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Violência na França estimula o racismo
na Rússia
Imagem dos distúrbios amplia rejeição de russos a árabes e
negros. Por Marie Jégo, Em Moscou, para o Le Monde, em
17/11/2005
Não se passa um dia em Moscou sem que a onda de violência que
sacode a França seja abordada pelos meios de comunicação, pelos
políticos e durante os jantares na cidade. "O fim da sua
França!: é o que querem os incendiários", anuncia na sua
manchete a revista semanal "Vlast" desta semana; "Os mouros
estão em ação", diz o título de capa de uma outra revista, que
se propõe a explicar "por que Paris queimou". No último domingo
(13/11), a maioria dos canais de TV russos deu destaque em seus
programas de informação semanais para a "revolta dos
imigrantes", um tema que predomina desde então em todas as
conversas dos moscovitas.
Para a maioria dos russos, as imagens que lhes transmite sua
telinha de televisão são chocantes, em primeiro lugar porque
elas não são as da França que eles acreditam conhecer e cuja
cultura inegavelmente admiram, de Balzac, Victor Hugo e
Alexandre Dumas. É para esta França específica que eles
detiveram o seu olhar ao longo dos 85 anos durante os quais eles
estiveram sob o domínio da chapa de chumbo soviética, nela
enxergando algo como a quintessência da civilização.
Aqueles que fizeram a viagem até Paris - eles são cada vez mais
numerosos - se recuperam dificilmente do que eles viram: "Tantos
africanos, tantos árabes! Foi tão humilhante para mim, fazer
fila junto com eles na prefeitura", explica Vitia, um estudante
que esteve por alguns meses na França, dois anos atrás. "Ainda
bem que o seu ministro do Interior se prepara para expulsá-los:
isso irá acalmá-los", explica Boris, um militar aposentado.
As paixões estão inflamadas a tal ponto que a sucursal de Le
Monde em Moscou recebeu da província russa mensagens de
apoio que eram dirigidos à França, "contra esses árabes maldosos
e esses negros ingratos". Esta visão que revela certa fobia
racial está manifestada de maneira plena e detalhada num livro
recém-publicado. Intitulado "Mesquita Notre-Dame de Paris",
trata-se de uma obra de ficção que retrata Paris em 2047,
submetida à lei islâmica. Os habitantes, caso eles não estejam
convertidos, são obrigados a viver dentro de guetos. "A guerra
das religiões entre cristandade e Islã é mais do que inevitável:
ela já começou", declarou Elena Tchoudinova, a sua autora, em
entrevista à agência de notícias russa Interfax.
Isso porque aqui, o código de leitura que é fornecido de maneira
corriqueira para compreender o que está acontecendo na França é
o do choque das civilizações e das guerras de religiões.
Indagado a respeito de por que dos "distúrbios na França", por
ocasião de uma coletiva de imprensa, Viatcheslav Postavnin, o
chefe do departamento das migrações, apresentou como razão
principal o "fator islâmico". Por sua vez, Alexandre Privalov,
da revista semanal "Ekspert", explicou que os insurgentes na
França são "na sua maioria, jovens islâmicos". Os
"especialistas" franceses escolhidos pelos canais de TV para dar
explicações e sugerir análises reforçam esta tendência.
Entrevistado toda hora e sob qualquer pretexto, Jean-Marie Le
Pen (líder do Partido da Frente Nacional, de extrema direita) vê
as suas explicações - "Há muito não me canso de dizer que a
França irá se tornar argelina" - serem aceitas como se fossem
verdades absolutas e inquestionáveis.
Hélène Carrère d'Encausse, a secretária perpétua da Academia
Francesa e uma historiadora especialista da Rússia, explicou em
entrevista ao canal privado NTV: "Todo mundo se diz surpreso e
pergunta: por que as crianças africanas estão nas ruas e não na
escola? Por que os seus pais não podem comprar um apartamento? A
resposta é clara: muitos desses africanos, podem acreditar, são
polígamos". Numa outra entrevista à revista semanal "As Notícias
de Moscou", ela acrescenta: "A televisão francesa é tão
politicamente correta que isso está se tornando um pesadelo. Nós
temos leis que poderiam ter sido imaginadas por Stalin. Você vai
preso se disser durante um programa que há cinco judeus ou dez
negros fazendo isso ou aquilo. As pessoas não podem mais expor
suas opiniões sobre os grupos étnicos, sobre a Segunda Guerra
Mundial e sobre muitas outras questões".
As angústias de toda uma sociedade desde então ficaram
cristalizadas em torno da crise francesa. A Rússia, que se
considera como o derradeiro baluarte entre a Europa e a
barbárie, vê os seus próprios medos ressurgirem. "O que está
acontecendo na França também irá ocorrer em nosso país, estou
convencida disso", confia Elisaveta, uma professora de francês.
A todo instante, a questão volta a ser abordada, de modo
recorrente. "Seriam os acontecimentos na França uma ameaça para
nós?", indagava o canal de televisão pública RTR, na noite de
domingo. "Nada semelhante se produzirá aqui", explica Modeste
Kolerov, o homem encarregado nos quadros da administração
presidencial russa de lutar contra as "revoluções laranja" (nome
dado ao recente levante popular na Ucrânia, que por extensão se
aplica hoje a todo movimento separatista em relação à Rússia).
"A Rússia", lembra Kolerov em entrevista à agência de notícias
Itar-Tass, é, "já faz mais de mil anos", um Estado "multi-étnico".
Por sua vez, o sociólogo Valeri Tichkov, citado pelo canal RTR,
também exclui qualquer desdobramento semelhante: "Os nossos
imigrantes estão aterrorizados, apavorados; eu não creio que
eles ousem cometer um dia tais atos de barbárie", prevê. Desde a
ascensão de Vladimir Putin ao poder, o discurso nacionalista foi
ganhando força e o slogan "A Rússia para os russos!" conhece um
certo sucesso. Além de tudo, a guerra conduzida na Tchetchênia
tornou-se um terreno fértil para o ódio étnico contra os
"negros" (Tchernye), ou seja, os caucasianos e os súditos da
Ásia Central, os quais são descritos com freqüência, nas
declarações dos cidadãos comuns, como "bárbaros".
Em 4 de novembro, dia da festa da "unidade nacional", cerca de
mil manifestantes desfilaram nas ruas de Moscou, gritando
slogans racistas contra "os mafiosos caucasianos" e contra "os
traficantes de drogas do Tadjiquistão". Na semana passada, o
partido ultranacionalista Rodina (Pátria) divulgou em anúncios
recorrentes na televisão um curta-metragem de campanha em
previsão das eleições legislativas de 4 de dezembro. Nele, vê-se
um grupo de homens de cabelos negros, sentados num banco, dentro
de um parque, comendo melões e jogando as cascas no chão. Dois
homens passam - ambos são personalidades do partido Rodina:
Dmitri Rogozin e Iuri Popov - e lhes pedem para recolher o lixo.
"Vocês entendem o russo?", pergunta, irônico, Iuri Popov.
O pequeno filme encerra-se com o seguinte slogan: "Vamos limpar
a nossa cidade dos seus detritos!", que resume o programa
eleitoral do partido Rodina. Desde o protesto do embaixador do
Azerbaijão em Moscou, a peça de propaganda foi tirada do ar. Mas
a mensagem foi difundida por um tempo longo o suficiente para
permanecer na memória da população. O seu teor é emblemático dos
temores que motivam os russos atualmente e dos quais os eventos
na França são para eles o espelho.
Fonte:
Le Monde
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