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Leituras no
Império
Transições de
Soberania
Daniel Jesus
2.1 - Duas
Europas, Duas Modernidades
Inicia-se a parte dois
citando o romance O homem sem qualidades, de Robert Musil,
para explicar que na Europa do começo do século XX, existe um
conflito no centro da modernidade entre as forças imanentes do
desejo e da associação, e o poder da autoridade que impõe e
faz cumprir no campo social. Essa tensão deve ser controlada
pela soberania do Estado, mas essa questão reaparece sempre:
liberdade ou servidão, libertação do desejo ou submissão. Essa
é a contradição do conceito moderno de soberania.
"A Europa e a modernidade não
são construções unitárias nem pacíficas... Identificamos três
momentos na constituição da modernidade européia que dão base
ao conceito moderno de soberania: primeiro, a descoberta
revolucionária do plano de imanência; segundo, a reação contra
essas forças imanentes e a crise na forma de autoridade; e
terceiro, a resolução temporária dessa crise na formação do
Estado moderno como um locus de soberania que transcende e
medeia o plano de forças imanentes."
A soberania moderna surgiu
como resultado da reação européia e da dominação européia
dentro e fora de suas fronteiras. Sendo este um conceito
europeu que se desenvolveu junto com a evolução da
modernidade.
O Plano Revolucionário de
Imanência
Tudo começou com uma
revolução. Na Europa, entre 1200 e 1600, os seres humanos que
haviam herdado uma consciência dualista, uma visão hierárquica
da sociedade, uma idéia metafísica da ciência; passaram para
as gerações futuras uma idéia experimental de ciência, e
propuseram o ser como terreno imanente de conhecimento e de
ação. As origens da modernidade européia são geralmente
atribuídas a negação da autoridade divina, esse foi um ponto
importante, mas foi apenas um sintoma do evento da
modernidade: a afirmação dos poderes deste mundo, a descoberta
do plano de imanência.
A afirmação do ser foi
garantida por diversos escritores, como o britânico Dun Scouts:
"cada entidade tem uma essência singular". Por Dante
Alighieri: "todo o poder do intelecto possível". No surgimento
da modernidade européia, a humanidade descobriu seu poder e
integrou isso a uma nova consciência de razão e
potencialidade.
Para o século XV, são citadas
três vozes representativas desse movimento revolucionário.
Primeiro, Nicolau de Cusa: "esse movimento nunca chegará ao
fim. E é muito agradável, pois é a própria vida do intelecto;
nesse fato tal movimento encontra sua satisfação, pois sua
ação não gera fadiga, mas sim luz e calor". Segundo, Pico
della Mirandola que faz da mente humana uma máquina divina de
conhecimento. Finalmente, Bovillus que acredita na produção
artística e prática para tornar o homem duplamente homem,
elevando-o a um poder mais alto.
Portanto, nessas origens da
modernidade, o conhecimento passou do plano transcendente para
o plano imanente, é a descoberta da plenitude do plano da
imanência. Esse processo se deu no período de três ou quatro
séculos, entre tragédias e conquistas, e foi descrito por
muitos. No livro são citados: Francis Bacon, Galileu Galilei,
Guilherme de Occam, Marsílio de Pádua e Thomas More.
Destaca-se Spinoza, quando o horizonte de imanência e o
horizonte da ordem política democrática coincidem plenamente.
Modernidade como Crise
A modernidade é um conceito
que aparece em dois modos. O primeiro modo é um processo
revolucionário radical, que destrói suas relações com o
passado e declara a imanência do novo paradigma do mundo e da
vida. Desenvolve conhecimento e ação, colocando a humanidade e
desejo no centro da História. Entretanto, essa nova emergência
produziu uma guerra.
Houve, de fato, uma contra -
revolução, que por não poder destruir as novas forças e voltar
ao passado, procurou dominar e expropriar os movimentos
emergentes. Este é o segundo modo da modernidade, surgido com
a revolução da Renascença para alterar a sua direção,
relativizando as capacidades da ciência para transformar o
mundo, e principalmente se opondo à reapropriação do poder
pela multidão. A Renascença italiana foi o maior palco da
guerra civil pela realização da modernidade. Essa guerra
sitiou a vida popular e caracterizou-se num dos mais íntimos
recessos da História humana. A Revolução européia teve seu
Termidor. A vitória pela hegemonia do paradigma da sociedade
foi para o segundo modo, que buscava neutralizar o poder da
revolução. Através do século XVI, a exigência de paz tornou-se
suprema até mesmo para as consciências mais sábias e fortes,
que tiveram de ceder à condições de paz miseráveis e
humilhantes. "A paz foi marcada simplesmente pela fadiga da
luta e a usura das paixões. O Termidor ganhara, a guerra
acabou."
O Termidor não encerrou a
crise, pois a guerra civil foi absorvida dentro do conceito de
modernidade. "A própria modernidade é definida por crise",
esse é o pensamento negativo de muitos filósofos que não
conseguiram ver as duas modernidades em ação, e reconhecer a
crise como resultado do conflito entre elas, daí a dificuldade
de encontrarem alternativas dentro da modernidade. "Esse
conflito é a chave do conceito de modernidade, mas foi
dominado e refreado." No século XVII, a Europa voltou a ser
feudal. O maior exemplo é o retorno do poder da Igreja
Católica através da contra - reforma, que tinha sido abalado
pelo desejo revolucionário. Mesmo assim, movimentos de
renovação continuaram seu trabalho.
O conflito interno europeu se
refletiu como conflito externo. A Renascença coincidiu com a
descoberta da América e com o início do domínio europeu no
resto do mundo. Cita-se Samir Amin, que escreveu sobre esse
momento de controle interno europeu e descobertas
revolucionárias fora da Europa, iniciando o eurocentrismo. O
humanismo renascentista deu início a noção revolucionária de
igualdade humana, reforçada pela descoberta de outras
populações. Por sua vez, o poder contra - revolucionário tem a
necessidade de sujeitar outros povos à dominação européia. O
eurocentrismo nasceu como reação à potencialidade da
descoberta da igualdade humana, uma contra - revolução em
escala global. Mais uma vitória do segundo modo de
modernidade.
"No século XVII, o conceito
de modernidade como crise estava definitivamente consolidado."
Cientistas foram queimados; guerras civis na França e
Inglaterra; trinta anos de guerra civil alemã; conquista,
massacre e escravização das populações nativas da América. "Na
Segunda metade do século, o absolutismo monárquico parecia
impedir definitivamente o curso da liberdade nos países da
Europa continental." Enquanto isso, as conquistas externas
davam lugar ao colonialismo.
O Aparelho Transcendental
O debate é conduzido a partir
das obras de Ernest Cassirer, Max Horkheimer e Theodor Adorno
e Michel Foucault. "O projeto contra - revolucionário de
resolver a crise da modernidade desdobrou-se nos séculos de
Iluminismo. O desafio básico desse Iluminismo foi dominar a
idéia de imanência sem reproduzir o dualismo absoluto da
cultura medieval construindo um maniqueismo transcendental
capaz de disciplinar uma multidão de sujeitos formalmente
livres. O dualismo ontológico da cultura do ancient régime
teve de ser substituído por um dualismo funcional, e a crise
da modernidade acabou sendo resolvida com mecanismos adequados
de mediação. Era de suprema importância evitar que a multidão
fosse entendida."
À tríade força - desejo -
amor, que constituía a matriz produtora do pensamento
revolucionário do humanismo, opôs-se uma tríade de mediações
específicas. Natureza e experiência só são reconhecidas
através do filtro dos fenômenos; o conhecimento humano só pode
ser adquirido por meio da reflexão do intelecto; e o mundo
ético só pode ser comunicado pelo esquematismo da razão. O que
está sendo utilizado é uma transcendência que relativiza a
experiência e abole todas as instâncias do imediato e do
absoluto na vida e na História humana.
A primeira obra dessa
estratégia é de René Descartes. Apesar de buscar um novo
projeto de conhecimento, Descartes restabeleceu a ordem
transcendente, na mediação entre Deus e o mundo. Mediação
nunca bem definida, ficando mais próxima à vontade de Deus.
Com Descartes, estamos no começo da história do Iluminismo, ou
melhor, da ideologia burguesa. E nos séculos seguintes quase
todas as forças seriam atraídas para esse projeto. A simbiose
entre o trabalho intelectual e as retóricas institucionais,
políticas e científicas tornou-se absoluta nesse terreno.
A obra de Immanuel Kant está
no centro desse desenvolvimento. Kant consegue pôr o sujeito
no centro do horizonte metafísico mas ao mesmo tempo o
controla mediante três operações já mencionadas: esvaziamento
da experiência nos fenômenos, redução do conhecimento à
mediação intelectual e a neutralização da ação ética no
esquematismo da razão. Kant retoma a crise da modernidade, mas
essa crise é transformada em apologia transcendental como
único e exclusivo horizonte de conhecimento e ação.
"Já não existe nada que se
empenhe, deseje ou ame; o conteúdo da potencialidade é
bloqueado, controlado, hegemonizado pela finalidade.
Paradoxalmente, o ser analógico da tradição cristã medieval é
ressuscitado como ser dialético."
A modernidade estava
completa, e não havia possibilidade de ir além. A dialética da
crise foi pacificada sob a dominação do Estado, a paz e a
justiça voltaram a reinar. Segundo Hegel, "O Estado em si e
por si mesmo é o todo ético... É essencial para a marcha de
Deus através do mundo que o Estado exista".
Soberania Moderna
"A solução política oferecida
por Hegel para o drama metafísico da modernidade demonstra a
relação íntima e profunda entre a política e a metafísica
européias modernas."
A política funcionou como
arma essencial do segundo modo de modernidade, pois ofereceu
um maquinismo transcendente que pôde impor ordem à multidão e
impedi-la de se organizar espontaneamente e expressar sua
criatividade de forma autônoma. A dominação era aplicada sobre
as novas figuras de produção social dentro da Europa e sobre
os espaços coloniais. A política controlaria para que os
efeitos da dominação transcendente se adequassem aos modos de
associação e produção da nova humanidade. Em resumo, o
aparelho político seria transcendente.
A proposta de Thomas Hobbes
de um governante soberano definitivo e absoluto, um "Deus na
Terra", é fundamental para construção desse aparelho político
transcendente. O primeiro momento de Hobbes é uma guerra
civil, um conflito generalizado. O segundo momento, a fim de
garantir a sobrevivência, os seres humanos devem concordar com
um pacto que atribua à um líder o direito absoluto de agir. A
transição fundamental é feita mediante contrato que transfere
todo poder autônomo da multidão para um poder soberano que se
situa acima dela e que a governa. Esse aparelho político
transcendente corresponde ao que a filosofia moderna
apresentou por um esquematismo kantiano e uma dialética
hegeliana.
A soberania é definida por
transcendência e representação. A representação viria a
legitimar o poder do soberano. Esse modelo de soberania é a
primeira solução política para a crise da modernidade. Esse
modelo foi útil para o absolutismo monárquico, mas na verdade,
ele pode ser aplicado a diversas formas de governo: monarquia,
oligarquia e democracia. Não foi por acaso que Rosseau acabou
se assemelhando ao modelo hobbesiano. O contrato social de
Rosseau garante que a vontade geral provenha da alienação das
vontades isoladas para a soerania do Estado. "Como exemplo de
soberania, o "republicano absoluto" de Rosseau não difere,
realmente, do "Deus na terra" de Hobbes, o absoluto
monárquico."
"Existe, na base da moderna
teoria de soberania, entretanto, outro elemento muito
importante - um conteúdo que preenche e sustenta a forma da
autoridade soberana: Esse conteúdo é representado pelo
desenvolvimento capitalista e pela afirmação do mercado como
fundamento dos valores de reprodução social." E este foi o
elemento que sustentou a soberania a moderna européia e deu a
ela escala mundial. Arif Dirlik, distingue o eurocentrismo de
outros etnocentrismos e seu alcance mundial por estar apoiado
nos poderes do capital. Adam Smith articula essa relação da
modernidade européia com o capitalismo, comentando a
contradição entre enriquecimento privado e interesse público.
A princípio, o capitalismo sofre a intervenção da "mão
invisível" que o leva a atuar em áreas onde não estaria
interessado. Depois, A economia política vai mais longe e
reconhece a "mão invisível", que retira do privado para
promover o público, como produto necessário para a construção
de condições da autonomia do mercado. A partir daí, é
necessária a intervenção do Estado, para fazer com que o bem -
estar privado coincida com os interesses públicos. O fato
desse estado intervir ou não é secundário, o importante é a
mediação de interesses feita por ele.
"A soberania européia moderna
é soberania capitalista, uma forma de comando que
superdetermina a relação entre individualidade e
universalidade como função do desenvolvimento do capital."
A Máquina da Soberania
A soberania é um poder
político contra todos os externos, contra todos os demais
Estados, devendo alcançar, cada vez mais, a subordinação de
singularidades à totalidade. A burocracia opera esse aparelho.
A teoria essencial da soberania moderna, alcançando a
modernidade, realiza o novo "indivíduo" pela absorção da
sociedade no poder. "A relação entre a multidão e o Estado
soberano, fica invertida, de modo que agora é o poder e o
Estado que produzem a sociedade."
Focault se refere a essa
transição do paradigma de soberania para o de
governamentabilidade. A modernidade substituiu a
transcendência tradicional de comando pela transcendência da
função ordenadora. A administração se esforçou para fazer do
Estado mais íntimo da realidade social, e poder produzir um
trabalho social. Max Weber também descreveu os mecanismos
administrativos envolvidos na formação da soberania moderna.
Para ele, a abertura da modernidade é definida por uma cisão,
indivíduos e multidão contra o processo de reapropriação
estatal, sendo sempre marcada por essa tensão de forças
opostas. O encerramento da crise da modernidade num novo poder
soberano pode se realizar em formas antigas, como na
legitimação tradicional; ou, em formas inovadoras, como numa
legitimação carismática; ou finalmente, na forma mais eficaz
do fim da modernidade, na forma da racionalização
administrativa. Todavia, um último paradoxo: se de um lado
esse processo encerra a crise da modernidade, de outro ele a
reabre. O processo de encerramento é tão conflituoso quanto a
gênese da modernidade.
Weber tinha revelado a ilusão
da modernidade, o dualismo antagônico que está na base da
modernidade não pode ser sintetizado em uma unidade que
contenha a sociedade e política, forças produtivas e relação
de produção. A soberania moderna começava a declinar.
"A experiência da revolução
renascerá, mas dentro de novas condições que a modernidade
construiu de modo tão contraditório... Tudo é diferente e nada
parece ter mudado."
O Humanismo Depois Da
Morte Do Homem
Esse trecho traz uma análise
sobre as últimas obras de Michel Focault, que trazem de volta
o impulso revolucionário do humanismo da Renascença, o eu
sendo o responsável pela autocriação. Todavia, Focault sempre
defendeu a morte do Homem. A análise de Focault em suas
últimas obras indagam sobre o sentido do humanismo depois da
morte Homem. O anti - humanismo de Focault, estudado por ele e
Athusser na década de 1960, estaria vinculado ao trabalho de
Spinoza de trezentos anos antes. Este se recusou a conceder à
natureza humana leis que fossem diferentes das leis da
natureza. Donna Haraway levou esse projeto adiante e procurou
derrubar as barreiras entre o humano, o animal e a máquina.
"Pois se tivéssemos de o conceber separado da natureza, o
Homem não existiria. Esse reconhecimento é justamente a morte
do Homem."
Ambos os projetos têm como
base um ataque à transcendência. Há uma continuidade entre o
pensamento religioso e moderno. A transcendência de Deus é
simplesmente transferida ao Homem. A rejeição da
transcendência é a condição de possibilidade de pensar esse
poder imanente. Uma vez que reconheçamos nossos corpos e mente
pós - humanos, precisaremos explorar os poderes criadores que
nos animam como animam toda a natureza e realizam nossas
potencialidades. Isto é humanismo depois da morte do Homem.
2.2 - SOBERANIA DO ESTADO
- NAÇÃO
O Nascimento da Nação
"O conceito de nação na
Europa desenvolveu-se no terreno do Estado patrimonial e
absolutista." Esse Estado foi a forma política exigida para
governar as relações sociais feudais e as relações de
produção. "No século XVI, no meio da reforma e da batalha
entre as forças da modernidade, a monarquia patrimonial ainda
era apresentada como a garantia da paz e da vida social." O
desenvolvimento social e até mesmo a religião eram
propriedades do soberano. "No século XVII, a reação
absolutista às forças revolucionárias celebrou o Estado
monárquico patrimonial". Até as três grandes revoluções
burguesas (inglesa, americana e francesa), não havia nenhuma
outra alternativa política de peso.
O modelo sobreviveu e foi
transformado pelo desenvolvimento de características que
seriam legadas aos séculos seguintes. A identidade espiritual
da nação, mais do que o corpo divino do rei, agora propunha o
território físico e a população como extensão da essência
transcendente de nação. O conceito moderno de nação herdou o
corpo patrimonial do Estado monárquico e o reinventou com
outra forma. Estruturado pelos novos processos capitalistas
produtivos e pelas velhas redes administrativas absolutistas.
Essa relação estrutural foi estabilizada pela identidade
nacional: identidade cultural integradora, fundada numa
continuidade biológica, num território e numa língua comum.
A população sofreu mudanças
ao passar de um papel passivo de súdito para um papel ativo de
cidadão. Benedict Anderson assinala que a nação é geralmente
sentida como (ou pelo menos funciona como se o fosse) uma
concepção coletiva, uma criação ativa da comunidade de
cidadãos. O Estado nacional procura superar a soberania
moderna, tornando a soberania mais rígida, tentando livrar os
conceitos de soberania e modernidade da crise que os define,
fechando os caminhos alternativos dentro da modernidade que se
recusaram a conceder seus poderes à autoridade estatal.
Agora, era necessário um novo
equilíbrio entre os processos de acumulação capitalista e as
estruturas de poder, e as vitórias burguesas na Inglaterra e
na França confirmaram isso. "Por trás da dimensão ideal do
conceito de nação havia figuras de classe que já dominavam os
processos de acumulação." O conceito de nação sempre foi muito
relacionado ao conceito de modernização capitalista. Rosa
Luxemburgo argumentou contra o nacionalismo antes da Primeira
Guerra Mundial, dizendo que nação significa ditadura, sendo
portanto, incompatível com a organização democrática. A crise
da modernidade, na relação conflituosa entre multidão e poder,
não é resolvida pelo conceito de nação.
A Nação e a Crise da
Modernidade
Jean Bodin está no início do
pensamento europeu sobre soberania nacional. Bodin diz que a
soberania não pode ser produzida pela união do poder com a
multidão, nem seus problemas serem resolvidos enquanto
falar-se em contrato ou direito natural. A soberania consiste
na vitória de um lado sobre o outro. A força e a violência
criam o soberano. O Estado moderno assume a figura do
soberano, utilizando um corpo político unido, articulado como
administração para vencer as crises da modernidade.
Depois de Bodin, nos séculos
XVII e XVIII, duas escolas de pensamento também estudavam o
tema da soberania. "Ambas juntaram a construção do Estado
soberano com a constituição da comunidade sociopolítica que
mais tarde seria chamada de nação." Na escola de direito
natural, de Grotius, Althusius, Thomasius e Puffendorf,
figuras transcendentais de soberania foram trazidas à terra, e
a soberania foi distribuída em um sistema de múltiplos
contratos, para intervir na estrutura administrativa de poder.
Esse processo se preocupava com a legitimação pela máquina
administrativa que funcionava pelas articulações do exercício
do poder. A soberania passou a ser estudada como um processo
administrativo que visa a unidade dialética do poder.
Enquanto isso, os pensadores
historicistas do Iluminismo tentavam conceber a subjetividade
do processo histórico e então dar base ao título e exercício
da soberania. Um exemplo é Giambattista Vico, que fundamentou
as concepções jurídicas de soberania no desenvolvimento
histórico, e traduziu as figuras transcendentes de soberania
em algo divino e humano ao mesmo tempo. Os elementos da crise
não resolvida foram considerados ativos elementos do
progresso. Vico argumentou que a história ideal está
localizada na história de todas as nações, e J. G. Herder foi
mais radical dizendo que toda a perfeição humana é, em certo
sentido, nacional. A nação torna-se uma figura completa de
soberania ligada ao desenvolvimento histórico, que na verdade,
precede a soberania e possibilita a ação humana e a vida
social.
O Povo da Nação
O elo entre o conceito de
nação e o conceito de povo foi uma poderosa inovação.
Entretanto, essa noção de povo que parece revolucionária e
libertadora, nada mais é do uma ampliação da dominação que o
conceito moderno de soberania traz consigo desde o início.
"Assim como o conceito de nação completa a noção de soberania
alegando precedê-la, o conceito de povo completa o de nação
mediante outra regressão lógica simulada... Apesar de "o povo"
ser proposto como base originária da nação, o conceito moderno
de povo é, na verdade, produto do Estado - nação."
Como analisou Paolo Virno, o
conceito de povo é bem diferente do conceito de multidão.
Hobbes também fez tal distinção e afirmou que o povo é algo
uno, tem vontade e pode-se atribuir uma ação, e nada disso
pode ser dito da multidão. A multidão é uma multiplicidade, um
plano de singularidades, um conjunto aberto de relações.
"Enquanto a multidão é uma relação constituinte inclusiva, o
povo é a síntese constituída e preparada para a soberania...
Toda nação precisa fazer da multidão um povo."
Os mecanismos de racismo
colonial foram muito importantes para construção da identidade
do povo europeu. Assim como a representação de toda população
por uma raça, classe ou grupo hegemônico. Um exemplo é a
Revolução Francesa, que trouxe no início, o conceito de nação
supostamente como construção da hegemonia popular e o primeiro
manifesto consciente de uma classe social. Para Edmund Burke,
a soberania nacional é produto de uma construção espiritual de
identidade. A pátria e o povo são representativos indicadores
da eternidade mundana. Essa formulação burguesa do conceito de
soberania nacional superou todas as formulações anteriores.
"Na identidade, ou seja, na
essência espiritual do povo e da nação existe um território
embutido de significados culturais, uma história
compartilhada, uma comunidade lingüística; mas, além disso,
existe a consolidação de uma vitória de classe, um mercado
estável, o potencial de expansão econômica, e os novos espaços
para investir e civilizar. Em resumo, a construção de uma
identidade nacional garante uma legitimação continuamente
reforçada, e o direito e o poder de uma unidade sacrossanta e
irreprimível. Esta é uma mudança decisiva no conceito de
soberania. Casado com os conceitos de nação e povo, o moderno
conceito de soberania muda seu epicentro da mediação de
conflitos e crises para a experiência unitária de uma nação -
sujeito e sua comunidade imaginada."
Nacionalismo Subalterno
Fora da Europa o conceito de
nação funcionou de forma bem diferente. Parece que enquanto o
conceito de nação promove êxtase e restauração nas mãos dos
dominantes, é um instrumento de mudança e revolução nas mãos
dos subordinados. O direito à autodeterminação de nações
subalternas é, realmente, um direito à secessão do controle
das potências dominantes. Essa tese era defendida por Lenin,
quando mandava os socialistas exigirem dos social - democratas
dos países opressores que reconhecessem o direito dos países
oprimidos, o direito à separação política. Lutas anticoloniais
usaram esse conceito de nação para derrotar e expulsar os
inimigos ocupantes, e de maneira similar, políticas
antiimperialistas ergueram muralhas nacionais contra o capital
estrangeiro.
"A reivindicação de status de nação afirmava a dignidade do
povo e legitimava independência e igualdade. Em cada caso, a
nação é progressista estritamente como linha fortificada de
defesa contra forças externas mais poderosas." O lado da
estrutura que resiste a potências estrangeiras é, ele próprio,
um poder dominante que exerce a mesma pressão interna,
reprimindo diferenças e oposições em nome da unidade e da
segurança nacional. A nação parece progressista ao promover a
unificação de populações diversas, em um processo que envolve
a superação de inúmeras barreiras, e em muitos casos essa
estrutura foi preparada pela potência colonial européia. A
nação passa a ser a única maneira de imaginar a comunidade,
ficando a concepção de comunidade severamente empobrecida.
Assim como nos países dominantes, a multiplicidade e a
singularidade da multidão são negadas pela homogeneidade do
povo.
"Esses aspectos
simultaneamente progressistas e repressivos do nacionalismo
subalterno estão presentes, em toda a sua ambigüidade, na
tradição do nacionalismo negro nos Estados Unidos." Mesmo sem
território definido, Malcom X, como líder afro - americano,
passou a falar como povo ou nação negra para atingir os
"direitos humanos" e ganhar posição de destaque no fórum de
apelos do Congresso dos EUA para Assembléia Geral da ONU. É a
tomada de uma postura defensiva quanto ao poder externo
representativa do poder autônomo da comunidade unificada como
povo. O nacionalismo negro produz a autovalorização da
comunidade e permite a autodeterminação e autoconstituição,
defendendo e unificando a comunidade. Quando o nacionalismo
negro propõe a uniformidade e homogeneidade do povo afro -
americano, ofusca diferenças de classe por exemplo, e revela a
ambigüidade das funções progressistas do nacionalismo
subalterno. Pois as estruturas que defendem do ataque externo,
são as mesmas que oprimem internamente qualquer variação da
comunidade. Essas ambíguas funções progressistas existem
basicamente quando a nação imaginada não existe (ainda). Logo
que a nação começa a se formar como Estado soberano, suas
funções progressistas praticamente desaparecem e todas as
funções opressivas da soberania moderna florescem com força
total.
Totalitarismo do Estado -
Nação
Para muitos autores, poetas e
políticos, o Estado - nação proporciona uma nova dinâmica além
do desastre histórico e conceptual do moderno Estado soberano.
Entretanto, a crise da modernidade prossegue sob a autoridade
da nação e de seu povo. Quando a luta de classes reabriu os
problemas da modernidade nas primeiras décadas do século XX,
ficou clara a antítese entre o Estado e a multidão, entre
forças produtivas e relação de produção, que levou a uma
guerra civil acobertada pelo conflito entre Estados - nação
soberanas. Na Segunda Guerra Mundial, nações foram
apresentadas como substitutos de sujeitos de classe em
conflito. "Se a Alemanha Nazista é o tipo ideal de
transformação da soberania moderna em soberania nacional e de
sua articulação em forma capitalista, então a Rússia
Stalinista é o tipo ideal da transformação do interesse
popular e da lógica cruel que dele se segue num projeto de
modernização nacional..." Pode-se ver o conceito de soberania
e sua transformação em soberania nacional na transferência de
poder da monarquia prussiana para o regime de Hitler, sob o
consentimento da burguesia alemã.
No socialismo europeu, a
história pode ser vista a partir do fim do século XIX, com as
políticas dos movimentos operários mais fortes da Europa, que
levantaram a bandeira do interesse nacional. O reformismo
social - democrático foi investido nesse acordo em nome da
nação, entre burguesia e proletariado. Diversos professores
social - democratas austríacos, entre eles Otto Bauer,
insistiram na necessidade de considerar a nacionalidade um
elemento fundamental da modernização. O confronto entre
nacionalidade e desenvolvimento capitalista favoreceria o
proletariado e sua hegemonia progressista na sociedade. Esse
pensamento ignorava que o Estado - nação é indivisível, não é
transcendental e é transcendente para se opor a todas as
tendências. O bolchevismo entrou na mitologia nacionalista com
o panfleto pré - revolucionário de Stalin sobre o marxismo e a
questão nacional. Segundo este, revolução é modernização e o
nacionalismo é um estágio inevitável do desenvolvimento.
O socialismo nacionalista
europeu acabou parecido com o nacionalsocialismo, porque a
máquina abstrata da soberania está na essência de ambos. No
meio da guerra fria, o conceito de totalitarismo foi
introduzido na ciência política para denunciar a destruição da
esfera pública democrática, a continuação das formas extremas
de nacionalismo racista e a negação das forças de mercado. O
totalitarismo é a unificação da sociedade e do Estado, na soma
dos efeitos da vida social e na subordinação destes a uma
norma disciplinar, é a negação da vida social e da
possibilidade de existência de multidão. Sieyès viu o início
do totalitarismo nas concepções de soberania nacional e
popular do século XVIII, concepções que preservaram o poder do
monarca na mão da soberania nacional, e previu um futuro de
democracia totalitária.
2.3 - A DIALÉTICA DA
SOBERANIA COLONIAL
A crise da modernidade tem
desde o início relação com a subordinação racial e a
colonização. O Estado - nação procura reproduzir internamente
a pureza do povo, e do lado de fora produz os Outros, cria
diferenças raciais. "O oriental, o africano, o ameríndio são
todos componentes necessários da base negativa da identidade
européia e da soberania moderna como tal. (...) A soberania
colonial é outra tentativa insuficiente de resolver a crise da
modernidade."
A Humanidade é Una e Diversa
O pensamento revolucionário
do humanismo da Renascença acreditava na liberdade universal e
na igualdade dos seres humanos. Em escala global, esse é
considerado um pensamento utópico da globalização, que reage
às forças imperialistas e dominantes, e forja um projeto de
contraglobalização. Esse pensamento utópico é uma tendência
que constantemente entra em conflito com a ordem soberana e a
dominação. Três exemplos desse utopismo são Bartolomé de Las
Casas, Toussaint L'Ouverture e Karl Marx.
Meio século depois da chegada
dos espanhóis na América em Hispaniola, Bartolomé de Las Casas
testemunhou, horrorizado, a barbárie dos colonizadores,
interessados em riquezas, que escravizavam e matavam os
nativos. Destaca-se o fato de Las Casas, participante da
missão espanhola, afastar-se da opinião geral, contestar a
atitude dos espanhóis e reconhecer a humanidade dos
ameríndios. Para Las Casas, a humanidade é uma e a mesma.
Entretanto, Las Casas estava vinculado ao bispo de Chiapas, e
só reconhece a humanidade dos ameríndios, por serem
potencialmente cristãos. Sua visão é eurocêntrica de que a
generosidade seria dar aos nativos a religião e a cultura
européia, a salvação estaria na conversão cristã. Ele não
consegue ver a diversidade da humanidade.
No fim do século XVIII, o
domínio europeu na América se encontrava na estrutura
colonial, quando um escravo negro, chamado Toussaint
L'Ouverture, chefiou a luta pela independência na colônia
francesa de Santo Domingo (Haiti). Toussaint utilizou a
Revolução Francesa e concluiu que todos da colônia também
estavam incluídos na Declaração dos Direitos do Homem.
Reivindicava também a vitória sobre a "aristocracia racial" e
a abolição da escravatura. Toussaint utilizava as formas de
liberdade e igualdade mais disponíveis em um mundo
interconectado. Todavia, em certos momentos, Toussaint escreve
como se a idéia de liberdade tivesse sido criada pelos
franceses. Pode ser apenas estratégia. Mas "nem o desejo de
liberdade nem sua conquista tiveram origem na França."
Toussaint recebe, e usa corretamente, a retórica dos
revolucionários franceses que dá forma legítima à busca de
liberdade.
No século XIX, Karl Marx
reconheceu a utopia dos processos crescentes de interação e
comunicação global, e se horrorizou com a forma brutal de
conquista e exploração européia. O capitalismo nasceu na
Europa, com o sangue dos colonizados. Marx reconheceu a
importância da liberdade humana para todas as populações. Mas,
Marx atinge a ambigüidade, mais do que nos dois casos
anteriores, em um artigo dele à um jornal sobre o governo
inglês na Índia. Marx reconhece a brutalidade da introdução da
"civilização" britânica na Índia, mas adverte para o fato do
sistema de aldeias, anterior ao domínio britânico, não merecer
defesa alguma. A situação colonial, normalmente, leva à duas
escolhas: a dominação estrangeira ou dominação local, no caso,
a Inglaterra ou a estrutura tradicional indiana. Marx busca
outro caminho, um modelo de liberdade. Todavia, seu caminho
"alternativo" é o mesmo já percorrido pela sociedade européia,
ele não era capaz de entender a sociedade indiana por si
própria. Antes da colonização, o passado indiano era vazio e
estático, pois Marx só pode conceber a História fora da
Europa, se esta estiver trilhando o caminho europeu. A Índia
só progredirá se for transformada numa sociedade ocidental. O
eurocentrismo de Marx não é diferente do de Las Casas.
A Crise da Escravidão
Colonial
Sempre que a veia utópica
apareceu no processo histórico, ela foi suprimida militar e
ideologicamente pelas forças de dominação européia. O
surgimento da supremacia européia foi determinado, em grande
parte, pelo desenvolvimento e pela difusão do capitalismo. O
capitalismo se desenvolveu e se expandiu desigualmente pelo
globo. A produção escrava colonial em larga escala na América
está inserido nesse desenvolvimento complexo e contraditório
do capitalismo.
No fim do século XVIII, o
capitalismo europeu tinha uma relação muito ambígua com a
produção escrava na América, esta constituía um terço do valor
do comércio europeu. Capitalismo é a lógica do trabalho livre,
do trabalhador dono da sua força de trabalho, e por isso, o
capitalismo deve ser a antítese do trabalho escravo, uma força
civilizadora sem mistura. Todavia, essa lógica é mais
complexa. O capital não só submeteu e reforçou sistemas de
produção escrava mas também criou novos sistemas de
escravidão. A escravidão foi uma espécie de aprendizado para o
capitalismo, e mais do que isso, um sustentáculo relativamente
estável de superexploração sobre o qual se ergueu o
capitalismo europeu.
Houve também na Europa,
principalmente no lado Oriental, uma refeudalização da
economia agrária, um segundo período de servidão. O que
demonstra a perfeita compatibilidade da escravidão e da
servidão com a produção capitalista, e a importância destes
para o processo de desenvolvimento do capitalismo.
Os argumentos abolicionistas
não levaram o capital a desmantelar os regimes escravos, só a
revolta e a luta dos próprios escravos poderiam chegar a tal
ponto. A escravidão não foi abandonada por apelos morais ou
causas econômicas, mas foi derrubada por forças políticas, na
organização dos escravos em ameaça ao sistema, essa é a teoria
defendida por Robin Blackburn. A revolução haitiana foi um
divisor de águas na história moderna da revolta dos escravos e
serviu para revelar um contrapoder real. A relação entre
trabalho pago e escravidão no desenvolvimento capitalista é um
dos estudos de Yann Moulier Boutang.
A Produção da Alteridade
"Colonialismo e subordinação
racial funcionam como solução temporária para a crise da
modernidade européia, não apenas em termos econômicos e
políticos, mas também em termos de identidade e cultura. (...)
A construção negativa de outros não europeus é, finalmente, o
que funda e sustenta a própria identidade européia."
A identidade colonial
funciona como uma lógica maniqueísta de exclusão. Os
colonizados são excluídos dos espaços europeus em termos
territoriais, de direitos, de valores. Eles são construídos no
imaginário metropolitano como o outro, e são postos fora dos
valores civilizados europeus. A metrópole deve ser preservada
desse contato, por isso, as fronteiras são continuamente
vigiadas. O apartheid é a forma mais clara desse controle. A
alteridade é produzida pela metrópole.
Edward Said argumentou que o
Oriente foi criado, ou, orientalizado. Ele é homogeneizado,
todas as partes do Oriente são iguais (do Magreb à Índia) e o
seu caráter oriental é eterno e imutável. O resultado é o
Oriente como um objeto do discurso europeu. Entre as
disciplinas acadêmicas, a antropologia foi a que teve maior
papel nessa produção cultural, e isso foi motivo de uma
autocrítica radical nas últimas décadas. A partir das
diferenças reais dos povos não europeus, antropólogos do
século XIX construíram outro ser: a essência do africano, do
árabe, do aborígene, e assim por diante.
O outro foi importado para Europa - em museus, exposições
públicas e assim por diante - e posto à disposição do
imaginário popular. A antropologia do século XIX apresentava
culturas e indivíduos não - europeus como versões
subdesenvolvidas da civilização européia: eram sinais de
primitivismo representando estágios no caminho do mundo
europeu. Essa teoria evolucionária serviu para confirmar a
posição superior dos europeus e, com isso, legitimar todo o
projeto colonialista.
A Dialética do
Colonialismo
As representações
colonialistas, a construção do outro e a segregação têm uma
lógica absoluta e extremamente íntima. A diferença tem de ser
levada ao extremo. No imaginário colonial, o colonizado é
captado como algo bem distante. Segundo os relatos da época, o
indivíduo não europeu age, fala e pensa de maneira
completamente oposta ao europeu. Essa diferença absoluta é, em
seguida, fundadora do Eu. Ver, sentir, conhecer o lado oposto
é importante para a auto - afirmação. Esse contato, de forma
alguma, diminui a divisão entre as duas identidades em luta,
apenas torna importante o controle das fronteiras para que a
pureza de cada uma seja preservada. A identidade do Eu europeu
é produzida nesse movimento dialético. Só por oposição ao
colonizado o homem metropolitano realmente se torna ele mesmo.
Uma dialética negativa de reconhecimento. Os monumentos
dourados das cidades européias e a grandeza do pensamento
moderno estão fundados na luta dialética com o Outro.
A verdadeira situação social
nas colônias nunca se reduz a um binário absoluto entre duas
forças opostas. Por exemplo, negros e brancos sem considerar
os mulatos, que podem apoiar um ou o outro lado de acordo com
os seus interesses. Mas o colonialismo, como máquina abstrata
que produz identidades e alteridades, impõe divisões binárias
no mundo colonial. A realidade não é dialética, o colonialismo
é. Autores como Jean - Paul Sartre e Franz Fanon afirmam que a
construção dialética demonstra que nada existe de essencial
com relação às identidades em luta. Colonizador e colonizado
são representações que só funcionam um em relação ao outro. As
representações colonialistas servem para sustentar uma luta
constante. Uma violência necessária à afirmação do Eu europeu
e de seu poder. A dialética negativa de reconhecimento torna
claro o potencial de subversão inerente à situação.
O Bumerangue da Alteridade
Muitos autores sustentam que
essa dialética positiva do colonialismo, que sustenta a
identidade européia, deveria ser desafiada por uma dialética
revolucionária. "A dialética negativa tem sido concebida, mais
freqüentemente, em termos culturais como, por exemplo, o
projeto da negritude - a luta para descobrir a essência negra,
ou desvelar a alma negra. Segundo essa lógica, a resposta às
representações colonialistas tem de envolver representações
recíprocas e simétricas." Os poetas revolucionários da
negritude, como Aimé Césaire e Léopold Senghor, adotam o pólo
negativo que herdaram da dialética européia e o transformam em
algo positivo, reivindicando-o como um momento de
autoconsciência. O Outro domesticado tornou-se selvagem,
verdadeiramente Outro. Jean - Paul Sartre define como "o
momento do bumerangue."
"O momento de negatividade é
proposto como o primeiro passo necessário numa transição para
o objeto derradeiro de uma sociedade sem raças, que reconheça
a igualdade, a liberdade e a humanidade comum a todos." Apesar
da coerente lógica dialética dessa política cultural sartriana,
a estratégia que ela sugere parece completamente ilusória.
Afinal, a realidade e a História não são dialéticas.
A estratégia da negatividade
aparece diferente quando posta em termos políticos em vez de
culturais. Fanon, por exemplo, propõe a antítese anti -
revolucionária, em termos de violência física. O momento
original da violência é o do colonialismo. O segundo momento,
a resposta do colonizado a essa violência original. Fanon não
recomenda que o colonizado fuja da violência ou a evite, o
único caminho é a contraviolência. Este seria o único caminho
para a libertação. O escravo que não lutou pela liberdade, mas
a recebeu do seu senhor, será sempre escravo. É essa
"reciprocidade" que Malcom X propôs como estratégia para
enfrentar a violência da supremacia branca nos EUA. Para Fanon
e Malcom X, essa violência não leva a qualquer síntese
dialética, mas é sim, a expressão de um antagonismo real, uma
direta relação de força. A negatividade propõe uma separação
da dominação capitalista e abre o campo para a política.
A Dádiva Envenenada da
Libertação Nacional
"Durante o período da
descolonização e logo em seguida, a nação parecia ser um
veículo necessário para a modernização política e portanto o
indispensável caminho em direção à liberdade e à
autodeterminação. (...) Por soberania nacional entende-se a
independência da dominação estrangeira e a autodeterminação
dos povos, o que assinala o definitivo desaparecimento do
colonialismo."
As funções progressistas da
soberania nacional são sempre acompanhadas de estruturas
poderosas de dominação interna. Gandhi, Ho Chi Minh, Nelson
Mandela e outros líderes de lutas anticoloniais anunciaram que
a equação nacionalismo igual a modernização política e
econômica se revelava um perigoso ardil. "Na maioria dos
casos, ela envolve uma luta delegada, na qual o projeto de
modernização também estabelece no poder o novo grupo
dominante. (...) A revolução é oferecida, de mãos e pés
atados, à nova burguesia."
O próprio conceito de
soberania nacional libertadora é ambíguo, se não
contraditório. O Estado - nação pós - colonial funciona como
elemento essencial e subordinado na organização global do
mercado capitalista, contribuindo para sua organização e
funcionamento. A cadeia de representação revela a multidão que
representa o povo, este representado pela nação, que é
representada pelo Estado, todos procurando conter a crise da
modernidade. "A hierarquia do capitalismo global que subordina
os Estados - nação formalmente soberanos à sua ordem é
fundamentalmente diferente dos circuitos colonialistas e
imperialistas de dominação internacional." É o primeiro
vislumbre real da transição para o Império.
Contágio
Esse trecho narra a viagem do
médico francês Louis - Ferdinand Destouches à África. O médico
foi mandado pela Liga das Nações como higienista e viu doenças
em todos os locais visitados, a população estava impregnada
pela doença. Essa relação colônia e doença é natural. Pois, se
os nativos são doentes, eles merecem ser colonizados. A doença
significa corrupção física e moral, falta de civilização. O
perigo é o contágio. Os colonizadores se arriscam o tempo
todo, de contraírem qualquer doença, para trazerem a
civilização aos nativos.
Segundo o doutor, a doença
dos territórios coloniais não são sinal de morte, mas de
superadundância de vida. Não só o povo, mas a vegetação e o
terreno crescem sem limites. Um contágio ilimitado. O horror
do higienista reflete o horror europeu do contato e da troca
ilimitados. A globalização contemporânea derrubou muitas
fronteiras do mundo colonial, mas existe ainda o medo do
contágio. Esse medo pode ser visto com a epidemia da Aids,
mais forte na África do que em qualquer outro local do mundo.
Com o discurso todo direcionado para higiene, a África é o
local do imaginário colonialista: sexualidade descontrolada,
corrupção moral e falta de higiene. Os projetos internacionais
de contenção da doença se limitam à vigilância das fronteiras.
Mas a era da globalização é a era do contágio universal.
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