ausência do outro, “especialmente um outro
que teima em ser diferente, e precisamente por isso capaz de
causar surpresas desagradáveis e prejuízos” (ibidem, p.104).
Esse estranho, ou alien, é reinventado e construído
diariamente pela vigilância do bairro, pelo sistema de
monitoramento de câmeras das grandes empresas, pelas cercas de
arame farpado... É o mendigo, o bêbado da esquina, o bando de
pivetes no sinal de trânsito. Uma constante ameaça. A chamada
comunidade do bairro seguro é, como explica Zygmunt Bauman, um
mutante bizarro do gueto voluntário, pois tem a característica
básica de um gueto, que consiste na separação entre a
homogeneidade dos de dentro e a heterogeneidade dos de fora.
O interessante a ser observado nessa fórmula do gueto
voluntário, prossegue o autor, é que ela determina que os
intrusos não entrem, mas que quem está dentro possa sair à
vontade – enquanto os guetos reais são lugares de que não se
pode sair. Os guetos reais, como os bairros restritos a negros
nos Estados Unidos, implicam a negação da liberdade, ao passo
que estas comunidades superprotegidas, os guetos artificiais,
pretendem servir à causa da liberdade. Entretanto, nos dois
casos, o isolamento dos indivíduos se fortalece.
Mas vamos nos deter um pouco mais no caso dos verdadeiros
guetos. Aqueles que, segundo Bauman, são considerados “um
depósito de pobres”, como as cités francesas, os guetos de
negros nos EUA ou, devemos acrescentar, as favelas de grandes
cidades como o Rio de Janeiro ou São Paulo, ou os bairros de
casas construídas sobre palafitas, como as existentes no
Nordeste. Todas essas áreas têm em comum o fato de abrigarem a
força de trabalho composta pelas classes mais pobres. Essa
guetificação é paralela e complementar à pobreza. Bauman
conclui que ajudar uns aos outros a suportar as dificuldades
nesses casos, quando se é extremamente pobre, é algo que a
Modernidade líquida não espera dessas classes confinadas em
guetos. Portanto, diz ele, o gueto não favorece o sentimento
de laços comunitários entre sofredores.
Sobre esse assunto, faço um breve parênteses. Observo que o
gueto pode favorecer, sim, a união em sofredores de uma mesma
área, ou “comunidade”, com objetivos afins, inclusive como
citamos em exemplo de favelas cariocas no começo deste texto.
Mas pode estimular, como afirma Bauman, disputa e desunião
entre sofredores do mesmo nível de pobreza, mas com diferentes
motivações e lutas identitárias, como é o caso de guerras
entre gangues de guetos e “bondes” de favelas – excluindo-se,
neste caso, a pressão do tráfico de drogas em tais disputas.
Com tanto
isolamento, há chance de uma humanidade?
O último capítulo do livro, que
conclui a linha de raciocínio que Zygmunt Bauman desenvolve ao
longo de “Comunidade – a busca por segurança no mundo atual”,
é também um dos mais interessantes. Nessa parte da obra,
chamada “Muitas culturas, uma humanidade?”, o autor retoma
suas críticas à banalização do multiculturalismo e relaciona a
atual insegurança à dificuldade de que haja uma humanidade
unida.
Ele abre o capítulo dizendo que o multiculturalismo é a
resposta mais comum dada pelas classes formadoras de opinião
para a incerteza do mundo quanto aos tipos de valores que
devem ser apreciados e cultivados e a que caminho devemos
tomar em nossos dias. Para Bauman, essa resposta
“politicamente correta” nada mais é do que um jeito mais
elaborado de dizer “perdão, mas nós não podemos resgatá-lo da
confusão em que você se meteu” (ibidem, p.112). O
multiculturalismo, ele insiste, é a ideologia do fim da
ideologia.
A visão dessa indeterminação é, sem dúvida, desanimadora, ele
diz. Pode levar ao total desengajamento, à total desunião.
Mas, por outro lado, pode ser vista também como uma luz no fim
do túnel. Nunca a busca de uma humanidade comum foi tão
ardente e imperativa como hoje. É fazendo uma referência a
Amin Maalouf que Bauman comprova isso: segundo o escritor
franco-libanês, que trata das pressões culturais sofridas por
imigrantes nos países de escolha, quanto mais o imigrante
souber que seus costumes de origem são respeitados no novo
país, mais aberto ele será às oportunidades neste local e
menos se aferrará à sua própria cultura, distanciando-se. Essa
é uma maneira de ver que há um diálogo possível entre as
culturas, e que a troca é uma possibilidade. Citando a
conclusão de Bauman a respeito disso: Maalouf “aponta mais uma
vez para o que já percebemos antes: para a relação próxima
entre o grau de segurança, de um lado, e a ‘desativação’ da
questão da pluralidade cultural, com uma superação da
separação cultural e a aceitação de fazer parte da busca por
uma humanidade comum, de outro”.
É a insegurança que tende a converter o multiculturalismo num
multicomunitarismo, como vimos antes. Diferenças culturais,
sejam grandes ou irrisórias, são usadas na construção de
“muralhas defensivas ou plataformas de lançamentos de
mísseis”. Cultura é sinônimo de uma fortaleza sitiada. A
segurança, conclui Bauman, é inimiga da comunidade cercada de
muros e protegida por cercas. Mas deveria, ao contrário, ser
uma condição necessária ao diálogo das culturas. Sem essa
segurança, há pouca chance de que as comunidades se abram para
trocas umas com as outras. Com a segurança, diz o autor, agora
tomado pelo otimismo, “as perspectivas da humanidade parecem
brilhar”.
E, no parágrafo que encerra esse último capítulo – seguido de
um posfácio que reitera a relação conflituosa entre comunidade
e segurança – Zygmunt Bauman faz uma espécie de desabafo e
alerta quanto à luta contra a insegurança, ao dizer que
em lugar de mirar às fontes de insegurança, [a construção de
comunidades] afasta delas a atenção e a energia. Nenhum dos
contendores ganha em segurança na guerra contínua entre ‘nós’
e ‘eles’; todos, porém, viram alvos fáceis para as forças
globalizantes – as únicas forças que se beneficiam com a
suspensão da procura por uma humanidade comum e com o controle
conjunto sobre a condição humana. (ibidem, p.128)
Autora: Ana Lucia Alexandre Borges.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.
voltar para o canal Coordenadas
voltar
para HOME
|