Suíços

Análise

De Colonos a Jardineiros da Natureza

Dois mecanismos específicos são marcantes na reprodução social dos imigrantes suíços e alemães: a mobilidade espacial associada à instabilidade crônica das condições de produção agrícola e o sistema de herança de terra baseado na partilha igualitária.

A política colonial de D. João VI de contrabalançar a mão-de-obra escrava negra com trabalhadores brancos resultou na fixação dos imigrantes na região de Nova Friburgo. O clima da Fazenda de Morro Queimado (hoje Nova Friburgo) – tido como mais próximo ao da Suíça colaborou à opção para abrigar a população oriunda do Cantão de Friburg.

Boa parte desses imigrantes ficaram insatisfeitos, querendo migrar para o Rio ou para o Sul. A primeira crise dos colonos foi marcada pela topografia acidentada que dificultava a agricultura e o contato entre os lotes, a deficiência das comunicações com os centros urbanos, além da ausência de uma administração eficaz.

Para contrabalançar o esvaziamento e o fracasso da colônia de Morro Queimado, imigrantes alemães (que estavam em Niterói) foram se incorporando.

Os lotes, que atingiam aproximadamente 108 ha, foram distribuídos aleatoriamente sem levar em consideração as condições geográficas da região. Apos retirarem seu lote através de sorteio, os chefes de família só tomavam conhecimento de fato ao desbravarem a mata que os cobria. Muitos se depararam com precipícios e solos não apropriados à agricultura.

Primeira diferenciação social: com base na sorte, aqueles que conseguiram terras mais férteis e planas tiveram melhores condições para estabelecerem unidades produtivas mais rentáveis. Os de maior sorte e de maior poder aquisitivo que conseguiram se estabelecer em terras menos acidentadas e férteis desenvolveram a agricultura comercial, enquanto os demais centraram na reprodução social na agricultura de alimentos voltada para o autoconsumo, com base no trabalho familiar e em baixos técnicos.

Outro fator para diferenciação: a origem social do grupo não era homogênea. D. João tinha determinado que o contingente de colonos deveria incluir “bastante artistas dos mais essenciais“, visando possibilidades de importar técnicas e saberes industriais. Do total, 48% das profissões ligadas ao setor agrícola , 47% artesãos de diferentes especialidades.

A ausência de uma identidade social centrada na origem étnica, assim como a memória genealógica curta distinguem essa população da que se instalou no sul do país.

A insuficiência de recursos e a sobrevivência centrada no acesso à terra e na agricultura familiar exigiu freqüentes deslocamentos em busca de condições mais estáveis. O costume da partilha igualitária da terra como forma de deslocamento; a fragmentação continua das propriedades resultou em áreas insuficientes para a atividade agrícola.

A dispersão constante ajudou a destruir condições necessárias à reprodução e transmissão da memória. A perda de referências espaciais e pessoais, sobretudo na família, explica a ausência da construção de uma identidade sustentada na origem étnica.

A partir de 1980, quando a estrada é asfaltada, Lumiar passa a ser procurada como atração turística, principalmente por jovens da classe media urbana que vieram quebrar a tranqüilidade que dominou por 160 anos.

A precariedade e a instabilidade das condições de vida são características que marcam o campesinato brasileiro. A agricultura de pequena escala não permitiu rentabilidade suficiente para promover uma acumulação de bens e investimento na produção. Sob precariedade de condições de vida e reprodução social, a população sofre em processo de caipirizacão.

Os colonos enfrentaram situação que em nada diferia da dos demais camponeses pobres da região apesar de não ingressarem na camada dos despossuidos. A dificuldade em se manterem exclusivamente da agricultura é um fator que favoreceu a instalação das industrias de confecções em Nova Friburgo. A pratica da pluriatividade (a combinação entre agricultura e atividade não agrícola no âmbito da mesma unidade familiar) foi iniciada.

Favorecida pela abertura da estrada, a produção mercantil vai aos poucos se impondo, deslocando para segundo plano a produção para o auto-consumo, aumentando a dependência com o mercado.

As crises cíclicas obrigaram os proprietários à venda de suas terras deixando de lado a produção agrícola; eles venderam a terra na ilusão de uma vida mais fácil com os frutos de investimento do dinheiro resultante na venda. Descapitalizados, muitos acabaram engrossando o mercado de trabalho informal como ambulantes nas ruas de Friburgo.

O sistema de parceria entre pai e filhos, ao preservar o controle da terra sob uma determinada família e reforçar os vínculos simbólicos entre terra/localidade e família parece responder muito mais à defesa dessa comunidade a ameaças externas do que a defesa da integridade do patrimônio familiar.
Partilha generalizada: a mulher herda uma parcela de terra já destituída de valor econômico e de valor simbólico.

Turismo: A especulação imobiliária e alimentada pela chegada dos neo-rurais – normalmente ex-profissionais liberais. Áreas até então dedicadas à lavoura vão se transformando em áreas de lazer. Os agricultores passam a investir em construção de casas de aluguel, agravando a manutenção da atividade produtiva. A agricultura vai perdendo sua importância econômica principalmente para os jovens que passam a encontrar melhor remuneração em outras atividades como jardineiro, caseiro e pedreiro.

A pluriatividade que articula a agricultura com a exploração turística permite não só a permanência no campo, mas também a manutenção da atividade agrícola voltada para o auto-consumo.

A grande maioria dos jovens entrevistados (80%) não almeja abandonar a localidade onde nasceu. Os valores conformadores de uma imagem urbana sobre a rural, tais como a tranqüilidade, a segurança e a beleza do lugar e a falta de poluição aparecem em primeiro plano, mas combinados com os valores de uma identidade ainda ancorada no sentimento de pertencimento à localidade.

Autores: Lucas Yatudo Fraiha e Helder C. Pinto.
Trabalho orientado e coordenado pelo professor Mohammed ElHajji.

voltar para o canal Terrítorios

voltar para HOME

 



Etni-cidade