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Leituras no
Império |
Análise |
Sintomas de
Transição
André Izidro
O fim do
colonialismo e o declínio dos poderes da nação indicam uma
transição geral do paradigma de soberania moderna para o
paradigma de soberania imperial. As teorias pós - modernistas
e pós - colonialistas nunca se fartam de criticar e de
procurar libertar-se das formas passadas de domínio e dos seus
legados no presente. Essas teorias apontam para o Império, mas
de maneira vaga e confusa, sem consciência do salto
paradigmático que a transição representa.
O pensamento pós-modernista
aparece desafiando discursos modernos de patriarcalismos,
colonialismo e racismo. No contexto das teorias pós -
modernistas, o hibridismo, as ambivalências de nossas
culturas, a insistência na diferença, na especificidade e a
afirmação de identidades sociais fragmentárias aparece como
uma maneira de contestar a soberania do indivíduo moderno e do
moderno Estado - nação. O pós-modernismo acaba colocando o
iluminismo (ou modernidade) como problema, e se colocando como
solução.
O discurso pós-modernista
contesta sistemas de dominação como o racismo e o sexismo e
são herdeiros de todo um espectro de lutas de libertação
modernas e contemporâneas. O sucesso de movimentos de
libertação nacional, movimentos feministas e lutas anti -
raciais são considerados heranças pós - modernistas de
rompimento dos dualismos e ordem da soberania moderna. Essa
teoria incorpora os valores e as vozes dos deslocados. Porém,
em geral, esses teóricos se mostram extremamente confusos com
relação ao potencial libertador do povo frente à soberania
moderna. A afirmação é apenas libertadora para um contexto de
divisões binárias e oposições estáveis.
O mais importante nos pós -
modernistas é o fenômeno histórico que eles representam:
existe uma longa tradição de pensamento "antimoderno", uma
ruptura com a soberania moderna, Escola de Frankfurt. Ainda
que de forma confusa, apontam o fim da soberania moderna, num
pensamento de pluralidade e multiplicidade, e a transição para
o Império.
Entretanto o Império também
visa abolir as formas modernas de soberania, valorizando as
diferenças. Em resumo, a política pós - modernista não só é
ineficaz contra as práticas imperiais, como de certa forma,
coincide com elas.
Os autores seguem mostrando
outros indicativos de transição para o império. Segundo eles,
a base lógica potencial para um acordo entre teorias pós -
colonialistas e pós - modernistas é o fato de suas teorias
compartilharem um inimigo comum, o eurocentrismo. Assim como
os teóricos pós - modernistas, os teóricos pós - colonialistas
são sintomas da passagem para o Império, seus discursos estão
presos aos problemas dos regimes da soberania moderna. Como as
divisões binárias do mundo colonialista, rejeição as teorias
de totalidade, identidade, homogeneidade e essencialismo dos
sujeitos sociais. Gyan Prakash diz, "o pós - colonial existe
como conseqüência, como efeito - depois de ter sido tratado
com violência pelo colonialismo".
Nas décadas finais do século
XX, os teóricos propuseram fundamentalismos como o principal
perigo que desafia a ordem e a estabilidade mundiais. Em
geral, diz-se que os fundamentalismos estão ligados pelo fato
de serem movimentos antimodernistas, ressureições de valores
primordiais. Entretanto, é mais exato compreende-los como um
repúdio à transição histórica contemporânea em curso.
Os discursos pós - modernista
e fundamentalista se colocam, na maioria dos casos, em posição
polar. Mas surgem como resposta à uma mesma situação. Em
resumo, o primeiro têm apelo aos vitoriosos no processo de
globalização e o segundo para os perdedores. Em suma, assim
como as teorias pós - modernistas e pós - colonialistas, o
fundamentalismo também pode ser tratado como sintoma de
transição para o Império.
Logo em seguida os autores
abordam a eficácia desses discursos. Afirmando que os
discursos pós - modernistas e pós - colonialistas têm uma
eficácia muito limitada e reduzida a certos locais e classes
da população. O primeiro é bem recebido dentro de um segmento
da elite da intelligentsia americana. O segundo foi
desenvolvido principalmente num círculo cosmopolita que se
move entre metrópoles e grandes universidades européias e
americanas. Eles afirmam que numerosos discursos progressistas
e libertadores aparecem ao longo da História entre grupos da
elite. Mas, do ponto de vista de muita gente, hibridismo,
mobilidade e diferença não representam liberdade. Grandes
populações vêem a mobilidade como causa de sofrimento, por uma
mudança rápida e de conseqüências terríveis. O desafio
epistemlógico pós - modernista ao "Iluminismo" também perde
sua aura libertadora quando fora das elites intelectuais.
No atual mundo imperial, o
potencial libertador dos discursos pós - modernistas e pós -
colonialistas apenas refletem a situação de uma população de
elite que desfruta certos direitos. Mobilidade e hibridismo
não são libertadores, mas assumir o controle da produção de
mobilidade e de estase, de purezas e misturas, sim.
Aliás, Circulação,
mobilidade, diversidade e mistura são condições de
correspondência na ideologia atual do capital corporativo do
mercado mundial. No mundo contemporâneo as diferenças parecem
multiplicar-se infinitamente no mercado mundial, que ataca as
fronteiras fixas e esmaga qualquer divisão binária com suas
infinitas multiplicidades. Segundo Hart e Negri "o mercado
mundial tende hoje a desconstruir as fronteiras do Estado -
nação". E com o declínio das fronteiras nacionais, o mercado
mundial é liberado, e neste novo espaço livre, diferenças
inumeráveis aparecem. Essas diferenças são de preferência
organizadas em redes globais de poder, que consistem em
estruturas altamente diferenciadas e móveis. O mercado mundial
estabiliza uma verdadeira política da diferença. Onde essas
diferenças fornecem capital com potênciais enormes.
O marketing tem talvez a
relação mais clara com teorias pós - modernistas. Populações
cada vez mais híbridas e diferenciadas apresentam um número de
"mercados alvos" que podem ser alcançados com estratégias de
marketing. Toda diferença é uma oportunidade.
As transformações
contemporâneas de capital e de mercado mundial constituem um
processo real de pós - modernização. E neste, a política
global da diferença é definida por um constante processo de
hierarquização.
2.5 - REDE DE PODER:
SOBERANIA DOS EUA E O NOVO IMPÉRIO
A Revolução Americana
representa um momento de grande inovação e ruptura na
genealogia da soberania moderna. Seguir os desenvolvimentos
originais da noção de soberania nos EUA permitirá reconhecer
as principais diferenças em relação à soberania moderna, e
conhecer as bases nas quais uma nova soberania imperial se
formou.
A Revolução Americana e a
"nova ciência política" proclamada pelos autores do Federalist
desenvolveu novas linguagens e novas formas sociais que
serviram de intermédio entre o uno e o múltiplo. Constituiu
uma idéia que redescobriu o humanismo revolucionário da
Renascença e o aperfeiçoou como ciência política e
constitucional. Os constituintes americanos acharam que só a
república poderia pôr ordem na democracia mediante uma
interação democrática de poderes reunidos em rede. Então,
conceberam uma constituição mista que combina os poderes
monárquico, palaciano e democrático de forma organizada como
três ramos da constituição. A Constituição foi projetada para
resistir a qualquer recaída na corrupção ativando a multidão,
em redes de contrapoderes organizados, num processo de auto -
regulamentação amplo e dinâmico.
A experiência americana, em
muitos asspectos, foi verdadeiramente nova e curiosa. O que
provocou excitações e receios.
Em seguida os autores citam
algumas características da noção americana de soberania. A
primeira é que ela propõe uma idéia da imanência do poder
baseado na idéia de produtividade. A multidão que constitui a
sociedade é produtiva. Segundo, nesse processo de soberania no
plano da imanência surge uma experiência de finitude que
resulta da natureza conflituosa e plural da própria multidão.
Ou seja, depois do primeiro momento de afirmação vem uma
negação dialética do poder constituinte do povo, que preserva
a teologia do projeto de soberania.
A terceira característica
dessa noção de soberania é sua tendência a um projeto aberto e
expansivo, que opera num terreno ilimitado. Na Constituição,
essa luta entre expansão e controle é constante, mas sempre é
resolvida em favor da expansão. Segundo Maquiavel, sem
expansão, a república se arrisca constantemente a ser
absorvida no círculo de corrupção. Mas essa tendência
expansiva democrática é diferente da propagação expansionista
e imperialista, por ser inclusiva e não exclusiva, incluindo
na rede os poderes que encontra. O Império só pode ser
concebido como uma república universal, uma rede de poderes e
contrapoderes estruturada numa arquitetura ilimitada e
inclusiva.
Talvez a característica
fundamental da soberania imperial seja que seu espaço é sempre
aberto. O poder encontra a lógica de sua ordem renovada e
recriada na expansão. Uma idéia de paz está na base do
desenvolvimento e da expansão do Império. Idéia que se opõe a
paz que só o soberano transcendente pode impor a uma sociedade
cuja natureza é definida pela guerra.
A realização da noção
imperial de soberania foi um longo processo que se desenvolveu
em diferentes fases da História constitucional dos EUA. A
Constituição americana permaneceu mais ou menos inalterada,
mas as formas de interpretação dada pela sociedade mudaram
radicalmente durante o tempo. A História constitucional dos
EUA deve ser dividida em quatro fases diferentes.
Na primeira etapa da
Constituição, o espaço aberto da fronteira torna-se o terreno
conceptual da democracia republicana. As declarações de
liberdade tiveram sentido num espaço onde a constituição do
Estado era vista como um processo aberto, uma autoconstrução
coletiva. Um território ilimitado é aberto ao desejo da
humanidade. A liberdade torna-se soberana, e a soberania é
definida como radicalmente democrática dentro de um processo
de expansão aberto e contínuo. Thomas Jefferson viu a expansão
como o complemento necessário de um estável, seguro e próspero
Império de Liberdade.
A primeira crise dessa
liberdade americana foi interna e intensiva. A escravidão
negra, herdada das potências coloniais, era uma barreira na
formação de um povo livre. Essa crise bloqueou a livre
circulação, a mistura e a igualdade que animam a fundação da
Constituição. A soberania imperial precisa, sempre, superar
barreiras e limites. Essa superação contínua é que faz o
espaço imperial manter-se aberto. A Guerra Civil reabriu o
debate sobre a escravidão que estava vinculado às discussões
sobre os novos territórios. O que estava em jogo era uma
redefinição do espaço de nação.
A recente democracia teve de destruir a idéia transcendental
de nação com todas as divisões raciais e criar seu próprio
povo, definindo uma nova ética da construção e expansão da
comunidade. Toda vez que a expansividade do projeto
constitucional encontrava seus limites, a república era
tentada a engajar-se num imperialismo de estilo europeu.
Entretanto, sempre havia outra opção: retornar ao projeto de
soberania imperial. Essa parte do projeto político americano
foi representado na Era Progressista, da década de 1890 à
Primeira Guerra Mundial. Foi o mesmo período em que a guerra
de classes passou a ocupar o centro do palco nos Estados
Unidos. A divisão de classes ameaçava desestabilizar os
equilíbrios expansivos da constituição. Ao mesmo tempo, os
grandes trustes do capital desvinculavam a riqueza da
produtividade e o dinheiro das relações de produção.
O surgimento do grande
movimento operário confirmou o fechamento do espaço
constitucional de mediação e a impossibilidade do deslocamento
espacial dos conflitos. Conceitos de "reação", "contra -
revolução ativa", "polícia preventiva" e "Estado de Pinkerton"
foram todos desenvolvidos nesse período. A repressão de
classes nos EUA foi tão dura quanto a dos soberanos europeus,
e quanto mais dura fosse a repressão, maior era a resistência.
As duas propostas que
determinaram a tendência posterior da Constituição foram
preparadas no contexto "progressista" americano do começo do
século XX. A primeira, feita por Theodore Roosevelt, exerceu
uma ideologia imperialista ao estilo europeu tradicional,
levou à experiência colonialista dos Estados Unidos nas
Filipinas. Baseava-se na idéia de "civilização" como
justificativa adequada para a conquista e a dominação
imperialista. A segunda, por Woodrow Wilson, adotou a
ideologia internacional de paz como expansão do conceito da
rede de poder, foi ridicularizada na Europa e também nos EUA.
Formou a Liga das Nações. E sua proposta correspondia a lógica
original da Constituição dos EUA e sua idéia de Império
expansivo.
Ambas pretendiam responder a
crise de relações sociais, a corrupção da Constituição pela
formação de trustes poderosos. Ambas foram marcadas pela
aprovação de importantes leis progressistas antitruste. Seu
problema comum era entender de que forma o antagonismo de
classes poderia ser aplacado. Reconheceram, que dentro dos
limites do sistema era impossível. As duas respostas
ressaltavam o movimento para o exterior.
A terceira fase ou regime da
Constituição americana entrou plenamente em vigor com a
aprovação das decisões do New Deal, como a Lei de Relações
Industriais Nacionais; a Revolução Bolchevique de 1917 e no
período em que sua ameaça ecoou nos Estados Unidos e em todo o
mundo; a divisão bipolar dos territórios do globo e a
frenética competição entre os dois sistemas. A legislação do
New Deal, juntamente com a construção de sistemas de bem -
estar social comparáveis na Europa Ocidental, pode ser vista
como resposta à ameaça evocada pela experiência soviética. Os
Estados Unidos se viram cada vez mais impelidos pela
necessidade de aplacar o antagonismo de classes, e com isso o
anticomunismo tornou-se um imperativo esmagador.
Tornou-se mais e mais
evidente durante essa fase que os EUA, longe de serem essa
nação singular e democrática que seus fundadores imaginaram,
um Império da Liberdade, foram o autor de projetos
imperialistas diretos e brutais, tanto interna como
externamente. Talvez a raiz dessas práticas imperialistas
devesse ser buscada nas origens do país - na escravidão negra
e nas guerras de genocídio contra os americanos nativos. . As
barreiras físicas e ideológicas sempre estiveram em
contradição com a noção imperial de espaços abertos e de
populações mistas. A historia dos EUA mostra que a política
americana é uma forte tradição de imperialismo com roupagem
antiimperialista.
Durante a guerra fria essa atitude imperialista tornou-se mais
intensa e mais extensiva. Proteger países em todo o mundo
contra o comunismo. O envolvimento dos EUA no Vietnã pode
muito bem ser considerado o apogeu dessa tendência. Era como
se os Estados Unidos se fossem declarar herdeiros legais das
potências européias em declínio. A Guerra do Vietnã pode ser
vista como o momento final da tendência imperialista, e
portanto um ponto de transição para um novo regime
constitucional. Podemos localizar o fim do terceiro e o começo
do quarto regime da Constituição em 1968. Antes da mudança,
houve pressão para um retorno republicano e pela volta ao
espírito da primeira Constituição preparada pelos poderosos
movimentos sociais internos. Movimentos antibelicistas, de
estudantes, feministas, direitos civis e pelo Poder Negro, foi
o surgimento dos diversos componentes da Nova Esquerda e a
declaração da reabertura dos espaços sociais.
A guerra fria travada contra
os comunistas não derrotou o inimigo, e talvez esse nunca
tenha sido seu objetivo principal. A URSS ruiu sob o fardo de
suas próprias contradições internas. O efeito mais importante
da guerra fria foi reorganizar as linhas de hegemonia dentro
do mundo imperialista, acelerando o declínio das antigas
potências e levantando a iniciativa americana de constituição
de uma ordem imperial. Esse projeto imperial define a quarta
fase da história constitucional americana. Nos anos finais da
guerra fria, a responsabilidade de exercer um poder de polícia
internacional "recaiu" sobre os americanos. A Guerra do Golfo
mostrou os Estados Unidos como o único poder capaz de
administrar justiça internacional, não como função de seus
próprios motivos nacionais, mas em nome do direito global.
A legitimação da ordem
imperial, entretanto, não se pode basear na mera eficácia da
sanção legal e do poderio militar para impô-la. Ela precisa
ser desenvolvida pela produção de normas jurídicas
internacionais que aumentem o poder do ator hegemônico de uma
forma duradoura e legal. Entre a Primeira e a Segunda Guerra,
uma série de organizações internacionais foi construída para
produzir o que nos termos contratuais tradicionais do direito
internacional é chamado de normatividade e eficácia. Com o fim
da guerra fria, os Estados Unidos foram chamados a desempenhar
o papel de garantir e dar eficácia jurídica a esse processo
complexo da formação de um novo direito supranacional. Em
todos os conflitos regionais do fim do século XX, os EUA são
chamados a intervir militarmente em nome da paz e da ordem,
uma das principais característica do Império. A Constituição
ajuda nessa posição imperial, ela é imperial e não
imperialista. É imperial porque é construído segundo o modelo
da rearticulação de um espaço aberto e da reinvenção
incessante de relações singulares e diversas em redes num
terreno ilimitado.
2.6 - SOBERANIA IMPERIAL
Há uma longa tradição de
crítica moderna dedicada a denunciar os dualismos da
modernidade. O ponto de vista dessa tradição crítica,
entretanto, está situado no lugar paradigmático da própria
modernidade, tanto "dentro" como "fora", no limiar ou no ponto
de crise. O que mudou na passagem para a ordem imperial,
entretanto, é que esse lugar fronteiriço já não existe, e
portanto a moderna estratégia crítica tende a não ser mais
efetiva.
A racionalidade da crítica
moderna, seu centro de gravidade, é proposta nessa fronteira
entre o "interior" e o "exterior". Assim como fez Foucault na
sua critica filosófica ao Iluminismo, retomando no fim a mesma
perspectiva do próprio Iluminismo. Nesse ir e vir entre o
dentro e o fora, a crítica da modernidade não vai, finalmente,
além de seus termos e limites, mas se coloca nas fronteiras.
A configuração espacial de
interior e exterior parece-nos uma característica geral, de
fundação, do pensamento moderno. Entretanto, na passagem do
moderno para o pós-moderno, e do imperialismo para o Império,
é cada vez menor a distinção entre o dentro e o fora.
Essa progressiva
indeterminação entre interior e exterior tem implicações
importantes para a produção social de subjetividade. A crise
das instituições sociais como a prisão, a família, a fabrica e
a escola, onde se fundamentam os processos de subjetividades,
faz com que os cercados que costumavam definir o espaço
limitado das instituições fossem derrubados, de modo que a
lógica que funcionava principalmente dentro das paredes
institucionais agora se espalha por todo terreno social.
Enquanto no processo de modernização os países mais poderosos
exportam formas institucionais para os países subordinados, no
atual processo de pós-modernização, o que se exporta é a crise
geral das instituições. A estrutura institucional do Império é
como um programa de software que carrega um vírus, de modo que
está continuamente regulando e corrompendo as formas
institucionais a sua volta. A sociedade imperial de controle é
tendencialmente em toda parte a ordem do dia.
No mundo imperial, a
dialética da soberania entre a ordem civil e a ordem natural
chegou ao fim. A moderna dialética entre o dentro e o fora foi
substituída por um jogo de graus e intensidade, de hibridismos
e artificialidade.
A esse respeito, a análise da
sociedade do espetáculo feita por Guy Debord, a mais de trinta
anosparece atual e pertinente. Na sociedade imperial o
espetáculo é um lugar virtual, ou mais corretamente um
não-lugar. A noção liberal do público, o lugar exterior onde
agimos na presença de outros, foi universalizada e sublimada
ou desefetivada nos espaços virtuais do espetáculo.
O espaço estriado da
modernidade construiu lugares que estavam continuamente
ocupados efundamentados num jogo dialético com seu exterior.
Contrastando com isso, o espaço da soberania imperial é liso.
Pode parecer livre das divisões binárias ou dos estriamentos
das fronteiras modernas, mas na realidade é cruzado por tantas
falhas que só na aparência é continuo e uniforme. Nesse
sentido, a crise da modernidade, definida com contornos
claros, cede a vez a uma onicrise no mundo imperial. No espaço
liso do Império, não há lugar de poder - ele esta ao mesmo
tempo em todos os lugares e em lugar nenhum.
A passagem da soberania
moderna para a soberania imperial mostra uma das suas faces da
nas configurações movediças do racismo em nossa sociedade. Com
a passagem para o Império as diferenças biológicas foram
substituídas por significadores culturais como a representação
mais importante do ódio e do medo raciais.
A teoria racista imperial
concorda que as raças não constituem unidades biológicas
isoláveis e que a natureza não pode ser dividida em diferentes
raças humanas. Ela também concorda que o comportamento de
indivíduos e suas habilidades e aptidões não são resultado de
seu sangue e seus genes, mas se devem ao fato deles
pertencerem a diferentes culturas historicamente determinadas.
Isso mostra que o Império não pensa em diferenças em termos
absolutos; nunca propõe as diferenças raciais como diferenças
da natureza, mas como diferenças de grau, nunca como
necessárias, mas como acidentais. A subordinação é realizada
em regimes de práticas diárias, que são móveis e flexíveis mas
criam hierarquias sociais estáveis e brutais, apesar de tudo.
A forma e as estratégias do racismo imperial ajudam a
acentuar, mais genericamente, o contraste entre a soberania
moderna e a soberania imperial.
O aparelho geral de comando
do Império consiste na realidade em três momentos: um
inclusivo, outro diferencial, e um terceiro gerencial.
O primeiro momento é a face
magnânima e liberal do Império. Onde todos são bem-vindos
dentro de suas fronteiras, independente de raça, credo cor
gênero, orientação sexual e assim por diante. Em seu momento
de incluir, o Império é cego para as diferenças; é
absolutamente indiferente a sua aceitação.
O segundo momento de controle
imperial, seu momento diferencial, envolve a afirmação das
diferenças aceitas dentro do domínio imperial. Como essas
diferenças são consideradas culturais e contingentes, em vez
de biológicas e essenciais, julgam-se que elas não afetam a
faixa central de comunidade ou consenso sobreposto que
caracteriza o mecanismo inclusivo do Império.
O momento diferencial de
controle imperial precisa ser seguido pela administração e
hierarquização dessas diferenças numa economia geral de
comando.
O Império esta diante de
múltiplas variáveis complexas que mudam continuamente e
admitem uma variedade de soluções sempre incompletas, mas
ainda sim efetivas.
Contingência, mobilidade e
flexibilidade são o verdadeiro poder do Império. A "solução"
imperial não será negar ou atenuar essas diferenças, mas, de
preferência, afirma-las e ordená-las num efetivo aparelho de
comando.
Portanto, o triplo imperativo
do Império é incorporar, diferenciar e administrar.
Podemos ver que a soberania
imperial é organizada não em torno de um conflito central, mas
através de uma rede flexível de microconflitos. As tradições
da sociedade imperial são imprecisas, não localizáveis e ficam
proliferando: estão em toda parte. Mais do que a crise ,
portanto, o conceito que define a soberania imperial pode ser
a onicrise, ou, como preferimos, corrupção.
Afirmar que a soberania
imperial é definida por corrupção significa, de um lado, que o
Império é impuro ou híbrido e, de outro, que o governo
imperial funciona sucumbindo. Assim como a crise da
modernidade nessa caracterização não aponta para um colapso
iminente ou necessário, a corrupção do Império não indica uma
telelogia ou um fim à vista. A corrupção não é a aberração da
soberania imperial, mas sua própria essência. A economia
imperial, por exemplo, funciona precisamente pela corrupção, e
não poderia funcionar de outra maneira. A soberania imperial
prospera nas contradições multiplicadas a que a corrupção dá
origem; ela é estabilizada por suas instabilidades, por suas
impurezas e misturas; acalmada pelo pânico e pelas ansiedades
que continuamente produz.
Chegasse assim a uma série de
distinções que marcam conceitualmente a passagem da soberania
moderna para a soberania imperial: do povo para a multidão, da
oposição dialética para a administração de híbridos, do lugar
da soberania moderna para o não-lugar do Império, da crise
para a corrupção.
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