Leituras no Império

Análise

Transições de Produção
Eliane Eufrásio Vieira

Este capítulo relata a transição da modernidade para a pós-modernidade, descrevendo como produção é compreendida num sentido amplo que abrange desde o fator econômico à produção de subjetividade, e cobre um período que compreende o fim do século XIX até os dias atuais.

Os limites do Imperialismo: o Capital necessita expandir-se em seu processo para a sua plena realização, com fins de escoar a mercadoria produzida e acumular mais capital. Uma vez diminuído o poder de consumo do trabalhador que produziu a mercadoria, o Capital necessita criar novos desejos e necessidades de consumo, além de ter que se expandir de forma circular e cada vez maior para buscar novos mercados consumidores. Essa internalização do exterior - ampliando para fora de seu território o mercado consumidor, objetiva não só a necessidade de realização do capital, mas também de concretizar seu processo de capitalização - uma ampliação cada vez maior do mercado para futuras realizações.

Os Estados-Nação europeus usaram o imperialismo para transferir para fora de suas fronteiras as contradições políticas existentes em seus países - as lutas de classes e a guerra civil para preservar a ordem e a soberania internas. Isso significa uma barreira à expansão capitalista, cria uma "camisa de força" para o a capital. Uma vez havendo a necessidade de expansão juntamente scom esses bloqueio dos Estados-Nação, Lênin conclui: "ou haverá uma revolução comunista ou o Império".

Governabilidade disciplinar: a Revolução Soviética em 1917 e as movimentações no período da guerra impôs uma decisão: ou a revolução comunista ou a transformação do Imperialismo em Império. Na década de 20 o crescimento e a concentração da produção industrial continuou crescendo rapidamente, e a difusão do Taylorismo permitiu níveis cada vez mais elevados de produtividade. A implantação do modelo fordiano, com regimes salariais fortes e rígidos foram vacinas preventivas do comunismo crescente. Este era o panorama pôr trás da grande crise econômica de 1929 - uma crise de superinvestimento capitalista e subconsumo proletário nos países capitalistas dominantes. A proposição do New Deal teve fundamental importância para a análise da passagem para o Império. Não só pôr sua capacidade de reestruturar as relações de produção e poder dentro de um único país capitalista dominante, mas também em termos de seu profundo efeito pelo mundo. O New Deal foi apoiado pôr uma forte subjetividade política entre forças populares e a elite. O Estado também assumir um papéis central na regulamentação da economia enquanto o Keynesianismo foi aplicado às políticas trabalhistas e monetárias.

Logo, esse desenvolvimento produziu a trindade que constituiria o moderno Estado de Bem-Estar Social: uma síntese de Taylorismo na organização de trabalho, Fordismo no regime salarial e Keynesianismo na regulamentação macroeconômica da sociedade.

Conclui-se, portanto, que o New Deal foi o primeiro caso de forte subjetividade a tender na direção do Império, pois produziu a mais alta forma de governo Disciplinar. Neste, toda sociedade com todas as suas articulações produtivas e reprodutivas, é subordinada ao comando do Capital e do Estado , e a sociedade tende a ser governada apenas pelo critério da produção capitalista.

Surge, então, o Estado Disciplinar global, que levou em conta os ciclos de vida das populações ordenando sua produção e reprodução dentro de um esquema de regime monetário estável. A soberania proporcionou aos EUA pleno domínio, e um modelo a ser seguido até a década de 60.

Como resultado desse projeto de reforma econômica sob hegemonia americana, a nova cena global foi definida e organizada em torno de três mecanismos:

" descolonização - onde a Guerra do Vietnã foi o episódio final da herança do manto imperialista;

" descentralização dos locais e dos fluxos de produção - as transnacionais transferiam tecnologia para construção da novos eixos produtivos, mobilizaram a força de trabalho e as capacidade produtivas de países subordinados;

" o modelo ideológico projetado a partir dos países dominantes consistia em regimes salariais fordianos, métodos tayloristas de organização de trabalho, e um estado de bem-estar social que seria modernizador, paternalista e protetor.

Frente à gigantesca transformação pós-colonial do terceiro mundo, as teorias clássicas de imperialismo e anti-imperialismo perderam qualquer poder que possam ter tido, assim como o paradigma da soberania moderna perdeu sua eficácia.

Logo, exploração e dominação já não poderiam ser impostas em suas formas tradicionais. Estava ocorrendo uma mudança de paradigma, onde o mercado mundial como estrutura de hierarquia e comando tornou-se mais importante e decisivo em todas as zonas e regiões nas quais os velhos imperialismos tenham operado.

Quando o novo regime disciplinar guia a tendência para um mercado global de força de trabalho, constrói também a possibilidade de sua antítese - o desejo de escapar do regime. A crescente mobilidade do proletariado é outra característica da conseqüência da unificação do mercado mundial. Logo, os efeitos macroeconômicos dessa nova mobilidade se tornam cada vez mais difícil de administrar.

O terceiro mundo não desaparece, mas entra no primeiro e se estabelece como gueto. Pôr sua vez, o primeiro mundo é transferido para o terceiro em forma de bolsas de valores e bancos como forma de aplicação efetiva da administração e do comando capitalista. N esse ponto, os regimes capitalistas precisam passar pôr um processo de reforma e reestruturação para assegurar sua capacidade de organizar o mercado mundial. Portanto, a subordinação formal do trabalho, através da disciplina e da integração do trabalho ao capital, passa à SUBORDINAÇÃO REAL.

RESISTÊNCIA, CRISE E TRANSFORMAÇÃO

A guerra do Vietnã tornou-se um símbolo de expressão de subjetividade camponesa e proletária, um exemplo de resistência e virada na história das lutas no mundo inteiro, tendo como inimigo a ordem disciplinar internacional.

No final da década de 1960, o sistema internacional de produção estava em crise. Não só pela dinâmica do capital que carrega a crise em seu processo, mas causada diretamente pôr conflito proletário. A recusa ao trabalho de fábrica, o repúdio ao regime disciplinar e a afirmação da esfera de não-trabalho tornaram-se as características definidoras de um novo conjunto de práticas coletivas. As três características primárias do mercado de trabalho - a separação de grupos sociais (por classe, raça, etnia ou sexo), a fluidez do mercado de trabalho (mobilidade social, terceirização, novas relações entre trabalho produtivo...)e as hierarquias do mercado de trabalho abstrato - foram ameaçadas pela crescente rigidez e comunalidade das demandas trabalhistas. Esse período de transição só fez intensificar as práticas de produção imperialistas e, com isso, determinou a "acumulação de lutas", levando-as à uma esfera global.

Os autores, porém, rejeitam as teorias de que o potencial de revolução reside exclusivamente no Terceiro Mundo, deixando de perceber a convergência real de lutas em todo o globo, tanto nos países dominantes como nos subordinados.

RESPOSTA À CRISE: a medida que as lutas cresciam, minavam a capacidade de disciplina capitalista e imperialista. A ordem que dominara o mundo pôr 30 anos começou a desfazer-se. O sistema de Bretton Woods baseava-se em três elementos fundamentais: * a ampla hegemonia dos USA sobre todos os países não socialistas, exigia o acordo de estabilização monetária entre os USA e outros países capitalistas dominantes, e, o estabelecimento de uma relação quase imperialista dos USA com todos os países subordinados não socialistas. Esta foi, portanto, a face monetária e financeira da hegemonia do modelo do New Deal sobre a economia capitalista global.

A vitória vietnamita sobre os USA foi a gota dágua para a vindoura crise geral dos anos 70, onde torna-se oficial e estrutural. Nixon desvinculou o dólar do padrão ouro, todo o débito americano foi levado para a Europa... logo, uma reconstrução do sistema internacional teria de envolver uma ampla reestruturação das relações econômicas e uma mudança de paradigma na definição do comando mundial. Uma crise, nem sempre, portanto, é um evento inteiramente negativo ou mal recebido. Marx argumenta que o capital tem, na verdade, um interesse fundamental na crise econômica, por seu poder transformador.

O primeiro caminho nessa direção foi a opção repressiva: o uso repressivo da tecnologia, incluindo a automação e informatização da produção que visou inverter o processo social, dividindo e desagregando o mercado de trabalho, e restabelecendo o controle de todo o ciclo de produção.

O segundo caminho foi mudar a própria composição do proletariado e, dessa maneira, a integrar, dominar e obter lucros com suas novas práticas. O poder do proletariado impõe limites ao capital, e não apenas determina a crise mas também dita os termos e a natureza da transformação. O capital teve de enfrentar a nova produção de subjetividade do proletariado e a ela reagir. Essa nova produção de subjetividade atingiu o que pode ser chamado de luta ecológica, uma luta pelo modo de vida, que acabaria sendo expresso no desenvolvimento do trabalho imaterial.

A era disciplinar foi usada pelos trabalhadores, principalmente em seus momentos de desestabilização política, para ampliar os poderes sociais do trabalho, aumentar o valor da força de trabalho, e redesenhar o conjunto de necessidades e desejos aos quais o salário e o bem-estar social tiveram de responder. O aumento da qualidade do tempo de não-trabalho, encadeando um enorme aumento do salário social nos anos 60 e 70, resultou diretamente da acumulação de lutas sociais, no terreno da reprodução, no terreno do não-trabalho, no terreno da vida. Pode-se dizer que a recusa em massa do regime disciplinar, que assumiu uma variedade de formas, foi não só uma expressão negativa mas também um momento de criação, o que Nietzsche chama de

TRANSVALIAÇÃO DE VALORES

Por um lado, as relações capitalistas foram ampliadas para subjugar todos os aspectos da produção e reprodução social; e por outro, relações culturais redefiniram processos de produção e estruturas econômicas de valor. Um regime de produção, e acima de tudo um regime de produção de subjetividade, foi destruído e outro inventado pela enorme acumulação de lutas. Esses novos circuitos de produção de subjetividade foram realizados dentro e contra o período final da organização disciplinar da sociedade.

O capital não precisou inventar um novo paradigma porque o momento realmente criativo já tinha ocorrido. O capital reconfigurou-se frente a essa nova força de trabalho imaterial, cooperativa, comunicativa e afetiva, para prosperar e continuar governando.

3.4. PÓS-MODERNIZAÇÃO, OU A INFORMATIZAÇÃO DA PRODUÇÃO.

Desde a Idade Média, há uma sucessão de paradigmas econômicos: agricultura e extração de matéria-prima dominaram a economia primeiramente; depois a indústria e a fabricação de bens duráveis ocuparam posição privilegiada num segundo momento; e - o atual- no qual a oferta de serviços e o manuseio de informações estão no coração da produção econômica.

Os processos de modernização e industrialização transformaram e redefiniram todos os elementos do plano social. Quando a agricultura foi modernizada, a fazenda tornou-se uma fábrica. Em nossa época, porém a modernização acabou, ou seja, a produção industrial já não estende sua dominação sobre outras formas econômicas e outros fenômenos sociais. O processo de pós-modernização tem sido demonstrado pela MIGRAÇÃO da indústria para os serviços (modelo secundário para o terciário), mudança essa ocorrida desde o começo da década de 70, inicialmente nos USA.

Essa nova "economia de informação" é caracterizada pelo papel central desempenhado por conhecimento, informação, afeto e comunicação, além da exigência de flexibilidade de aptidões.

Os USA encabeçam essa tendência que se inclina para um modelo de economia de serviço, onde cresce rapidamente o número de postos de trabalho no setor de serviços, em especial, os serviços financeiros. Os países concentrados na indústria são subordinados a estes, e os agrícolas subordinados ao segundo. Mas essa perspectiva da competição baseada na modernização da produção não é a chave para o sucesso econômico. A competição por níveis hierárquicos não é conduzido mais pela industrialização, mas sim pela informatização - não é preciso haver uma progressão histórica entre essas formas, porque, na realidade elas se misturam.

A transição para a economia informacional envolve uma mudança na qualidade e natureza do trabalho. Diferente dos modelos Fordista e Toyotista, nesse novo modelo de produção, a maioria dos serviços se baseia na permuta contínua de informações e conhecimentos. Como a produção de serviços não resulta em bem material e durável, define-se o trabalho envolvido nessa produção como TRABALHO IMATERIAL - que produz um bem imaterial, como serviço, produto cultural, conhecimento ou comunicação.

A revolução de produção da comunicação e da informática transformou práticas laboriais a tal ponto que todas elas tendem ao modelo das tecnologias de informação e comunicação. A outra face do trabalho imaterial é o trabalho afetivo, do contato e interação humanos. Esse trabalho é imaterial, uma vez que seus produtos são intangíveis, um sentimento de conforto, bem-estar, satisfação, excitação ou paixão. Essas trocas e comunicação afetivas estão geralmente associadas ao contato humano, mas tal contato pode ser real ou virtual, como ocorre na indústria do entretenimento.

A primeira conseqüência geográfica da passagem de uma economia industrial para economia de informação é uma dramática descentralização da produção. A intensa agregação de forças produtivas e de migrações em massa de força de trabalho para centros que se tornaram cidades fabris, que aumentaram a eficiência industrial, não é mais necessária pois o avanço das tecnologias de informação tornou possível desterritorializar a produção. A comunicação e o controle são exercidos eficientemente à distância, e em alguns casos produtos imateriais podem ser transportados pelo mundo a custos mínimos de tempo e dinheiro. Nessa transição para a economia informacional, a linha de montagem foi substituída pela rede como modelo de organização da produção, alterando as formas de cooperação e comunicação dentro de cada lugar que produz e entre os lugares de produção. Em oposição ao velho modelo vertical industrial e social, a produção tende, agora, a ser organizada em redes horizontais de empresas

O desenvolvimento da telefonia celular e dos computadores portáteis, que desamarra de forma ainda mais radical os pontos de comunicação da rede, intensificou o processo de desterritorialização. Mas o elemento que assegura a sobrevivência da rede, a descentralização, é o mesmo que torna tão difícil controlá-la. Como nenhum ponto da rede é necessário para que os outros pontos se comuniquem, é difícil para a Internet regulamentar ou proibir a comunicação entre eles. Este modelo democrático é o que Deleuze e Gattari chamam de RIZOMA, uma estrutura de rede não hierárquica e não centralizada. As novas tecnologias que oferecem a promessa de uma nova democracia e de uma nova igualdade social, de fato criaram novas linhas de desigualdade e exclusão, dentro dos países dominantes e, especialmente, fora deles

3.5. CONSTITUIÇÃO MISTA.

A mudança de paradigma de produção para o modelo de rede fomentou o poder crescente das empresas transnacionais. A novidade desta relação deve ser reconhecida em termos da disputa de poder há muito existente entre capitalistas e o Estado. Porém, apesar do antagonismo entre estes, a relação só é realmente conflituosa quando os capitalistas são considerados individualmente. A competição ente os capitalistas não assegura o bem comum do capitalista coletivo, pois seu impulso egoísta imediato de obter lucro é fundamentalmente míope. Por prudência, o Estado é exigido para mediar os interesses dos capitalistas como indivíduos, elevando-os, no interesse coletivo do capital. Logo, os capitalistas combaterão todos os poderes do Estado, mesmo quando este atue em seu próprio favor.

Se fosse esse o caso, se o Estado tivesse realmente deixado de administrar os negócios do capital coletivo, os capitalistas é que deveriam temer o futuro. Sem o Estado, o capital social não tem como projetar e realizar seus interesses coletivos. A fase contemporânea não está adequadamente caracterizada pela vitória das empresas capitalistas sobre o Estado. apesar dos poderes do Estado terem sido desgastados, funções do Estado e elementos constitucionais foram efetivamente deslocados para outros níveis e domínios.

Há hoje uma crise de relações políticas no contexto nacional. A noção de política, hoje, tem pouca razão de ser. O consenso é determinado, mais significativamente, por fatores econômicos, como equilíbrio de balanças e a especulação sobre o valor das moedas. Logo, pode-se dizer que a política não desaparece; o que desaparece é a noção de autonomia do político.

O declínio dessa esfera política autônoma indica o declínio de qualquer espaço independente onde revolução possa surgir no regime político nacional. A idéia tradicional de contrapoder e a idéia de resistência contra a soberania moderna em geral tornam-se cada vez menos possível. Mais uma vez, um novo tipo de resistência precisa ser inventado.

A primeira vista, o novo quadro constitucional mundial aparecer como um conjunto de controles e de organizações representativas desordenado e até mesmo caótico. Porém, quando analisamos as configurações do poder global, com seus diversos corpos e organizações, pode-se reconhecer uma estrutura piramidal: no cume, a única superpotência- os USA, que detém a hegemonia sobre o uso global da força. Num segundo nível, ainda na primeira camada estão os Estados-Nação (G-7, clubes de londres e de paris...)e, em terceiro nível da primeira camada, um conjunto heterogêneo de associações, que demonstra poder cultural e biopolítico em nível global.

Na Segunda camada, com comando mais distribuído pelo mundo, redes de empresas capitalistas transnacionais, redes de fluxo de capital, de tecnologia, de população etc.. ainda na Segunda camada reside o conjunto de Estados-Nação que agora funcionam como filtros no fluxo de circulação global e reguladores na articulação do comando global, ou seja, eles captam e distribuem os fluxos de riqueza do e para o poder global, e disciplinam suas próprias populações tanto quanto possível.

A terceira e mais ampla camada consiste em grupos que representam interesses populares no arranjo global de poder. A multidão não pode ser incorporada diretamente às estruturas de poder global, mas precisa ser filtrada através de mecanismos de representação. Nessa terceira camada, o Povo global é representado mais clara e diretamente não por organismos governamentais, mas por uma variedade de organizações que são pelo menos relativamente independentes dos Estados-Nação.

As forças mais novas e talvez mais importantes da sociedade civil global são as ONG's. São organizações que pretendem representar o povo e trabalhar em seu interesse, à parte das estruturas de Estado. As ONG's são sinônimo de "organizações do povo" porque o interesse do povo é definido como distinto do interesse do Estado. No contexto do Império, existem subconjuntos de ONG's que se esforçam para representar os últimos entre nós, aqueles que não podem se representar a si próprios. Essas ONG's estão entre as mais fortes e eminentes na ordem global contemporânea. Seu mandato não consiste em promover os interesses particulares de qualquer grupo delimitado, mas sim em representar diretamente interesses humanos globais e universais. E elas vão além, o que de fato representam é a força vital que seve de base ao Povo, e assim transformam a política numa questão de vida geral, são extremos capilares das redes contemporâneas de poder. Aqui, neste nível mais vasto e mais universal, as atividades dessas ONG's coincidem com as ações do Império além da política, no terreno do biopoder, satisfazendo as necessidades da própria vida.

O arranjo contemporâneo da constituição pode ser mais compreendido em termos pós-modernos como uma evolução para além do modelo moderno. O quadro de formalização jurídica, o mecanismo constitucional de garantias e o esquema de equilibro são, todos, transformados em dois eixos primários na passagem do terreno moderno para o pós-moderno:

" O primeiro eixo de transformação envolve a natureza de mistura da constituição, um processo de hibridização das funções governamentais na situação atual. Os processos da sujeição real, de submeter o trabalho ao capital e absorver a sociedade global dentro do Império, forçam as figuras de poder a destruir a medida e a distância espacial que definiram sua relação, fundindo as figuras em formas híbridas. A mutação das relações espaciais altera o próprio exercício do poder, e a relação unilateral entre produção e consumo torna-se mais importante quando a produção de mercadorias tende a ser definida por serviços imateriais embebidos nas estruturas da rede. Podemos, portanto, situar esse primeiro eixo de transformação como uma passagem da constituição mista para a constituição híbrida.

" O segundo eixo de transformação constitucional é revelado pelo fato de que na fase atual, o comando precisa ser exercido em grau cada vez maior sobre as dimensões temporais da sociedade, e com isso, sobre a dimensão da subjetividade. Os processo de cooperação social precisam ser constitucionalmente formalizados como função aristocrática embora as funções monárquicas e aristocráticas aludam às dimensões subjetivas a produtivas da nova constituição híbrida. A chave dessas transformações está no momento democrático e a dimensão temporal do momento democrático deve referir-se finalmente à multidão.

Os autores têm como maior objetivo nessa análise dos processos e figuras constitucionais do Império reconhecer o terreno no qual podem surgir contestações e alternativas. No Império, a CONSTITUIÇÃO é o espaço de disputa, mas a natureza desse espaço e dessa luta não é nem um pouco clara. As linhas gerais da constituição imperial de hoje podem ser concebidas na forma de uma rede de comunicações rizomática e universal, na qual relações são estabelecidas de e para seus pontos e nós. Paradoxalmente, essa rede parece estar ao mesmo tempo completamente aberta e completamente fechada para a luta e a intervenção. De um lado, a rede formalmente permite a todos os sujeitos estarem presentes simultaneamente, mas de outro, a rede em si mesma é um não-lugar real e apropriado. Existem três variáveis que definirão essa luta, variáveis que atuam no domínio entre o comum e o singular, entre a produção de subjetividade pelo poder e a resistência autônoma dos próprios sujeitos:

" a primeira variável envolve a garantia da rede e de seu controle geral de modo que (positivamente) possa sempre funcionar, e (negativamente) não possa funcionar contra aqueles que estão no poder.

" A Segunda variável diz respeito àqueles que distribuem serviços na rede e à pretensão de que esses serviços são equitativamente remunerados, de modo que a rede possa sustentar e reproduzir a segmentação política e social adequada.

" A terceira variável, finalmente, é apresentada dentro da própria rede. Diz respeito aos mecanismos pelos quais as diferenças entre subjetividades são produzidas e aos modos em que essas diferenças são levadas a funcionar dentro do sistema.

De acordo com essas variáveis, cada subjetividade precisa tornar-se um indivíduo governado nas redes gerais de controle e ao mesmo tempo precisa também ser um agente independente de produção e consumo dentro das redes. Essa articulação dupla será realmente possível? Será possível para o sistema sustentar simultaneamente a sujeição política e a subjetividade do produtor/consumidor? Na verdade não parece que seja. A condição fundamental da existência da rede universal, que é a hipótese central desse cenário, é que ela seja híbrida e que o sujeito político seja efêmero e passivo enquanto o agente de produção seja presente e ativo. Isso quer dizer que, longe de ser a simples repetição de um equilíbrio tradicional, a formação na nova constituição mista conduz a um desequilíbrio fundamental entre os atores estabelecidos e, portanto, a uma nova dinâmica social que libera o sujeito produtor e consumidor do mecanismo de sujeição política. É aqui que o lugar básico de luta parece emergir, no terreno da produção e regulamentação de subjetividade.

O campo aberto de luta que parece surgir desta análise, entretanto, rapidamente desaparece quando examinamos os novos mecanismos pelos quais essas redes híbridas de participação são manipuladas do alto. De fato, a cola que segura os diversos corpos e funções da constituição híbrida é o que Guy Debord chama de espetáculo, um aparato integrado e difuso de imagens e idéias que produz e regula o discurso e a opinião públicos. Na sociedade do espetáculo, o que já foi imaginado como esfera pública evaporou-se completamente. O espetáculo destrói qualquer forma coletiva de socialidade - individualizando atores sociais e, ao mesmo tempo, impõe uma nova socialidade de massa, uma nova uniformidade de ação e pensamento. Hoje, a diferença de da manipulação da política pela mídia não é, na verdade, uma diferença de natureza mas uma diferença de grau. Certamente existiram anteriormente numerosos mecanismos para moldar opinião pública e a percepção pública da sociedade, mas a mídia contemporânea oferece instrumentos imensamente mais poderosos para essas tarefas. Como diz Debord, na sociedade do espetáculo "apenas o que parece, existe", e a mídia tem monopólio sobre aquilo que parece ser. Essa lei do espetáculo claramente domina no reino da política impulsionada pela mídia, uma arte de manipulação talvez desenvolvida em primeiro lugar nos USA, mas agora pelo mundo todo. Haja vista que campanhas políticas têm obedecido à lógica da publicidade e a participação política acaba sendo reduzida à escolha entre as diversas imagens consumíveis. No entanto, quando falamos em espetáculo, não existe um homenzinho por trás da cortina, um grande Mágico de Oz que controla tudo que é visto, pensado e feito. Não existe um lugar único de controle quer dita ao espetáculo. Este, entretanto, geralmente funciono como se existisse esse ponto de controle central. Como diz Frederic Jameson, teorias conspiratórias são um mecanismo cru, mas eficaz para aproximar o funcionamento da totalidade. O espetáculo da política funciona como se a mídia, as forças armadas, o governo, as empresas..., fossem todos consciente e explicitamente dirigidos por um único poder, apesar de não o serem.

Segundo Hobbes, é o medo que une e assegura a ordem social e, ainda hoje, é o principal mecanismo de controle que enche a sociedade do espetáculo.

3.6. SOBERANIA CAPITALISTA, OU ADMINISTRANDO A SOCIEDAD GLOBAL DE CONTROLE.

Capital e soberania podem parecer uma combinação contraditória. O soberano é o superávit de poder que serve para resolver ou adiar a crise da modernidade. Além disso, a soberania moderna opera por meio da criação e manutenção de fronteiras fixas entre territórios, populações e funções sociais, e é também um superávit de código, uma supercodificação de fluxos e funções sociais. Ou seja, a soberania opera mediante o estreitamento do campo social.

O capital, diferentemente, opera no plano da imanência, através de redes de relações de dominação, sem recorrer a um centro transcendente de poder.

O capital exige não um poder transcendente, mas um mecanismo de controle que reside no plano de imanência. Pelo desenvolvimento social do capital, os mecanismos de soberania moderna (os processos de codificação, supercodificação e recodificação que impõem uma ordem transcendente sobre um terreno social limitado e segmentado), são progressivamente substituídos por um conjunto de equações e relações que determina e combina variáveis e coeficientes imediatamente e de maneira idêntica através dos diversos terrenos sem referência a definições ou termos anteriores e fixos. Dentro de um sistema axiomático, postulados "são proposições que podem ser verdadeiras ou falsas, pois contêm variáveis relativamente indeterminadas". O capital tende a um espaço liso definido por fluxos não codificados, flexibilidade, modulação contínua e equalização tendencial.

A transcendência da soberania moderna entra em conflito, dessa maneira, com a imanência do capital. Historicamente, o capital tem se baseado na soberania e no apoio de seus instrumentos de direito e de força, mas essas mesmas estruturas continuamente contradizem em princípio, e obstruem na prática, a operação do capital, finalmente obstruindo seu desenvolvimento. Cada paradigma moderno de soberania, de fato, apóia a operação do capital por um período histórico específico, mas, ao mesmo tempo apresenta obstáculos ao desenvolvimento do capital que terão de ser superados. Essa relação é talvez a problemática central a ser confrontada por qualquer teoria do estado capitalista.

A sociedade civil serviu por um período histórico como mediadora entre as forças imanentes do capital e o poder transcendente da soberania moderna. A sociedade civil medeia entre os (imanentes) Muitos e o (transcendente) Um. Ou seja, a sociedade civil era o terreno do tornar-se imanente da moderna soberania estatal (para o capitalista) e ao mesmo tempo, inversamente, do tornar-se transcendente da sociedade capitalista (para o Estado). Em nossa época, entretanto, esta já não serve como o ponto adequado de mediação entre o capital e a soberania. As estruturas e instituições que hoje a constituem estão, progressivamente, definhando. Este definhamento pode ser reconhecido como concomitante com a passagem da Sociedade Disciplinar para a Sociedade de Controle. Hoje as instituições sociais que constituem a Sociedade Disciplinar (a escola, família, fábrica...), em grande parte o mesmo que se compreendia com sociedade civil, estão em crise em toda a parte. A queda dessas instituições, o definhamento da sociedade civil e o declínio da Sociedade Disciplinar envolvem uma suavização do estriamento do moderno espaço social. Aqui surgem as redes da sociedade de controle.

Com relação à sociedade disciplinar e à sociedade civil, a sociedade de controle é um passo em direção ao plano de imanência. Foucault insistia no fato de que o exercício da disciplina é absolutamente imanente às subjetividades sob seu comando.

Seria exato dizer, portanto, que a instituição disciplinar não é, em si mesma, soberana, mas sua abstração do campo social de produção de subjetividade, ou sua transcendência sobre ele, constitui o elemento-chave no exercício de soberania na sociedade disciplinar. A soberania tornou-se virtual, mas nem por isso menos real, e é efetivada sempre em toda parte pelo exercício da disciplina. A passagem para a sociedade de controle não significa, de forma alguma, o fim da disciplina. Na realidade, o exercício imanente da disciplina é estendido ainda mais genericamente na sociedade de controle. O que mudou é que junto com o colapso das instituições, os dispositivos disciplinares tornaram-se menos limitados e vinculados espacialmente no campo social. A disciplina carcerária, escolar, de fábrica e assim por diante entrelaçam-se numa produção híbrida de subjetividade. As modernas instituições sociais produzem identidade sociais muito mais móveis e flexíveis do que figuras subjetivas anteriores. Essa transição para a sociedade de controle envolve uma produção de subjetividade que não está fixada em identidade, mas é híbrida e modulada. Uma subjetividade híbrida produzida na sociedade de controle pode não portar a identidade de um detento, de um paciente mental, ou de um operário de fábrica, mas ainda assim pode ser constituída simultaneamente por sua lógica. Logo, o indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas - fora das instituições, mas ainda mais intensamente governado por sua lógica disciplinar.

O comando imperial é o resultado de uma erupção social que subverteu as antigas relações que constituem a soberania. A multidão é governada com os instrumentos do sistema capitalista pós-moderno e dentro das relações sociais de submissão real. A multidão só pode ser governada segundo linhas internacionais, no contexto biopolítico de sua existência. Em sua autonomia desterritorializada, entretanto, essa existência biopolítica da multidão tem o potencial de ser transformada numa massa autônoma de produtividade inteligente, num poder democrático absoluto, como diria Spinoza. Se isso acontecesse, a dominação capitalista de produção, troca e comunicação seria derrubada. Prevenir isso é a primeira e principal tarefa do governo imperial. Logo, a constituição do Império depende, para sua própria existência, das forças que apresentam ameaça, as forças autônomas de cooperação produtiva. Seus poderes precisam ser controlados, mas não destruídos.

O controle imperial opera por três meios globais e absolutos: a bomba, o dinheiro e o éter: o desarmamento da população violenta e anárquica para evita a auto destruição foi a justificativa primeira de legitimação do controle, porém hoje já não funcionam, pois as operações se tornaram simplesmente administrativas e policiais e a destruição pela guerra nuclear torna-se cada vez menos provável. O dinheiro é o segundo meio global de controle absoluto. A construção do mercado mundial constitui, acima de tudo, na desconstrução monetária dos mercados nacionais. O dinheiro é o árbitro imperial, mas esse árbitro não tem localização determinada nem status transcendente. O éter é o terceiro e último meio fundamental de controle imperial. A administração das comunicações, a estruturação do sistema educacional, e a regulamentação da cultura aparecem hoje como prerrogativas soberanas. Porém, o espaço de comunicação está completamente desterritorializado. É absolutamente outro com relação aos espaços residuais em termos do monopólio de força física e da definição de medida monetária.

Logo, conclui-se que qualquer composição territorial de espaço imperial desse tipo é continuamente desestabilizada pela flexibilidade, mobilidade e territorialização fundamentais, no âmago do aparelho imperial.

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